
Esta semana recebemos a triste notícia da morte da cantora Bonnie Tyler, aos 75 anos. Muito querida no Brasil pelo sucesso de suas canções na primeira metade da década de 80 e até por sua parceria com Fábio Jr. no dueto “Sem Limites Pra Sonhos”, minha lembrança mais forte da cantora sempre será “Holding Out for a Hero”. Apesar de ter ganhado vida própria ao longo das décadas, aparecendo em diversas trilhas e produções, a canção nasceu originalmente para Footloose – Ritmo Quente (1984) e embala uma das cenas mais memoráveis do filme: o duelo de tratores entre Ren e Chuck.
A história é, no fundo, sobre a espera pela chegada de um herói. Em Footloose, esse herói é Ren McCormack (Kevin Bacon), que chega com sua mãe a Bomont, uma pequena cidade onde eles vão morar com os tios. O local carrega uma ferida recente: após a morte de alguns jovens em um acidente de carro ao voltarem de uma casa noturna em uma cidade vizinha, a comunidade aprovou uma lei proibindo a dança e a música alta.
Ren é o herói da música de Bonnie Tyler
Ren é exatamente o oposto do que aquela cidade representa. Um garoto bom, trabalhador e responsável, mas que também gosta de viver sua juventude, ouvindo rock and roll, dançando e aproveitando a liberdade que sempre fez parte de sua identidade. Por isso, aquela lei municipal parece absurda aos seus olhos. Mais do que uma simples proibição, ele enxerga ali uma tentativa de controlar a forma como os jovens se expressam. Muitos encontram na jornada de Ren, similaridades com Daniel LaRusso, de Karate Kid, lançado no mesmo ano, que também muda de vizinhança com sua mãe e tem problemas para se adaptar, mas as semelhanças param por aí.
Além disso, sua chegada movimenta as relações daquela pequena comunidade. Ren desperta o interesse de Ariel (Lori Singer), filha do reverendo Shaw Moore (John Lithgow), irmã de um dos jovens mortos no acidente e namorada de Chuck, o garoto mais problemático da cidade. Aos poucos, ele percebe que a proibição da dança esconde conflitos muito maiores: culpa, medo e a dificuldade dos adultos em lidar com uma nova geração.
Herbert Ross era o diretor perfeito para Footloose
Footloose não poderia ter encontrado um diretor melhor para sua chegada aos cinemas. Herbert Ross já possuía uma relação muito forte com histórias envolvendo música e dança, tendo dirigido filmes como Momento de Decisão (1977), A Garota do Adeus (1977) e Nijinsky (1980). Mais do que coreografias ou espetáculos, seus trabalhos frequentemente utilizavam a arte como forma de revelar conflitos internos e emoções que os personagens não conseguiam expressar apenas com palavras.
Além disso, diversos de seus filmes exploravam jovens enfrentando dificuldades de relacionamento, ausência de referências familiares ou a busca por uma identidade própria. Essa sensibilidade encaixava perfeitamente com o roteiro de Footloose, que usa a música não apenas como pano de fundo, mas como linguagem para revelar conflitos.
A dança representa a necessidade de expressão dos jovens diante de uma sociedade que tenta controlá-los, como acontece com Ren. Ao mesmo tempo, também expõe conflitos familiares mais profundos, especialmente na relação entre Ariel e seu pai, o reverendo Shaw Moore. Assim, por trás da proibição da música existe uma discussão muito maior sobre culpa, medo, autoridade e a dificuldade de uma geração em compreender a outra.
Além disso, Herbert Ross soube aproveitar muito bem seu elenco. Desde nomes já consagrados como John Lithgow e Dianne Wiest até jovens talentos como Kevin Bacon, Lori Singer, Christopher Penn e uma ainda jovem Sarah Jessica Parker, todos parecem perfeitamente encaixados em seus personagens. O grande mérito do elenco está justamente em evitar caricaturas.
