Dirty Dancing – O Ritmo Quente (87) – 1963 e o fim da inocência – Rebobina 008

Dirty Dancing começa com Be My Baby e a promessa contida na letra: “Na noite em que nos conhecemos, eu soube que precisaria muito de você. Se eu tivesse a chance, nunca deixaria você ir. Eu farei você tão orgulhoso de mim. Nós faremos as pessoas virarem a cabeça quando passarmos”. Claro que o filme é, em essência, o rito de passagem de Baby. Mas nessa abertura embalada em pop dos anos 60, é Johnny quem declara sua dependência emocional e ele suplica: “Seja minha Baby”. O final da história, curiosamente, já está ali, escondido nos créditos iniciais.

Verão de 1963. Baby (Jennifer Grey) viaja com a família para passar o fim das férias no Kellerman’s, um resort de classe média alta. Ali, entre jantares formais e coreografias ensaiadas, ela conhece o dançarino Johnny (Patrick Swayze) e começa a circular por territórios até então invisíveis para uma garota de sua idade. Esse trânsito entre diferentes mundos do hotel, social, afetivo e moral, será decisivo para que Baby deixe de ser apenas uma filha obediente e comece a se tornar uma mulher.

Dirty Dancing é muito mais do que um romance embalado por boa música

Há quase quarenta anos, Dirty Dancing é visto como um romance embalado por boa música. Mas é muito mais do que isso. Em uma conversa que Baby escuta às escondidas, o dono do hotel reúne seus garçons, todos estudantes de boas faculdades, e os orienta a “dar atenção” às filhas dos hóspedes. Mais tarde, o primo de Johnny traduz isso sem rodeios: “inclui passeios na floresta”. É exatamente o que um dos garçons faz com sua própria irmã. E é também o destino que se desenha para Baby, oferecida de bandeja ao sobrinho esnobe do mesmo dono do resort.

Isso é apenas o começo. O recreador do hotel não tem pudores em anunciar que ali também há “sexo para os adultos”. Esposas de homens ricos e envelhecidos procuram nos dançarinos algo muito além de aulas de dança. “Um dia eu passo o dia inteiro comendo jujubas, no outro diamantes caem no meu bolso”, diz Johnny, resumindo a troca desigual entre desejo e dinheiro. Alguns garçons parecem preferir o ganho imediato à promessa abstrata de um bom casamento com a filha de um médico prestigiado. É assim, aliás, que a própria irmã de Baby, Lisa (Jane Brucker), descobre esse jogo ao flagrar seu garçom nos braços da granfina que Johnny havia recusado depois de já ter marcado encontro com ela.

E não para por aí. O mesmo garçom que havia saído com Lisa engravida Penny (Cynthia Rhodes) e se recusa a ajudá-la a pagar pelo aborto. Diante do desespero da dançarina, Baby decide esconder tudo do próprio pai para conseguir o dinheiro, num gesto que marca sua primeira grande ruptura com a infância protegida. A boa intenção, mais uma vez, esbarra em um mundo que cobra preços altos demais.

Dirty Dancing

A obediente Baby se transforma em mulher

E, como se não bastasse, Baby passa a testemunhar de perto o preconceito de classe que estrutura aquele microcosmo. Os hóspedes brancos e ricos recebem “tudo o que quiserem”, como o próprio dono do hotel diz a um garçom diante dela. Já Johnny, vindo da periferia daquele sistema, é acusado de roubo sem qualquer prova, justamente quando Baby já desconfiava de um casal de hóspedes idosos. O filme deixa claro que ali a culpa não se apura, ela se atribui conforme a posição social.

É nesse momento que Baby enfrenta sua maior provação do rito. Diante de todos, inclusive de seu pai e do dono do hotel, ela decide dizer a verdade: é o álibi de Johnny, passou a noite com ele. Ela sabe exatamente o que isso significa. Sabe o quanto ferirá o pai, o quanto romperá com a imagem de menina protegida. Até ali, Baby já vinha se transformando em silêncio, pelo sexo, pelas descobertas, pelas mentiras necessárias. Mas naquele instante, essa mudança deixa de ser íntima e se torna pública. Aos olhos do mundo, ela deixa de ser criança. E, como em todo verdadeiro rito de passagem, não há mais como voltar.

O auge de um dos maiores galãs da história do cinema

Para falar do elenco, é preciso começar por Dr. Jake Houseman (Jerry Orbach), o pai de Baby. Seu personagem é a razão de o filme existir como algo maior que um romance. Ele encarna com precisão um homem da Geração Silenciosa: feições quase inexpressivas, gestos contidos, um olhar sempre em suspensão. Sua integridade é quase inabalável, como se espera de um médico que acredita no certo e no errado como linhas claras. Mas, no fundo, ele sabe que algo está por vir. Sua Baby não é mais um bebê. E quando finalmente descobre isso, o choque é real. As poucas lágrimas que ele derrama não são melodrama, dor da descoberta por uma filha que deixou de ser apenas sua criança.

