Menino do Rio (82) | Rebobina 20

Na semana em que escrevo este texto, o Brasil se despediu de Guto Graça Mello, um dos mais importantes produtores e compositores da música brasileira, especialmente daquela voltada à televisão e ao cinema. Responsável pela produção de trilhas sonoras que ajudaram a moldar a identidade da Rede Globo durante décadas, além de mais de 30 trilhas para o cinema brasileiro, Guto também assinou um dos trabalhos mais emblemáticos daquela juventude carioca dos anos 80: Menino do Rio. Revisitar o filme agora, portanto, acaba funcionando também como uma forma de homenagem a um profissional que ajudou a traduzir musicalmente toda uma geração.

O porjeto chegou aos cinemas brasileiros em um momento de verdadeira efervescência da cultura carioca, que rapidamente se espalharia pelo restante do país: o verão de 1982. Era justamente o período em que o Circo Voador ocupava o Arpoador, transformando suas lonas em epicentro criativo de uma juventude que misturava música, praia, teatro e comportamento.

Foi ali que bandas como Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Blitz começaram a ganhar forma e público, ajudando a consolidar aquilo que mais tarde seria chamado de BRock. Curiosamente, aquela mesma semana também marcaria um adeus traumático para a música brasileira: poucos dias após a estreia do filme, o país perdia Elis Regina, uma de suas vozes mais importantes.

Menino do Rio sob areias escaldantes

É naquelas areias escaldantes do Rio de Janeiro que Menino do Rio apresenta a rotina da juventude carioca do início dos anos 80. Valente, interpretado por André de Biase — que pouco tempo depois se tornaria nacionalmente conhecido como o Lula, de Armação Ilimitada — é filho de um homem da alta sociedade, mas rejeita completamente aquele universo.

Vivendo de fabricar pranchas artesanalmente, prefere comida natural, praia, surfe e asa-delta à formalidade dos ternos e gravatas. Durante um luau à beira-mar com sua turma, conhece Patrícia (Claudia Magno), jovem da elite carioca por quem acaba se apaixonando. Paralelamente, abriga em casa Pepeu, um rapaz catarinense recém-chegado ao Rio de Janeiro sonhando em vencer através da música — um detalhe curioso em um filme lançado exatamente no momento em que a cena musical carioca começava a explodir.

E a turma que cerca Valente se tornaria ainda mais interessante com o passar dos anos. Revisto hoje, Menino do Rio parece reunir uma coleção de artistas pouco antes da explosão de suas carreiras. Pepeu é interpretado por Ricardo Graça Mello, filho de Guto Graça Mello, enquanto o melhor amigo de Valente, Zeca, é vivido por Sérgio Mallandro, então apenas um jovem jurado do Show de Calouros da TVS (futuro SBT), ainda longe do personagem televisivo que dominaria os anos 80. Ao lado deles estão Paulinho e Aninha, interpretados por Evandro Mesquita e Cissa Guimarães, com Evandro ainda meses distante do estouro nacional de “Você Não Soube Me Amar” com a Blitz.

Há ainda Cláudia Ohana como Soninha e Nina de Pádua no papel de Ciça, melhor amiga de Patrícia. Curiosamente, Evandro e Nina vinham do grupo performático Asdrúbal Trouxe o Trombone, uma das grandes usinas criativas daquela geração. Olhar para esse elenco hoje é quase como assistir a um retrato antecipado da cultura pop brasileira dos anos 80 prestes a explodir.

Menino do Rio

A equipe por trás de Menino do Rio

Para entender Menino do Rio como retrato de um período específico da cultura brasileira, é importante lembrar que ele foi realizado por profissionais experientes, profundamente ligados ao Rio de Janeiro e às transformações culturais da cidade ao longo das décadas anteriores. Tanto Luiz Carlos Barreto quanto Lucy Barreto já vinham de uma longa trajetória iniciada ainda no Cinema Novo dos anos 60, assim como o diretor Antônio Calmon. Calmon, inclusive, viveu ainda jovem a explosão da Bossa Nova e o nascimento daquele imaginário quase mítico em torno de Ipanema, cenário central de Menino do Rio.

Existe algo de muito simbólico nisso: se a Bossa Nova ajudou a transformar a Zona Sul carioca em referência mundial de juventude, beleza e estilo de vida, Menino do Rio surge duas décadas depois como uma espécie de atualização daquele mito — agora atravessado pelo surf, pela contracultura, pela música pop e pela juventude dos anos 80.

