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Fuga Para a Vitória (81) | Rebobina 24

A Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026, ou simplesmente a Copa, como gostamos de chamá-la por aqui, começa hoje. E em ano de Mundial sempre reaparece aquela velha discussão sobre os melhores filmes de futebol já feitos. A lista costuma ser curta, principalmente quando olhamos para os anos 80. Diferente do boxe, do beisebol, do atletismo ou do automobilismo, o cinema nunca encontrou muita facilidade para transformar o esporte mais popular do planeta em grandes histórias.

Talvez porque o futebol já seja naturalmente cinematográfico, tornando difícil reproduzir em um roteiro a emoção que milhões de pessoas sentem diante de uma partida real. Ainda assim, algumas tentativas sobreviveram ao tempo. E foi justamente uma delas que resolvi revisitar hoje: Fuga para a Vitória (1981).

Em tempos em que o marketing dita praticamente todas as estratégias de lançamento, é difícil imaginar o longa metragem chegando aos cinemas em um ano sem Copa do Mundo. Certamente um estúdio atual teria segurado o filme por alguns meses para aproveitar o embalo da Copa da Espanha de 1982. Lançado em julho de 1981 na maior parte do mundo, o longa só desembarcaria nos cinemas brasileiros às vésperas do Natal daquele ano.

Curiosamente, por aqui o contexto acabou sendo até mais favorável. Afinal, o filme trazia ninguém menos que Pelé em papel de destaque, apenas quatro anos após sua aposentadoria dos gramados. Embora já não atuasse profissionalmente, o Rei continuava extremamente presente na mídia, estrelando campanhas publicitárias, participando de programas de televisão e ocupando as manchetes de entretenimento ao iniciar naquele período o comentado relacionamento com a então jovem apresentadora Xuxa. Para o público brasileiro, sua presença era quase um atrativo tão grande quanto a própria história do filme.

Fuga Para a Vitória injustamente esquecido

Hoje, Fuga para a Vitória anda um pouco esquecido. Talvez porque Hollywood jamais tenha estado situada em um país verdadeiramente apaixonado por futebol. Nos Estados Unidos, o esporte sempre ocupou um papel secundário em comparação ao futebol americano, ao beisebol e ao basquete. Durante muito tempo, inclusive, foi mais associado ao ambiente escolar e universitário feminino do que ao universo esportivo masculino. Ciente disso, o roteiro sabiamente desloca sua história para a Europa durante a Segunda Guerra Mundial, cenário onde o futebol já era uma paixão nacional e o esporte mais popular na maioria dos países envolvidos. Afinal, para que a premissa funcionasse, era preciso que uma simples partida de futebol fosse capaz de mobilizar multidões e ganhar importância política.

Aliás, olhando hoje, muita gente se surpreende ao descobrir que o filme foi dirigido por John Huston. Aos 75 anos, o lendário cineasta já caminhava para os últimos capítulos de uma carreira iniciada nos anos 40, encerrada apenas com sua morte em 1987. No elenco, o filme reúne um encontro improvável de mundos distintos: Sylvester Stallone vivendo o auge da popularidade conquistada por Rocky, mas ainda antes da explosão definitiva de Rambo; Michael Caine já consolidado como um dos grandes atores britânicos de sua geração; e Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos. Completando a escalação, diversos atletas profissionais de renome internacional, como Bobby Moore, capitão da seleção inglesa campeã mundial em 1966, além de Osvaldo Ardiles, Kazimierz Deyna e outros nomes bastante conhecidos pelos torcedores da época. É difícil imaginar outro filme que tenha reunido tantos talentos do cinema e do futebol em uma mesma produção.

Fuga Para a Vitória
Fuga Para a Vitória

Prisioneiros de guerra e o futebol

A trama se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de prisioneiros aliados recebe a chance de disputar uma partida de futebol contra uma seleção alemã em Paris ocupada pelos nazistas. O que começa como uma ação de propaganda política rapidamente se transforma numa oportunidade de fuga e num confronto simbólico entre opressores e oprimidos diante de milhares de espectadores. Embora a partida central seja ficcional, a ideia de utilizar o futebol como instrumento de propaganda durante a guerra possui base histórica.

Um filme belga chamado Ket félido a pokolban (61) – inedito no Brasil – serviu de inspiração e mostra uma partida de futebol entre aliados prisioneiros e alemães no dia do aniversário de Hitler. O esporte continuou sendo praticado em territórios ocupados e até mesmo em campos de prisioneiros, o que ajuda a dar credibilidade a uma premissa que, à primeira vista, parece completamente fantasiosa.

