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Evil Dead – A Morte do Demônio | Rebobina 26

Esta semana vi o anúncio de que mais um filme da franquia Evil Dead será lançado: Evil Dead: Em Chamas. Aliás, novamente produzido pelo trio Sam Raimi, Bruce Campbell e Rob Tapert, responsáveis pelo filme original de 1981. Foi justamente aquele filme que me tirou algumas noites de sono quando o assisti pela primeira vez em VHS, no final dos anos 80. Um ótimo gancho para revisitar um dos primeiros grandes marcos do terror independente moderno já realizados.

Lembro muito bem que, na minha adolescência, havia alguns filmes que a turma considerava um verdadeiro “teste de resistência” — aqueles que mostravam se você aguentava assistir até o fim. Evil Dead – A Morte do Demônio era um deles. Por tratar de possessão demoníaca, assim como um dos filmes que mais serviram de inspiração para Sam Raimi, O Exorcista, ele trazia a ideia de que qualquer pessoa ao seu lado poderia ser tomada por uma força maligna. Mas, aqui, o mal não era apenas uma presença espiritual difusa: ele era libertado a partir de um objeto específico, um livro.

A premissa de Evil Dead – A Morte do Demônio é simples

Na trama, um grupo de amigos vai passar um fim de semana numa cabana velha e isolada no meio de uma floresta e acaba tendo acesso ao Necronomicon, o Livro dos Mortos. Ao ouvirem uma fita cassete com trechos lidos de algumas de suas páginas, o mal é libertado e passa a se manifestar por meio de possessões, não apenas destruindo o hospedeiro, mas também atacando tudo e todos ao seu redor.

Alguns detalhes importantes em Evil Dead o diferenciam de tantos outros filmes de terror que vieram antes. O primeiro deles é o uso do isolamento. Ali, não há para quem pedir socorro. Não existe saída, não existe comunicação com o mundo exterior — apenas a floresta e a cabana como um universo fechado. Mas o mais marcante é o uso da câmera rápida, tremulante e nervosa, muitas vezes assumindo o ponto de vista da própria entidade maligna. Inteligentemente, Sam Raimi entende que não poderia filmar esse mal de forma convencional, pois a força demoníaca não caminha: ela voa, flutua, avança em velocidade impossível, atravessa o espaço como uma presença sem corpo definido.

Além disso, os poucos recursos disponíveis na época acabam jogando a favor do filme. O uso constante de closes, a ausência de cenários artificiais chamativos e a simplicidade da encenação fazem com que tudo pareça mais próximo da realidade. Os atores não têm aparência de “personagens de cinema”, mas de pessoas comuns, o que cria um nível raro de identificação entre espectador e ambiente. Existe uma sensação de proximidade quase desconfortável. A cabana não parece um set de filmagem, mas um lugar possível. E talvez por isso o filme tenha mudado a forma como o público passou a enxergar cabanas isoladas na floresta desde então — como espaços que já carregam, por si só, uma ameaça invisível.

Evil Dead - A Morte do Demônio
Evil Dead – A Morte do Demônio

Clássico desde a primeira cena

Evil Dead – A Morte do Demônio já nasce clássico desde a primeira cena. Logo após o título surgir em vermelho sangue, algo se movimenta de forma rápida sobre um pântano. Sons sombrios e distorcidos ecoam ao fundo, criando uma atmosfera de ameaça imediata. A montagem intercala essa presença desconhecida com cinco jovens cantando e viajando de carro pela estrada, aparentemente em clima leve e descontraído. É nesse contraste que o mal age pela primeira vez, interferindo de forma sutil no volante e quase provocando um acidente entre o carro e um caminhão que cruza a estrada. Ainda não sabemos o que é aquilo, mas sua presença já está estabelecida: algo está ali, escondido na floresta, e não é humano.