Além disso, a relação entre Antônio Calmon e André de Biase vinha de um período anterior a Menino do Rio. O ator já havia protagonizado outro longa de Calmon ambientado naquele mesmo universo praiano carioca: Nos Embalos de Ipanema (78). Nele, André interpreta Toquinho, jovem suburbano fascinado pela cultura do surfe e obcecado pela ideia de fugir para o Havaí sem precisar se submeter ao trabalho convencional para conseguir isso. Curiosamente, anos depois ambos ainda se reencontrariam em Armação Ilimitada, seriado que mais uma vez recicla os mesmos elementos: praia, juventude, aventura, humor e o Rio de Janeiro como fantasia cultural permanente.

Se para André de Biase essa ligação com personagens surfistas praticamente se encerrou em Lula, já no fim dos anos 80, para Antônio Calmon ela continuaria atravessando boa parte de sua obra televisiva. Em Top Model, exibida entre 1989 e 1990, o autor retomaria novamente esse arquétipo ao construir a história de Gaspar, veterano surfista carioca que vive da fabricação artesanal de pranchas em meio ao universo da moda e da juventude da Zona Sul. Visto hoje, Menino do Rio parece ocupar justamente o centro dessa trajetória criativa: uma espécie de ponto intermediário entre o Rio contracultural e mais marginal de Nos Embalos de Ipanema e a versão pop, televisiva e já plenamente romantizada que Calmon levaria ao grande público nos anos seguintes.

O Havaí é logo ali!

Se em Nos Embalos de Ipanema, Antônio Calmon parecia interessado em retratar uma juventude carioca sem rumo, agarrada ao sonho do Havaí como fuga definitiva para todos os seus problemas, em Menino do Rio essa geração já demonstra um senso maior de identidade e escolha de vida. Valente e sua turma ainda rejeitam o modelo tradicional de sucesso ligado ao escritório, ao terno e à formalidade, mas agora existe certa estabilidade naquele universo alternativo: fabricar pranchas, viver próximo ao mar, cultivar hábitos naturalistas e transformar o próprio estilo de vida em forma de existência.

Ao mesmo tempo, os relacionamentos, tratados de maneira muito mais solta e episódica em Nos Embalos de Ipanema, aqui passam ao centro da narrativa. Seja nas amizades, nos romances ou no sentimento de pertencimento àquele grupo, Menino do Rio parece muito mais interessado nos laços afetivos daquela juventude do que apenas em sua rebeldia comportamental. Ainda assim, um elemento permanece intacto entre os dois filmes: o Havaí continua existindo como horizonte simbólico, uma espécie de paraíso distante para onde se pode fugir sempre que a realidade se torna complicada demais.

Menino do Rio já começa estabelecendo, quase como um ritual, a rotina idealizada do jovem carioca daquele início dos anos 80. Antes mesmo do sol nascer completamente, Valente surge saindo do mar para iniciar o dia — praia, natureza e liberdade aparecem como elementos inseparáveis daquela existência. Em seguida, prepara seu café da manhã naturalista, enquanto a câmera faz uma escolha bastante simbólica: antes de revelar plenamente seu rosto, enquadra em close o dragão tatuado em seu braço.

A associação com o verso escrito por Caetano Veloso é imediata: “Menino do Rio, calor que provoca arrepio, dragão tatuado no braço…”. E dificilmente isso parece acidental. Ainda assim, a homenagem para por aí. A música que havia explodido nacionalmente na abertura da novela Água Viva cerca de um ano antes não aparece no filme, assim como não há referência direta a Petit, surfista do Arpoador que inspirou a composição. Em vez de adaptar literalmente a canção, Menino do Rio parece mais interessado em capturar seu espírito.

Uma trilha sonora que marcou a geração

Aliás, a trilha sonora de Menino do Rio é tão importante para a construção desse retrato geracional quanto o próprio filme. A ausência da canção “Menino do Rio”, eternizada na voz de Baby do Brasil — ainda assinando como Baby Consuelo naquele período — certamente é sentida, sobretudo pela associação imediata entre música e título. Ainda assim, o restante do repertório consegue sustentar com enorme eficiência a atmosfera daquele verão carioca. O trabalho musical foi conduzido por Guto Graça Mello em parceria com Nelson Motta e Lulu Santos, este último já profundamente conectado à estética musical daquela juventude. Curiosamente, havia sido o próprio Lulu quem selecionara as músicas da trilha da novela Água Viva, responsável por transformar “Menino do Rio” em fenômeno nacional pouco antes do lançamento do filme.