O filme tinha o timing perfeito para dar certo, mesmo apostando em alguns nomes do futebol que não possuíam experiência como atores. Na virada para os anos 80, dramas esportivos atravessavam um excelente momento em Hollywood. O boxe, em especial, vivia uma fase de ouro desde o sucesso de Rocky (1976), com o próprio Sylvester Stallone agora presente no elenco. Na sequência vieram lançamentos de enorme repercussão como O Campeão (1979), com Jon Voight, e Touro Indomável (1980), que renderia o Oscar a Robert De Niro.

O esporte havia se mostrado capaz de produzir histórias de superação, emoção e conflito humano capazes de atrair grandes plateias. No mesmo ano de Fuga para a Vitória, chegaria aos cinemas Carruagens de Fogo (1981), ambientado nos Jogos Olímpicos de 1924 e centrado no atletismo, numa época em que o tema olímpico ainda despertava enorme interesse após o boicote americano aos Jogos de Moscou em 1980. Dentro desse contexto, um filme que misturava guerra, futebol e espírito de resistência parecia uma aposta bastante natural para conquistar o público internacional.

John Huston teve excelente cuidado de produção de Fuga para a Vitória

O início de Fuga para a Vitória trabalha de forma bastante inteligente para que sua premissa pareça plausível ao espectador. Antes de qualquer conversa sobre futebol, o filme faz questão de lembrar que estamos em uma guerra. Logo na primeira cena, um prisioneiro tenta escapar do campo, é encontrado por um cão de guarda e executado diante dos demais como exemplo. Pouco depois, durante a visita de representantes suíços e da Cruz Vermelha, os alemães são questionados sobre a morte e tratam o ocorrido como um simples acidente, enquanto os visitantes seguem inspecionando as instalações. É justamente nesse momento que vemos os prisioneiros jogando futebol.

A sequência cumpre duas funções importantes. Primeiro, mostra como o esporte já fazia parte da rotina daqueles homens muito antes da proposta da partida surgir. Segundo, situa o momento histórico vivido pela Europa em 1944. Embora a brutalidade do regime nazista continue presente, existe uma preocupação crescente com a imagem internacional da Alemanha, especialmente diante de observadores neutros. O roteiro sugere discretamente que a guerra começa a entrar em sua reta final e que a propaganda torna-se tão importante quanto as armas, preparando o terreno para que uma partida de futebol entre alemães e aliados deixe de parecer absurda e passe a soar como algo perfeitamente possível dentro daquele contexto.

Outro elemento importante dessa construção é a presença dos representantes suíços e da Cruz Vermelha Internacional. Como a Suíça manteve sua neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, frequentemente atuava como intermediária entre as nações em conflito, fiscalizando acordos humanitários e servindo de canal diplomático para questões envolvendo prisioneiros de guerra. No filme, a visita faz referência direta à Convenção de Genebra, conjunto de tratados que estabelecia regras para o tratamento de combatentes capturados.

Os oficiais alemães fazem questão de demonstrar que respeitam essas normas, enquanto os representantes internacionais procuram verificar se elas realmente estão sendo cumpridas. Mais do que uma simples exposição histórica, a sequência ajuda a mostrar um regime preocupado com sua imagem perante o mundo e interessado em utilizar gestos de aparente civilidade como ferramenta de propaganda. É mais uma peça do quebra-cabeça que justifica a futura partida de futebol e evidencia a preocupação de John Huston em contextualizar sua história da maneira mais plausível possível antes de mergulhar no lado mais fantasioso da narrativa.

Um elenco competente e curioso

Aos poucos, o elenco começa a surgir na tela, a começar pelo sempre excelente Max von Sydow. Passadas mais de quatro décadas desde o lançamento, muita gente ainda olha para Fuga para a Vitória com certo preconceito por causa de sua embalagem. Afinal, um filme estrelado por Pelé e Sylvester Stallone jogando futebol parece, à primeira vista, uma ideia fadada ao fracasso ou a um oportunismo típico de estúdio. Entretanto, basta acompanhar as primeiras cenas para perceber que estamos diante de uma produção muito mais séria do que sua premissa sugere.

A direção segura de John Huston, a fotografia sóbria, a reconstituição de época cuidadosa e a presença de atores experientes como Max von Sydow e Michael Caine conferem ao longa uma credibilidade rara para um filme que poderia facilmente ter se transformado numa simples curiosidade esportiva. Cada sequência demonstra uma preocupação genuína em construir personagens, contexto e atmosfera antes de chegar ao espetáculo que o público veio assistir.

