Críticas

Robocop (87) | Rebonina 27

Ao longo deste mês de junho, noticiou-se que o cineasta James Wan (Jogos Mortais) está à frente de uma nova série baseada em RoboCop, desenvolvida para a Prime Video em parceria com a MGM, com início de filmagens previsto para 2027. O filme de 1987 é um dos meus favoritos da década, por isso resolvi revisitá-lo nesta semana.

A ideia de ver um super robô policial protegendo os cidadãos nas telonas, naqueles anos 80, era claramente muito comercial. Entretanto, essa ideia sempre esbarrava na tecnologia disponível da época e na própria dificuldade de se criar uma imagem convincente de um humanoide. A representação de robôs no cinema ainda oscilava entre extremos: ou eram máquinas totalmente não humanas, como R2-D2 em Star Wars, ou figuras quase indistinguíveis de pessoas, como o T-800 de O Exterminador do Futuro. Faltava algo no meio do caminho. Algo que parecesse robô, mas ainda carregasse traços humanos; que fosse forte e imponente, mas ao mesmo tempo claramente artificial, sem se confundir com um policial real.

Quando o trailer de RoboCop chegou aos cinemas, o público ficou imediatamente impressionado com o visual criado por Rob Bottin, artista de efeitos especiais que já havia trabalhado em O Exterminador do Futuro. O processo de criação do traje principal teve um orçamento de cerca de 1 milhão de dólares — um valor absurdo para a época, ainda mais tratando-se de algo classificado como “figurino”. Mas Paul Verhoeven tinha plena consciência de que o impacto do filme dependia diretamente dessa figura central. Mais do que um detalhe estético, o traje era o próprio conceito do personagem, e precisava carregar sozinho a força visual e simbólica da obra.

O roteiro de Robocop supreende pelas camadas

Entretanto, com o tempo, quem manteve RoboCop atualizado como obra não foi o traje icônico, que hoje funciona mais como uma referência afetiva para os fãs, mas sim o roteiro. Concebida por Edward Neumeier e Michael Miner, a ideia surgiu quando Neumeier trabalhou como assistente nas filmagens de Blade Runner, no início da década de 80. Detroit surge como uma cidade com um organismo doente, marcada pela violência exagerada e pela atuação invasiva da mídia. O roteiro constrói uma sátira ácida que critica o avanço do capitalismo corporativo e a transformação da segurança pública em produto, tudo isso embalado dentro da estrutura de um filme de ação dos anos 80.

O diretor holandês Paul Verhoeven já era um cineasta tarimbado em seu país de origem. Inclusive, foi ele quem revelou para o mundo o ator Rutger Hauer, que mais tarde se tornaria conhecido internacionalmente como o vilão de Blade Runner. Hauer, por sua vez, chegou a sugerir Verhoeven para dirigir nas telonas o roteiro de Edward Neumeier. Ainda assim, o diretor relutou três vezes antes de aceitar o projeto, pois não enxergava de imediato a camada de crítica social e política que o material poderia oferecer.

Robocop - O Policial do Futuro
Robocop – O Policial do Futuro

A abertura de Robocop não poupa a imprensa

A abertura de RoboCop reflete exatamente como girava o mundo capitalista naquela metade dos anos 80. Âncoras de um telejornal dão bom dia aos telespectadores com notícias sobre violência. Tensões nucleares na África do Sul — que pouco têm a ver com a manhã do cidadão de Detroit. Um projeto de paz chamado “Guerra nas Estrelas” — sentiu a ironia? Além disso, a notícia da morte de policiais causada por um chefe do crime. No meio disso, uma propaganda de transplante cardíaco em formato de televenda. De cara, RoboCop, muito mais do que tentar justificar a necessidade de seu personagem-título, satiriza o absurdo do consumo midiático daquele período, onde tudo — guerra, saúde, política e morte — é reorganizado como produto televisivo com o mesmo peso e a mesma linguagem.

O frame seguinte ao fim do telejornal é muito bom. A legenda: “Departamento de Polícia de Detroit”. A cena: um prédio antigo, cercado por arranha-céus modernos. Na sequência, advogados do chefão do crime discutem aos gritos com o chefe da polícia, que os expulsa aos empurrões. Puro caos institucionalizado. Nesse momento, somos apresentados a Murphy. Sabemos que ele será o policial que dará origem ao RoboCop — não por escolha própria, mas porque acabará sendo violentamente ferido. A partir daí, a OCP aproveita a oportunidade para utilizar seu protótipo como solução corporativa, colocando-o em operação com a promessa de proteger os cidadãos de Detroit.

Peter Weller: a escolha perfeita para Robocop

Murphy é vivido por Peter Weller. A escolha por um rosto desconhecido não poderia ter sido mais acertada, já que o ator não precisaria competir com o traje, que cobre completamente o rosto nas cenas de ação. Além disso, assim como em Darth Vader em Star Wars, a voz aqui assume um papel fundamental, tornando-se parte essencial da construção do personagem cibernético e a dele é forte o suficiente. Outro motivo importante para a escolha foi o físico mais magro de Weller, que se encaixava melhor na estrutura rígida e mecânica do traje, facilitando sua movimentação e contribuindo para a estética final do RoboCop em cena.

