Chloé Zhao, diretora de Hamnet – A vida antes de Hamlet, havia feito alguns curtas metragens, mas apareceu para o mundo com o interessante Nomadland, obra pela qual ela faturou o Oscar de Direção e Filme e que não teve maior repercussão pois chegou no período da pandemia. Em seguida, foi contratada pela Marvel para dirigir o péssimo Eternos e, cá entre nós, seu estilo não faz jus ao cinemão de ação/blockbuster. Nada contra, claro, eu gosto de filme de super heróis também, mas, na maioria das vezes, existe uma necessidade do profissional se encaixar num padrão… e Zhao já mostrou que precisa ir além!
Tirado do livro de mesmo nome, lançamdo em 2020 pela escritora Maggie O’Farrell, temos uma transposição sutil e que, desde os primeiros takes, passeia por locações e fotografias espetaculares. E apesar da obra ter este título, a pessoa em foco é Agnes, vivida com maestria por Jessie Buckley (se ela não levar o Oscar, teremos que repensar o que é Hollywood).
Ela é um ser da natureza, tanto que, em sua primeira cena, aparece deitada, por entre as raízes de uma árvore, em posição fetal – como se quisessem dizer que ela nasceu ali. E apesar de muitas pessoas daquele vilarejo a acharem estranha e a considerarem uma bruxa, isso é pouco explorado pelo roteiro, que está mais interessado, primeiramente, em unir aquele casal e, então, montar uma estrutura familiar cheia de nuances.
Há quadros abertos e fixos, que nos fazem contemplar o ambiente e a família, onde, no primeiro ato, recebemos cores e um verde impactante da floresta, mas que irá se contrapor a escuridão após uma tragédia.
Tudo é poesia em Hamnet – A vida antes de Hamlet e o final é apoteótico
Todas as trocas entre Buckley, Paul Mescal, que interpreta Shakespeare e foi, inacreditavelmente, esnobado pelo Oscar, Jacobi Jupe (esse garoto é sacanagem de tão incrível), Emily Watson e Noah Jupe (já no terço final), só para citar alguns, ampliam a grandiosidade dessas pouco mais de duas horas de projeção.
Existem dores que não serão curadas por nada. Este flagelo familiar é mostrado com crueza e isso transpassa a tela e chega não só aos olhos, mas ao coração dos espectadores. Isso porque, Buckley mostra todo poder dramático em cenas impactantes, como as do parto, mas também tem a docilidade no olhar ao notar que precisa deixar tudo fluir e seguir seu curso. O final, apoteótico, me fez chorar, pois há tempos não sentia uma condução tão coerente, bela e filmada de uma forma tão minimalista. O silêncio pode nos dizer muito e este desfecho nos fez perceber isso!
Onde assistir Hamnet – A vida antes de Hamlet?
Hamnet – A vida antes de Hamlet está, atualmente, nos cinemas nacionais.
Sinopse de Hamnet – A vida antes de Hamlet
A história de Agnes – a esposa de William Shakespeare – enquanto ela luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet. Uma história humana e comovente que serve de pano de fundo para a criação da peça mais famosa de Shakespeare.
Nota: ★★★★★
Título Original: Hamnet
Ano Lançamento: 2025 (Reino Unido)
Dir.: Chloé Zhao
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn, Emily Watson, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, Elliot Baxter, Jacobi Jupe
Curiosidades de Hamnet – A vida antes de Hamlet
- Hamnet – A vida antes de Hamlet é uma obra de ficção, assim como o romance que a inspira, embora seja amplamente fiel a eventos reais da vida de William Shakespeare.
- O impacto da morte de Hamnet na obra posterior de Shakespeare — especialmente em Hamlet — segue sendo tema de intenso debate acadêmico.
- Shakespeare tinha 18 anos quando se casou com Anne (ou Agnes) Hathaway, que tinha 26, em um casamento considerado “às pressas”, já que o primeiro filho nasceu seis meses depois.
- Hamnet nasceu em 1585 e morreu em 1596, apenas três anos antes da inauguração do Globe Theatre original, em 1599.
- A peça Hamlet foi escrita entre 1599 e 1601, poucos anos após a morte de Hamnet.
- A cena em que Will pergunta a Hamnet se ele será corajoso foi parcialmente improvisada durante o teste final do ator Jacobi Jupe.
- Paul Mescal surpreendeu Jacobi Jupe durante a improvisação ao jogá-lo sobre o ombro, e a reação espontânea foi incorporada ao roteiro final.
- A cena final em que Agnes toca o ator que interpreta Hamlet no palco não estava no roteiro e não foi ensaiada.
- Jessie Buckley foi orientada pela diretora Chloé Zhao a improvisar livremente nessa cena, e os figurantes reagiram de forma espontânea.
- O folheto da peça Hamlet mostrado no filme traz sobrenomes reais dos atores que interpretam os integrantes da companhia teatral.
- A diretora Chloé Zhao pediu que Paul Mescal ficasse realmente bêbado para uma cena em que Shakespeare aparece embriagado.
- O filme foi rodado em ordem cronológica, algo incomum em produções cinematográficas.
- O nome “Agnes” para a esposa de Shakespeare foi escolhido porque aparece em documentos legais da época, refletindo a variação comum na grafia dos nomes.
- O elenco inclui irmãos na vida real: Jacobi Jupe e Noah Jupe interpretam Hamnet e Hamlet, respectivamente.
- Chloé Zhao faz uma participação especial no filme como figurante, aparecendo como integrante da plateia no Old Globe.
- O brasileiro Affonso Gonçalves é coeditor em Hamnet – A vida antes de Hamlet.