Existe ainda um detalhe bastante inteligente na dinâmica entre os personagens de Max von Sydow e Michael Caine. O major Karl von Steiner foi jogador da seleção alemã antes da guerra, enquanto o capitão John Colby defendeu a seleção inglesa. Embora hoje pareça estranho imaginar atletas de elite ocupando posições militares de destaque, isso era relativamente comum numa Europa mobilizada para o conflito, especialmente entre homens que já gozavam de prestígio público e formação compatível com funções de comando. Mais interessante ainda é perceber o contexto esportivo em que a história se passa.

Em 1944, o mundo do futebol já convivia havia seis anos com a ausência da Copa do Mundo. A última edição havia ocorrido na França, em 1938, e a seguinte só aconteceria em 1950, no Brasil. Para uma geração inteira de jogadores e torcedores, o maior espetáculo do esporte simplesmente deixou de existir durante a guerra. Dessa forma, quando dois antigos atletas internacionais se encontram em lados opostos do conflito, a ideia de organizar uma partida transcende a propaganda militar. Ela representa uma oportunidade de reviver um pedaço do mundo que a guerra interrompeu, tornando quase inevitável a proposta que move toda a narrativa.

Um detalhe bastante inteligente do roteiro envolve justamente o personagem de Sylvester Stallone. À primeira vista, o espectador pode imaginar que Robert Hatch foi escolhido para a equipe por ser um dos melhores jogadores do campo, mas a história deixa claro que não é esse o caso. Norte-americano em meio a uma maioria de britânicos apaixonados por futebol, Hatch sequer demonstra grande familiaridade com o esporte. Sua importância está em outro lugar. Determinado a fugir dali, os comandantes prisioneiros o enxergam como um dos homens mais capazes de liderar uma tentativa de fuga bem-sucedida, razão pela qual sua inclusão no projeto interessa tanto aos demais.

A escolha também beneficia o próprio filme. John Huston e o roteiro jamais tentam convencer o público de que Sylvester Stallone poderia rivalizar com Pelé, Bobby Moore ou outros atletas profissionais em campo. Em vez de forçar o ator a fingir habilidades que não possuía, a narrativa encontra uma função coerente para seu personagem, transformando-o numa peça importante da trama sem exigir que ele se comporte como um craque de futebol. Isso permite que a presença de Stallone soe natural dentro daquele universo, mesmo cercado por alguns dos maiores jogadores do mundo e defendendo o gol.

Outro aspecto interessante é como o roteiro trabalha as motivações alemãs para que a partida aconteça. Em uma das reuniões entre os oficiais nazistas, John Huston toma o cuidado de deixá-los falar em alemão, com legendas, em vez de simplesmente colocar todos se expressando em inglês para facilitar a vida do espectador. Parece um detalhe pequeno, mas reforça a autenticidade da produção. É nesse momento que percebemos que o jogo não nasce apenas como propaganda política, mas também como uma demonstração de superioridade nacional. Há uma rivalidade implícita entre alemães e ingleses, afinal o futebol havia sido codificado pelos britânicos e representava uma importante parte de sua identidade cultural. Vencer os ingleses dentro de campo teria um valor simbólico enorme para o regime nazista.

Ao mesmo tempo, o filme também faz questão de mostrar a diferença entre a realidade dos prisioneiros de guerra e a dos campos de extermínio. Os jogadores não são obrigados a participar da partida. Pelo contrário, negociam melhores condições de vida em troca de sua participação, enquanto o próprio major Von Steiner chega a comentar que a vida no campo deve ser bastante entediante. Essa relação relativamente cordial não surge por benevolência, mas porque os alemães precisam que os prisioneiros aceitem participar voluntariamente para que o espetáculo tenha credibilidade e cumpra seu objetivo propagandístico.

Pelé veio para jogar bola

Pelé surge pela primeira vez em cena da maneira mais inteligente possível. Durante a longa sequência de recrutamento dos jogadores que formarão a equipe dos Aliados, uma bola chega até seus pés e, sem qualquer esforço aparente, ele passa a fazer embaixadinhas enquanto conversa naturalmente com os demais personagens. Sem sequer olhar para quem está ao redor, apenas para a bola, explica que aprendeu aqueles movimentos usando laranjas nas ruas de Trinidad. É uma solução brilhante de John Huston. Em poucos segundos, o diretor entrega exatamente aquilo que o público esperava ver de Pelé: habilidade com a bola e carisma, sem exigir grandes demonstrações dramáticas de um homem que não era ator profissional. A cena funciona quase como uma apresentação oficial do Rei ao espectador, deixando claro que sua principal contribuição para o filme estaria nos gramados e não nos diálogos.

