Comando Delta (86) | Rebobina 15

No dia 19 de março, perdemos um dos ícones mais improváveis e inesquecíveis do cinema. Chuck Norris, o homem que “empurrava a Terra quando fazia flexão”, nos deixou aos 86 anos. Muito antes das redes sociais dominarem o cotidiano, ele já reinava absoluto nos primórdios da internet, transformado em meme vivo, protagonista de histórias absurdas que só reforçavam sua imagem de invencível.

Mas esse mito digital nasceu no cinema. Norris foi, à sua maneira, um verdadeiro super-herói dos filmes de ação, construindo uma carreira dentro do chamado cinema B, onde os roteiros frequentemente desafiavam qualquer lógica de sobrevivência. Era o rei da marmelada — e sabia disso. Nos anos 70, chegou até a dividir cena com Bruce Lee, enfrentando-o em um dos duelos mais emblemáticos do gênero. Diante de tudo isso, parece inevitável prestar uma homenagem. E poucos filmes representam melhor esse legado nos anos 80 do que Comando Delta.

A abertura já estabelece que estamos diante de algo mais do que um simples filme de ação. Ao situar sua primeira cena em 25 de abril de 1980, no Irã, o filme remete diretamente a eventos reais envolvendo operações militares fracassadas dos Estados Unidos durante a crise dos reféns. A explosão de um helicóptero americano naquele território não funciona apenas como ponto de partida narrativo, mas como sinal de uma ferida ainda aberta.

Mais do que recontar a história, o filme parece propor uma reimaginação — uma espécie de resposta tardia, onde o fracasso dá lugar à eficiência e o trauma é substituído por controle. Revisto hoje, em um mundo onde as tensões entre os dois países ainda persistem, o impacto dessa escolha inicial se torna ainda mais significativo.

Chuck Norris: o herói imbatível

Na sequência, somos apresentados ao nosso herói. Ao descobrir que um dos homens ainda estava vivo no helicóptero em chamas, Scott McCoy (Chuck Norris) não hesita. Ele avança sozinho, atravessando fogo, ignorando o risco de uma nova explosão e sem qualquer garantia de que o esquadrão ainda estaria lá quando voltasse. É a imagem clássica de Chuck Norris: carregando o soldado nos braços, enquanto seu nome surge nos créditos em fonte militar, selando ali o nascimento do mito.

Mas, curiosamente, o filme não se limita a exaltar o heroísmo. Logo em seguida, McCoy questiona: “Por que eles não nos ouvem, Nick?”, diz ao coronel vivido por Lee Marvin. “Passei cinco anos no Vietnã vendo os planos deles falharem e nós morrendo.” A fala conecta diretamente passado e presente, sugerindo que o problema nunca foi a capacidade dos soldados, mas as decisões de quem os comanda. E, como o próprio filme deixa claro, a história parece condenada a se repetir. E ele complementa: “Vou pedir baixa.” Não é desistir. É cansar de perder homens por erros de outros.

A trama de Comando Delta parte diretamente de um dos episódios mais traumáticos da política externa americana recente. Inspirado na crise dos reféns no Irã, quando diplomatas foram mantidos em cativeiro por mais de um ano, e na fracassada tentativa de resgate militar em 1980, o filme transforma esse contexto real em ponto de partida para sua narrativa. A partir daí, o roteiro desloca a ação para o sequestro de um avião comercial por terroristas no Oriente Médio, colocando civis americanos no centro de uma nova crise internacional.

Diante da impotência diplomática, entra em cena uma força de elite treinada para agir onde outros falharam. É nesse momento que a ficção assume o controle: mais do que reconstituir os acontecimentos, o filme propõe uma versão alternativa em que o erro dá lugar à precisão, e o caos, ao domínio absoluto da situação. Sem se prender a um realismo rigoroso, Comando Delta se posiciona como uma resposta imaginária a um trauma real, onde a ação não apenas resolve o conflito, mas reescreve simbolicamente a história.

Comando Delta

Comando Delta: um filme B para o cinema

Enquanto os créditos passam, fica claro que estávamos prestes a assistir a um filme B pensado para o cinema, e não para o então crescente mercado de home video. Produzido pela The Cannon Group, o longa se apresenta com ambição maior do que seu rótulo sugere, apostando em escala, tema internacional e, principalmente, em um elenco de apoio recheado de nomes reconhecíveis pelo público da época. Estão ali rostos experientes como Lee Marvin (Os Doze Condenados), Robert Vaughn (O Agente da U.N.C.L.E.), George Kennedy (Rebeldia Indomável), Robert Forster (Alligator), Martin Balsam (Psicose) e Shelley Winters (O Diário de Anne Frank), além de Hannah Schygulla (O Casamento de Maria Braun). Mais do que simples apoio, essas presenças ajudam a sustentar o peso dramático das cenas que exigem tensão e gravidade, conferindo ao filme uma credibilidade que vai além de suas limitações orçamentárias.