O tema principal aqui acaba sendo “De Repente Califórnia”, composição de Lulu Santos e Nelson Motta que, naquele momento, ainda sequer havia sido oficialmente gravada por Lulu para seu álbum de estreia, lançado apenas em 1982. No filme, a música aparece interpretada diversas vezes por Ricardo Graça Mello, funcionando quase como um hino daquela geração solar, praiana e sonhadora.

Naquele segundo semestre de 1981, Lulu ainda percorria o Brasil com apenas três singles lançados, entre eles “Areias Escaldantes”, também presente na trilha. O repertório ainda inclui “Perdidos na Selva”, da Gang 90 & As Absurdettes — frequentemente apontada como uma das sementes do BRock —, “Garota Dourada”, da Rádio Táxi, “Corpos de Verão”, com Bebel Gilberto, “Sob o Azul do Mar”, interpretada por Ricardo Graça Mello, além da instrumental “Turbilhão de Emoções”, assinada pelo próprio Guto. Há ainda espaço para duas faixas das The Go-Go’s — “We Got the Beat” e “Our Lips Are Sealed” — grupo que, poucos anos depois, pisaria em solo brasileiro durante o histórico Rock in Rio.

Uma história de amor e amizade

O romance entre Valente e Patrícia em Menino do Rio é mais complexo do que uma simples oposição entre classes sociais. Embora exista o contraste evidente entre o surfista alternativo e a jovem da alta sociedade carioca, o filme parece mais interessado em mostrar como os relacionamentos humanos são naturalmente confusos, contraditórios e emocionalmente instáveis. Valente ainda carrega o trauma da perda de seu grande amor, mas rapidamente se vê envolvido por Patrícia, uma modelo da elite carioca, mimada, noiva e prestes a se casar.

Ao mesmo tempo, ela própria vive um conflito afetivo ao se apaixonar por um homem mais velho, viúvo e prestes a reconstruir sua vida: justamente o pai de Valente. Enquanto essa rede de relações se desenrola, o filme entende perfeitamente o que seu público deseja ver. A fotografia transforma o Rio de Janeiro em fantasia permanente, desfilando imagens de praia, surfe, windsurfe, asa-delta, cachoeiras, corpos nús e pores do sol quase publicitários, como se cada cena tentasse eternizar aquele verão idealizado da juventude carioca dos anos 80.

Entretanto, talvez o personagem mais interessante de Menino do Rio seja Pepeu, interpretado por Ricardo Graça Mello. Órfão e recém-chegado ao Rio de Janeiro, ele encontra na amizade com Valente não apenas abrigo, mas a possibilidade de voltar a pertencer a algum lugar e, quem sabe, construir uma vida baseada em trabalho honesto e naquele estilo de vida mais livre que tanto o fascina. Paralelamente à trama principal, acompanhamos Pepeu atravessar descobertas típicas da adolescência: curiosidade sexual, primeiros vínculos afetivos, pequenas frustrações e sonhos ainda bastante ingênuos. Existe algo de muito humano em sua trajetória. Enquanto boa parte dos personagens já parece plenamente integrada àquele universo solar e descolado, Pepeu ainda observa tudo com encantamento quase infantil. E talvez por isso conquiste tão facilmente todos ao seu redor — e também o próprio espectador.

Menino do Rio esta mais atual do que nunca

Como realização técnica, Menino do Rio ainda carrega muitas das limitações típicas da indústria cinematográfica brasileira daquele período. Há interpretações nem sempre bem conduzidas, diálogos que ocasionalmente soam artificiais e uma edição de áudio bastante datada. Ainda assim, nada disso compromete verdadeiramente a experiência. Pelo contrário: essas imperfeições acabam funcionando quase como parte do próprio retrato de época que o filme constrói.

Revisitar Menino do Rio hoje talvez seja ainda mais interessante justamente porque seu estilo de vida idealizado deixou de parecer simples fantasia escapista. O filme propõe uma existência baseada em liberdade, experiências, criatividade e trabalho ligado às próprias paixões — algo que, décadas depois, voltou a seduzir muita gente em reação ao desgaste do mundo corporativo contemporâneo. Uma vida saudável com alimentação Se nos anos 80 aquilo parecia apenas utopia praiana, hoje soa quase como antecipação de um desejo coletivo que continua reaparecendo em diferentes formas ao redor do mundo.

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