John Litgow se destaca em Footloose
Talvez o núcleo vivido pelo reverendo Shaw Moore, sua esposa Vi e Ariel seja aquele que mais sustenta a dramaticidade de Footloose – Ritmo Quente. Afinal, são eles que carregam a dor da perda e precisam conviver com uma ferida que não cicatrizou. Para um reverendo, cuja missão é justamente fortalecer a fé de uma comunidade, lidar com a própria culpa e sofrimento torna-se ainda mais difícil. E sua família, todos os domingos, precisa ajudar a renovar a esperança de uma cidade traumatizada.
Ren não chega para destruir essa fé ou desafiar a religião daquela comunidade. Ele chega para mostrar que o medo pode transformar proteção em controle. Sua presença faz a cidade perceber que, ao tentar evitar uma nova tragédia, acabou impedindo seus jovens de viverem plenamente. Como o próprio reverendo diz em um de seus sermões: “Se não confiarmos em nossos filhos, como eles serão dignos de confiança?”
Footloose tem uma trilha que é a cara dos anos 80
E para que a jovem geração da MTV comprasse todos esses dramas e se sensibilizasse com a situação dos jovens de Bomont, a música era parte fundamental. Lançado apenas um ano depois de Flashdance, a produção sabia que aquela era a receita dos anos 80: unir uma boa história a uma trilha sonora capaz de transformar o filme em um fenômeno cultural. O desafio era não apenas escolher boas canções, mas encontrar artistas que representassem exatamente o espírito daquela geração.
Não à toa, filme e canção-tema dividem o mesmo título. Interpretada por Kenny Loggins, que naquele momento transitava entre o pop rock e o country, “Footloose” tornou-se um enorme sucesso, recebeu indicação ao Oscar de Melhor Canção Original e ajudou a transformar o filme em um símbolo da década. “Let’s Hear It for the Boy”, de Deniece Williams, que embala a divertida montagem de Ren ensinando Willard a dançar, também conquistou grande sucesso nas paradas.
Já “Waiting for a Girl Like You”, do Foreigner, mesmo tendo sido lançada dois anos antes, ganhou uma nova associação ao longa por aparecer em um dos momentos românticos do filme. E “Holding Out for a Hero”, de Bonnie Tyler, como já citado, tornou-se outro grande destaque da trilha. Sem dúvida, a trilha sonora de Footloose é um dos maiores acertos musicais do cinema da década de 80. Mais do que acompanhar as cenas, ela ajudou a definir o próprio espírito do filme: juventude, liberdade e a necessidade de encontrar uma voz própria.
Religião é tema mais delicado
Talvez o tema mais delicado de Footloose seja justamente o uso da religião como justificativa para manter a lei em vigor, como se dançar e ouvir rock and roll representassem uma ameaça moral à comunidade. Nesse sentido, o personagem do reverendo Shaw Moore torna-se ainda mais importante, pois ele não representa apenas a autoridade que criou ou sustenta a proibição, mas também alguém que precisa enfrentar as consequências do medo levado ao extremo.
Em momentos de radicalismo, como na tentativa de queimar os livros da escola ou ao ouvir as palavras duras da própria filha dentro da igreja, Shaw percebe que a fé pode ser distorcida quando nasce mais da insegurança do que da esperança. Ao contrário de alguns membros da comunidade, ele busca o equilíbrio e entende que proteger os jovens não significa controlar cada escolha que eles fazem.
Portanto, Footloose – Ritmo Quente se diferencia de outros filmes de sua geração justamente por não limitar sua narrativa a uma conquista individual. Enquanto produções como Flashdance, Karatê Kid e Top Gun utilizam a mesma estética de videoclipe e acompanham protagonistas em busca de superação pessoal, o filme de Herbert Ross amplia seu horizonte ao transformar o conflito de um jovem em uma discussão coletiva sobre liberdade, autoridade e convivência entre gerações.
Curiosamente, assim como aconteceria três anos depois com Dirty Dancing, a dança é o elemento que movimenta a história, mas nunca é apenas sobre dança. Em Footloose, ela representa a necessidade humana de se expressar, de encontrar uma identidade e de ter o direito de escolher como celebrar a própria existência. No fim, o filme não é apenas sobre jovens querendo dançar. É sobre liberdade de expressão.