O roteiro faz questão de deixar claro que aqueles jovens não são exatamente santos. Ao passarem por alguns caipiras à beira da estrada, que gentilmente acenam para eles, um dos rapazes responde gritando para irem para o inferno, dizendo que só estava testando a buzina. Em uma simples cena, Sam Raimi já estabelece um tom importante: talvez alguns deles não estejam totalmente livres de culpa. Ao mesmo tempo, ele injeta humor nessa pequena provocação, sugerindo uma ironia quase moral — como se o próprio filme brincasse com a ideia de que aquele garoto arrogante talvez seja o primeiro a “merecer” ir para o “inferno”. Incrédulo o jovem ainda solta um “Jesus Cristo”, como se profanação e religião não valesse nada na boca daquele garoto.

Após um pequeno problema numa ponte de madeira que deveria ser “sólida como uma rocha”, como afirma o mesmo jovem falastrão, eles chegam próximos da cabana. A câmera os acompanha por trás, ligeiramente elevada, criando uma sensação de observação constante. Sam Raimi não se preocupa se algum galho ou pedaço de mato invade a lente pelo caminho, porque sua intenção não é sugerir que o mal os segue, mas evidenciar sua presença como algo já ativo naquele espaço. Isso faz toda a diferença na experiência, pois deixa claro que não se trata de uma ameaça abstrata ou distante, mas de um jogo que já está em andamento — um jogo do qual os jovens, sem perceber, já fazem parte.

O uso do som natural como trilha sonora de Evil Dead – A Morte do Demônio

A trilha sonora aqui ganha contornos mais orgânicos e misteriosos. Além do sintetizador ao fundo, há um ritmo de batida constante, quase imperceptível, que mais tarde descobrimos ser um banco de madeira batendo repetidamente, mesmo sem qualquer vento. Nesse detalhe, a própria cena passa a funcionar como parte da trilha sonora. Existe uma fusão entre som e ambiente, onde elementos físicos do cenário produzem a sensação de inquietação sonora e presença invisível. Cada cena parece milimetricamente pensada para manter o espectador em estado constante de atenção, como se algo estivesse sempre prestes a acontecer.

O garoto falastrão é Scott (Richard DeManincor), que alugou a cabana com um amigo por ser barata para passar os dias com Ash (Bruce Campbell), Cheryl (Ellen Sandweiss), Linda (Betsy Baker) e Shelly (Theresa Tilly). Ele é o primeiro a entrar no local — típico de alguém que tenta parecer seguro em um ambiente como aquele, mas que, curiosamente, já é imediatamente intimidante pela fotografia de Tim Philo. Scott faz um tour sozinho pelo espaço, como se estivesse nos apresentando, junto com o próprio filme, os objetos que terão importância ao longo da narrativa: cabeças de animais caçados, espelhos antigos, correntes e outros elementos que sugerem um passado estranho e desconfortável naquele lugar.

Aliás, sabendo hoje que o protagonista é Ash (Bruce Campbell), em nenhum momento o roteiro entrega isso de forma óbvia no primeiro ato, nos distraindo da expectativa comum de que o protagonista será automaticamente o sobrevivente final. O filme evita essa lógica tradicional do terror, em que rapidamente identificamos quem “vai ficar até o fim”. Em Evil Dead – A Morte do Demônio, todos parecem igualmente vulneráveis, e isso reforça a imprevisibilidade da narrativa desde o início.

Semelhança com Harry Potter e O Senhor dos Anéis

O manifesto do mal mesmo antes da descoberta do Necronomicon me remete a Voldemort em Harry Potter ou a Sauron em O Senhor dos Anéis. Ele paira no ar, consegue interferir e agir, mas ainda precisa de um elemento maior para uma verdadeira libertação. Como se dissesse ao espectador: ele já existe e está por aí, mas ainda não atingiu sua forma plena — e isso, por si só, já é assustador. Entretanto não se trata de um mundo de magia, é uma cabana numa floresta como tantas outras que você já deve ter visto.

Há ainda uma orquestração interessante entre os diálogos e a ação do mal. Frases de efeito costumam ser seguidas imediatamente por manifestações da entidade, o que evidencia esse jogo quase teatral entre fala e resposta sobrenatural. Um exemplo é a cena do jantar, quando Scott diz “vamos festejar” e a tampa do porão se abre como se fosse uma resposta direta, quase um convite maligno dizendo: “a festa será aqui embaixo”.