A própria expansão da partida serve também como mecanismo para trazer novos jogadores famosos para a narrativa e, ao mesmo tempo, lembrar ao espectador a dimensão humana da guerra. Quando o confronto deixa de ser uma simples exibição entre prisioneiros e passa a ser tratado como um grande evento em Paris, os alemães decidem convocar uma equipe de verdade para representá-los. Em contrapartida, permitem que os Aliados reforcem seu elenco com prisioneiros vindos de outros campos. É durante essa negociação que surge uma das observações mais duras do roteiro. Ao questionarem a ausência de poloneses e tchecos entre os convocados, a resposta recebida é que eles sequer são considerados prisioneiros de guerra pela Alemanha. Na visão do regime nazista, aquelas nacionalidades praticamente não existiam. Em poucas linhas de diálogo, o filme consegue introduzir a lógica desumanizante que sustentava a ocupação nazista e lembrar que, por trás da atmosfera esportiva e da futura partida, existe um conflito marcado pela negação da identidade e da própria humanidade de milhões de pessoas.

A melhor partida de futebol realizada para o cinema?

Vista hoje, a tão aguardada partida de futebol cumpre muito bem sua função. John Huston compreendeu que, para o clímax funcionar, o público precisava acreditar que estava assistindo a uma partida de verdade e não apenas a atores correndo atrás de uma bola. Nesse aspecto, a presença de jogadores profissionais foi fundamental. Pelé, Bobby Moore, Osvaldo Ardiles e os demais atletas conferem autenticidade a cada jogada, movimentação e troca de passes. Além disso, o filme não tenta reproduzir o futebol moderno. O que vemos em campo é uma representação bastante convincente do esporte praticado nos anos 40, período em que o jogo era mais físico, menos tático e dependia muito mais da habilidade individual. Considerando a escassez de registros audiovisuais da época e a própria evolução do futebol ao longo das décadas, o resultado permanece surpreendentemente satisfatório.

Também joga a favor da narrativa a decisão de transformar a partida numa extensão do próprio conflito. As entradas violentas, a arbitragem permissiva com os alemães e a sensação constante de injustiça ajudam a transportar para o gramado a tensão que antes existia apenas no contexto da guerra. É um recurso simples, mas extremamente eficiente. A cada falta não marcada e a cada decisão duvidosa, o espectador se vê torcendo cada vez mais pelos Aliados, não apenas como personagens, mas como representantes de uma causa maior. O futebol passa a funcionar como linguagem universal do confronto entre opressores e oprimidos, aumentando a ansiedade pelo resultado e transformando os minutos finais numa experiência genuinamente envolvente, mesmo para quem já conhece o desfecho.

E claro, existe o famoso gol de bicicleta de Pelé. Todo brasileiro que assiste a Fuga para a Vitória inevitavelmente sente uma ponta de orgulho naquele momento. Entre tantos jogadores talentosos que poderiam ocupar o papel de grande craque da equipe aliada, foi justamente o Rei quem recebeu o protagonismo esportivo da produção. Vale lembrar que estamos em 1981. Maradona ainda construía sua lenda e sequer havia disputado a Copa do Mundo que o transformaria em fenômeno global. Já Pelé era uma unanimidade quase incontestável. Recém-aposentado, continuava sendo o rosto mais conhecido do futebol mundial e, para muitos, o maior jogador de todos os tempos sem qualquer discussão. Ao colocá-lo no centro do momento mais memorável da partida, John Huston não apenas prestava homenagem ao futebol brasileiro, mas garantia ao filme uma dose extra de autenticidade e prestígio que nenhum outro jogador poderia oferecer naquele momento da história.

Apesar de concorrer ao principal prêmio do Festival Internacional de Cinema de Moscou, justamente em plena Guerra Fria, Fuga para a Vitória não encontrou uma recepção particularmente calorosa por parte da crítica. O público também pareceu dividido. Quem chegava esperando um filme de futebol encontrava um longa sobre prisioneiros de guerra, fuga e resistência que dedica boa parte de sua duração à construção dos personagens e do contexto histórico.

Por outro lado, quem buscava um drama de guerra mais intenso ou uma narrativa de fuga nos moldes tradicionais acabava se deparando com longas sequências dedicadas ao esporte. Era uma mistura incomum, com poucas chances de se transformar num sucesso estrondoso. Ainda assim, observada em conjunto, a obra funciona melhor do que sua reputação sugere. Talvez não impressione como os grandes clássicos de guerra nem como os maiores dramas esportivos, mas também está longe de frustrar como realização. O que permanece é uma produção sólida, conduzida com competência por John Huston e impulsionada pelo carisma de seu elenco, além de uma rara homenagem do cinema ao futebol, esporte que poucas vezes encontrou espaço nas telonas com tamanha seriedade e respeito.

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