Após os créditos iniciais, o filme salta para uma data de 1985 em Atenas. Aqui, não temos a recriação de um evento real de forma literal, mas vale lembrar que entre 1980 e 1985 o mundo vivia sob tensão constante provocada por uma série de sequestros de aviões, atentados e crises internacionais, especialmente envolvendo rotas no Mediterrâneo e no Oriente Médio.

Era um período em que o terrorismo internacional ocupava diariamente os noticiários e alimentava um sentimento generalizado de insegurança. Um dos episódios mais marcantes foi o sequestro do voo da Trans World Airlines em 1985, que partiu justamente de Atenas e teve seus passageiros mantidos reféns por dias, em um caso que ganhou repercussão mundial. Ao ambientar sua trama nesse cenário, Comando Delta não busca precisão histórica, mas sim proximidade com a realidade recente do público, criando a sensação de que aquela história poderia estar acontecendo naquele exato momento.

A sequência do sequestro é construída com tensão crescente desde o portão de embarque. De um lado, percebemos o nervosismo contido dos futuros sequestradores; do outro, a leveza dos passageiros — em sua maioria norte-americanos retornando de férias na Grécia, alheios ao que está por acontecer. A facilidade com que os terroristas acessam o avião e se posicionam reforça uma sensação de vulnerabilidade que atravessa toda a cena. Uma vez a bordo, o avião passa a funcionar como uma representação simbólica do mundo ocidental: estão ali idosos, crianças, religiosos, judeus, pessoas de diferentes nacionalidades e até mesmo um russo elogiando os Estados Unidos em plena Guerra Fria.

Em contraste, os sequestradores são apresentados de forma oposta — suados, agressivos, fortemente armados e agindo sob um discurso religioso explícito. Não há ambiguidade. Comando Delta deixa claro o conflito que deseja estabelecer: de um lado, um Ocidente plural e civilizado; do outro, um inimigo homogêneo, violento e definido por sua fé. É uma construção direta, sem nuances, que reflete não apenas as convenções do cinema de ação da época, mas também o imaginário político que dominava aquele período.

As questões políticas importam muito aqui

A cena do sequestro atinge seu ponto mais tenso quando o roteiro abandona qualquer sutileza e mergulha em questões históricas e políticas complexas. Os sequestradores passam a identificar passageiros judeus e israelenses, em uma escolha que evoca diretamente memórias do Holocausto, tornando a situação ainda mais perturbadora. É nesse momento que uma das personagens mais interessantes surge: a comissária alemã, que se recusa a colaborar, claramente marcada pelo peso histórico de seu país durante a Segunda Guerra Mundial.

Em paralelo, alguns passageiros são acusados de serem militares americanos envolvidos em bombardeios no Oriente Médio, trazendo à tona referências a conflitos reais no Líbano. Ainda que o filme toque brevemente nessa complexidade, logo a simplifica, reforçando a divisão entre lados opostos. Ao reunir esses elementos, Comando Delta constrói uma tensão que vai além da ação, mas que, no fim, serve a um propósito claro: provocar indignação no espectador e legitimar a resposta violenta que virá em seguida.

Essa abordagem fica ainda mais evidente quando observamos quem está por trás do roteiro. Comando Delta é assinado por Menahem Golan, também produtor do filme e uma das principais forças criativas da The Cannon Group, por James Bruner, roteirista associado ao cinema de ação da época, e por Stirling Silliphant, vencedor do Oscar por No Calor da Noite. A combinação desses perfis ajuda a explicar o resultado em tela: há momentos em que o filme flerta com temas históricos e políticos mais densos, mas a narrativa rapidamente opta pela simplificação, privilegiando o impacto imediato e a construção de um conflito direto. Entre a experiência de um roteirista consagrado e a lógica mais comercial da produção, prevalece a necessidade de transformar complexidade em espetáculo.