Johnny Castle, vivido por Patrick Swayze, representa numa camada superficial exatamente o que o nome sugere: um bad boy forte como um castelo. Mas por dentro ele está surrado e usado pela vida e pela burguesia que consome seu corpo e descarta sua dignidade. Sem muitas perspectivas, ele se sustenta apenas no próprio caráter, que funciona como sua última muralha. Swayze se entrega por inteiro ao papel, na melhor atuação de sua carreira: canta, dança, seduz e, sobretudo, se mostra vulnerável. É o auge de um artista que partiria cedo demais, ao morrer de câncer em 2009, aos 57 anos.

Jennifer Grey, que já havia contracenado com Patrick Swayze em Amanhece Violento e vinha recém-saída de Curtindo a Vida Adoidado, onde interpretou a irmã de Ferris Bueller, protagoniza o filme como uma verdadeira atriz principal. Marcada também pelo trauma de um grave acidente de carro na Irlanda, no qual estava com Matthew Broderick na mesma época e que resultou em vítimas fatais, Grey entrega uma atuação de rara entrega emocional.

Da primeira à última cena, Baby representou e ainda representa muitas mulheres, no rito de passagem, na descoberta do amor, na luta contra o controle paterno. Sua interpretação encontra a medida exata entre fragilidade e força. O filme se chama Dirty Dancing, mas poderia se chamar Baby e estaria tudo certo.

Uma opera-pop cheio de música e dança

E o filme só se chama Dirty Dancing, é claro, porque funciona quase como uma ópera pop, algo muito comum naquela década. Dança e música caminham em comunhão com o roteiro. Estão presentes da primeira à última cena, com faixas tocadas de forma quase integral e que, sim, ajudam a contar a história, muito mais do que servir de fundo sonoro. Sejam clássicos dos anos 60 ou músicas compostas especialmente para o longa-metragem, todas foram escolhidas a dedo.

“(I’ve Had) The Time of My Life” venceu o Oscar de Melhor Canção e fecha o filme com uma ideia simples e profunda: o melhor tempo de nossas vidas não precisa ser um momento de redenção ou ruptura, mas qualquer instante em que estamos plenamente com quem amamos. Cantada em dueto por Jennifer Warnes e Bill Medley, a música soa como uma ponte entre épocas. A voz de Medley carrega o eco direto dos anos 60, quando ele integrava o duo The Righteous Brothers, e ao mesmo tempo parece dialogar com a presença de Patrick Swayze no cinema, já que ele também canta Unchained Melody em Ghost, outro filme que eternizou o ator nos cinemas.

A trilha original, aliás, foi um fenômeno por si só. “She’s Like the Wind”, escrita e interpretada pelo próprio Patrick Swayze, tornou-se um dos maiores sucessos do álbum, e poderia perfeitamente ter sido cantada por Medley tamanha nossa identificação entre sua voz e a presença de Swayze. “Hungry Eyes”, de Eric Carmen, traduz em forma de pop a tensão erótica do filme, aquela paixão que nasce dos olhares famintos nas cenas de dança e desejo entre Baby e Johnny. O impacto foi tão grande que a trilha ganhou um segundo volume, reunindo faixas instrumentais e outros hits dos anos 60 que atravessam o filme como parte viva de sua narrativa.

Dirty Dancing é o ponto final de uma era dourada. Como Baby diz em sua primeira cena, trata-se do verão anterior à explosão dos Beatles, o fim da inocência de toda uma geração. Quando ela diz a Penny que “sente inveja dela” é na verdade de sua liberdade, ainda sem compreender plenamente o preço que ela cobra, antecipa o mundo que viria logo depois, o dos hippies, do flower power, de Woodstock e da Guerra do Vietnã, quando a juventude deixaria de dançar para começar a protestar. E quando Johnny afirma “ninguém coloca Baby num canto” diante do pai dela, antes da dança final, ele sinaliza que aquele já não é mais o lugar destinado às mulheres. Romance embalado por música? Sim. Mas há muito mais a ser desenterrado sob os gramados verdes daquele hotel.

O hotel foi inspirado no Grossinger’s Catskill Resort Hotel, onde a roteirista Eleanor Bergstein passava seus verões ao lado da irmã Frances, o verdadeiro nome de Baby, e dos pais, um renomado médico e sua esposa. O filme nasce diretamente dessas memórias, dessas férias, dessas danças. Bergstein transformou a própria juventude em ficção, e por isso o longa carrega uma verdade emocional que nenhum estúdio conseguiria inventar.

O diretor Emile Ardolino era estreante em longas de ficção. Depois de Dirty Dancing, ainda dirigiria títulos populares como O Céu se Enganou (1989), Três Solteirões e uma Pequena Dama (1990), o enorme sucesso Mudança de Hábito (1992) e O Quebra-Nozes (1993). Sua carreira, porém, foi interrompida cedo demais: Ardolino morreu no final de 1993, vítima de complicações relacionadas à AIDS.

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