A privatização da polícia é criticada ao longo de todo o filme como um processo de transformação do policial em peça substituível dentro de uma engrenagem corporativa. No vestiário unissex, a individualidade aparece apenas na placa do armário, que pode ser trocada com facilidade, reforçando a ideia de que a identidade ali é temporária e descartável. Nota-se ainda que Murphy chega ao departamento poucos minutos antes da oficialização da morte do policial que estava gravemente ferido, como se a própria máquina institucional não pudesse parar. Essa lógica é sintetizada na fala do chefe ao final da mesma cena diante uma ameaça de greve: “Não somos bombeiros, não podemos parar.” A frase cria uma falsa sensação de importância e continuidade, ao mesmo tempo em que evidencia o oposto: a incapacidade do sistema de reconhecer indivíduos, tratando policiais como recursos substituíveis dentro de um fluxo constante de reposição.

Paul Verhoeven não economiza na violência

Na sequência, somos apresentados às instalações da OCP — um arranha-céu de quase 100 andares. Ali descobrimos com ainda mais clareza a intenção da empresa: destruir Detroit City, construir Delta City e substituir policiais humanos, que comem, descansam e falham, por máquinas de combate ao crime capazes de operar 24 horas por dia. Modelos ideais para o que seria o futuro da sociedade.

Entretanto, durante uma desastrosa — e violenta — apresentação de um protótipo ainda longe de ser humanoide, fica evidente que a disputa pelo capitalismo, ou melhor, pela hegemonia dentro do próprio sistema corporativo, também acontece dentro da OCP. Jones (Ronny Cox) e Morton (Miguel Ferrer) competem diretamente para apresentar a melhor “solução”, transformando a segurança pública em um projeto de ambição, prestígio e controle.

Enquanto isso, Murphy e sua nova parceira Lewis (Nancy Allen) saem em sua primeira missão. Roubo a banco, perseguição e, em seguida, a cena pela qual RoboCop é lembrado até hoje: o violento atentado da gangue de Clarence contra Murphy. Eles descarregam sua munição sobre o corpo do policial, numa das cenas mais marcantes do cinema dos anos 80.

Robocop tão humano quando qualque um de nós

Murphy “volta à vida” como RoboCop. A decisão de apresentar sua percepção inicial como se fosse a imagem de uma transmissão de TV faz total conexão com a proposta do roteiro, reforçando a ideia de que até a experiência humana agora é mediada e filtrada por sistemas de informação.

Outro detalhe significativo é que fica claro que o RoboCop não possui uma visão ou audição tão refinada quanto a nossa, evidenciando uma ansiedade do sistema em vender tecnologia como algo mais avançado e impressionante do que realmente é. A própria limitação do personagem expõe essa contradição. Paradoxalmente, a competência do RoboCop em campo diz mais sobre Murphy do que sobre a tecnologia criada pela OCP. O que emerge ali não é a superioridade da máquina, mas a permanência do humano dentro dela.

O que se segue, após uma exibição de RoboCop como eficiente “homem da lei”, é a humanização do personagem por parte do roteiro, que a cada cena transforma a máquina em Murphy. Em paralelo, desenvolve-se a disputa pelo poder dentro da OCP, onde diferentes interesses corporativos entram em conflito. Entretanto, RoboCop é o verdadeiro centro dessa disputa. Qualquer ação sua, seja ela de sucesso ou falha, acaba servindo aos interesses de um dos lados da OCP, transformando o personagem em peça-chave dentro de um jogo corporativo maior do que ele próprio.

A história de Murphy é tão interessante e bem desenvolvida que, mesmo com a intenção do roteiro de criticar o consumismo, a mídia e as corporações, ela acaba tomando quase toda a atenção do público. Aliás, mal se percebe que, para um filme de ação, ele não possui tantas sequências tradicionais do gênero quanto se imagina — o foco está muito mais na construção do personagem do que na ação em si.

Robocop: uma franquia

RoboCop tornou-se um enorme sucesso. Símbolo do cinema de ação e ficção científica da época, ao lado de outros como O Exterminador do Futuro e Predador, o filme consolidou-se como um dos marcos do gênero nos anos 80. Assim como esses títulos, também gerou continuações, uma refilmagem e séries derivadas nas décadas seguintes.

Visto hoje, parece ainda mais atual. Em tempos de internet e inteligência artificial guiando a vida das pessoas, é impossível não traçar paralelos com a proposta do filme e os dias atuais. A falsa ilusão de que estamos personalizando tudo às nossas necessidades individuais esconde, muitas vezes, um processo inverso: a troca gradual do orgânico pelo digital, com seus ganhos evidentes, mas também com suas perdas silenciosas.

Claro que a mensagem final de RoboCop é que qualquer gota de humanidade e honestidade pode superar um oceano de cinismo e corrupção, apesar de tudo o que isso pode custar em esforço e sacrifício. E, para um filme de ação feito em 1987 que aparentemente só queria entreter, nada mal.

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