Sam Raimi constrói o horror

A forma com que Sam Raimi constrói o horror também é impressionantemente eficiente. A princípio, as manifestações são físicas, mas ainda não violentas. Assim, o filme não prepara o espectador para toda a violência, intensidade e brutalidade que serão reveladas mais adiante. Aliás, o primeiro momento em que a violência se manifesta de forma mais intensa se tornou uma das cenas mais marcantes do cinema de horror: a violência sexual a Cheryl. Ao sentir uma presença do lado de fora da cabana, ela sai para verificar e acaba sendo atacada pela força que habita a floresta. A cena utiliza efeitos visuais eficientes para uma produção de baixo orçamento e, vista hoje, ainda mantém impacto pela forma como sugere o horror sem depender totalmente de recursos explícitos.

No entanto, ainda não é aqui que o filme faz uso pleno do sangue e da maquiagem grotesca que mais tarde se tornariam suas marcas mais reconhecíveis, responsáveis por tirar o sono de muita gente. O que se vê nas cenas seguintes ainda funciona como preparação, quase uma escalada gradual do horror. Sam Raimi demonstra total consciência de que revelar suas armas aos poucos aumenta o impacto da experiência, fazendo com que cada nova manifestação seja mais intensa do que a anterior.

Outra excelente escolha do roteiro foi não “matar” ou eliminar rapidamente os personagens, que já são poucos. A opção por mantê-los em cena pelo maior tempo possível, mesmo após serem possuídos, contribui diretamente para a criação de sequências cada vez mais aterrorizantes. Somado a isso, há o uso preciso das vozes como elemento de terror constante, funcionando quase como uma trilha sonora orgânica do horror. As vozes distorcidas e sobrepostas criam uma presença contínua da entidade, mesmo quando ela não está fisicamente visível.

O uso do humor em Evil Dead – A Morte do Demônio ainda surge de forma sutil, quase como uma rachadura dentro do próprio terror. Após a libertação do mal, a entidade passa a dialogar e interagir de maneira cada vez mais provocativa e zombeteira, especialmente no ato final envolvendo Linda. Essa mistura entre ameaça e deboche cria um efeito inesperado, que desestabiliza o tom puramente assustador do filme. O resultado foi tão marcante que os próprios realizadores perceberam o potencial dessa abordagem e acabaram direcionando as continuações diretas para um equilíbrio muito mais explícito entre horror e comédia, transformando o tom da franquia de forma definitiva.

Sam Raimi deixa claras suas homenagens, seja a O Exorcista, nas sequências de possessão feminina e no uso de maquiagem e efeitos corporais, seja a H. P. Lovecraft, ao dar centralidade ao Necronomicon — elemento recorrente na obra do autor como grimório de conhecimento proibido. Além disso, vemos ecos do horror de O Massacre da Serra Elétrica, sobretudo na construção do isolamento, na câmera nervosa e na sensação quase documental da violência, assim como decapitações. E também Wes Craven ao exibir um pedaço do cartaz de Quadrilha de Sádicos.

No fim, Evil Dead também precisa ser visto como uma estreia impressionante de Sam Raimi no longa-metragem. Um filme feito com poucos recursos, mas com uma clareza rara de linguagem e uma identidade visual que já nasce praticamente pronta. Mais do que um exercício de estilo, trata-se de uma obra que demonstra um cineasta completamente consciente do que quer provocar no espectador, mesmo ainda em fase inicial de carreira.

O filme ganharia duas continuações diretas para o cinema em 1987 e 1993, dirigidas por Sam Raimi e protagonizadas por Bruce Campbell. Além disso, a franquia se expandiria para a televisão, ganharia uma refilmagem e ainda retornaria aos cinemas com novos capítulos ao longo das décadas seguintes, incluindo um longa-metragem previsto para 2026.

Ao longo desse processo, Ash se consolidou como um dos personagens mais icônicos do terror moderno, ao lado de figuras como Laurie Strode, de Halloween, e Sidney Prescott, de Pânico. Diferente dessas protagonistas, Ash evolui de forma muito mais híbrida, transitando entre o horror, a comédia e a aventura, o que ajuda a explicar sua longevidade cultural e o culto que se formou ao redor da franquia.

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