Na sequência, Scott McCoy surge quase como uma solução de última hora, saindo de uma aposentadoria de cinco anos para integrar a missão. A cena carrega duas leituras interessantes. De um lado, dois militares responsáveis pela operação comentam não saber quem ele é, um detalhe que revela como até mesmo figuras altamente treinadas podem cair no esquecimento — uma ideia que dialoga diretamente com o que vimos em Rambo: Programado para Matar, onde heróis de guerra retornam a um país que já não os reconhece. De outro, há uma mudança evidente de tom conduzida pela trilha de Alan Silvestri, que abandona qualquer ambiguidade e assume uma identidade abertamente heroica. Se até então o filme flertava com tensão política e realismo, a entrada de McCoy sinaliza outra coisa: a partir dali, não se trata mais de compreender o conflito, mas de resolvê-lo.

EUA x Islã: o contraste aos olhos de Hollywood nos anos 80

Em dado momento do filme, um dos sequestradores chega a ignorar ordens diretas de seu próprio comandante, deixando claro que sua lealdade não está na hierarquia, mas em algo maior — “respondo apenas a Alá”, como o comportamento sugere. Essa quebra de disciplina cria um contraste direto com a forma como os militares americanos são retratados ao longo do filme.

Mesmo quando discordam da condução da missão, seguem a cadeia de comando e mantêm a estrutura hierárquica intacta. Em Comando Delta, essa oposição não é casual: de um lado, um inimigo impulsivo, guiado por fé e sem compromisso com ordem institucional; do outro, um sistema militar disciplinado, onde a obediência sustenta a organização. Mais do que um detalhe de comportamento, o roteiro usa essa diferença para reforçar sua visão de mundo — simples, direta e sem espaço para ambiguidades.

O que se segue a partir daí é a missão de resgate nos moldes clássicos dos filmes de ação, que inclui as icônicas cenas de Chuck Norris, em seu auge, atirando com bazucas e até pilotando uma moto equipada com mísseis. Por fim, os EUA irão salvar “o mundo”. Mas o que chama atenção é justamente o espaço que o roteiro decide não dar a ela. Há muito mais tensão do que ação ao longo do filme, e o personagem de Robert Forster, como líder dos sequestradores — talvez o grande destaque da narrativa —, acaba tendo mais tempo de tela e presença dramática do que o próprio Chuck Norris.

A ação em Comando Delta, que demora quase uma hora para se manifestar em tiros e perseguições, parece existir menos como centro e mais como complemento. Tudo orquestrado pelo proprio diretor, produtor e roteirista Menahem Gollan, que no ano seguinte faria Falcão, o Campeão dos Campeões com Sylvester Stallone.

Comando Delta: Filme de ação focado tensão e alguma propaganda ideológica

No fundo, Comando Delta se revela menos um filme de ação tradicional e mais uma peça de propaganda cinematográfica, que devolve na mesma moeda a lógica dos sequestros reais: se aqueles atos buscavam visibilidade e impacto político, o filme responde com sua própria forma de propaganda, reorganizando a narrativa para reafirmar um ponto de vista claro e direto.

Na vida real, a crise dos reféns chegou ao fim de forma muito menos espetacular do que o cinema sugeriria. Em janeiro de 1981, após 444 dias de cativeiro, os diplomatas americanos foram libertados graças a um acordo mediado pela Argélia, que envolveu concessões financeiras e promessas políticas por parte dos Estados Unidos. Não houve resgate militar, explosões ou heróis solitários — apenas negociação. Esse desfecho discreto ajuda a entender por que filmes como Comando Delta parecem tão determinados a reescrever essa história, substituindo a complexidade diplomática por uma fantasia de ação direta e controle absoluto.

Já perto do fim, uma cena chama atenção pelo que carrega de inquietante. Um dos sequestradores diz aos tripulantes reféns que não tem nada contra eles, que seu verdadeiro inimigo são os Estados Unidos e a Casa Branca. Em tom quase profético, afirma que um dia entraria nela dirigindo um caminhão-bomba. Ao ouvir que aquilo seria suicídio e insuficiente diante da segurança do local, responde apenas: “Eu sei como morrer.

Vocês pensam que não temos amigos lá? Um dia vocês vão ver…”. Revisto hoje, é impossível não traçar um paralelo com os atentados de 11 de setembro, ocorridos apenas quinze anos após o lançamento de Comando Delta, e com a forma como eles redefiniram a segurança global. Ainda assim, décadas depois, a sensação que permanece é a de que certas lições nunca são plenamente assimiladas, como se o ciclo de tensão e resposta continuasse se repetindo — não mais como previsão, mas como padrão.

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