Predador (87) | Rebobina 19

Há poucos meses, conferi o lançamento de Predador: Terras Selvagens, o mais recente longa live-action centrado na criatura criada pelos irmãos Jim Thomas e John Thomas a partir de uma ideia concebida ainda em 1983. Arrisco dizer que se trata do trabalho mais interessante da franquia desde o filme original, sobretudo por deslocar o eixo narrativo e transformar o Predador (87) em protagonista. Foi justamente essa renovada empolgação com o personagem que me levou a revisitar Predador — um retorno que, mais do que nostálgico, se mostrou revelador.

A ideia central é fascinante dentro do recorte dos anos 80 — e o tempo tratou de provar que ela permanece. Até 1987, o cinema parecia operar em duas direções bem definidas quando o assunto eram extraterrestres: ou os mantinha afastados da Terra, como em Star Wars e Alien, ou os trazia em escala grandiosa, geralmente em naves colossais com intenções destrutivas, como em Guerra dos Mundos. A proposta de colocar um caçador alienígena, brutal e quase primitivo, frente a frente com soldados hiper-musculosos — figuras que encarnavam o auge do heroísmo físico da época, como Arnold Schwarzenegger — era, naquele contexto, algo genuinamente instigante.

Predador (87) tem previsão básica

A premissa de Predador (87) é direta ao ponto. Um grupo de soldados em missão em uma floresta da América Central passa a ser caçado por um predador extraterrestre especialista em camuflagem. À medida que a ameaça se revela, o que começa como uma operação militar convencional se transforma em uma luta pela sobrevivência, na qual os próprios caçadores precisam encontrar uma forma de eliminar algo que está sempre um passo à frente.

O filme não faz questão de esconder sua natureza nem por um instante. A abertura já entrega tudo: céu escuro, estrelas, uma nave se aproximando da Terra e, em seguida, o envio de um módulo em direção ao planeta. É uma declaração direta — aqui não há mistério sobre a presença alienígena. Logo depois, Predador nos conduz aos créditos iniciais, que apresentam o exército norte-americano em ação. Soldados fortemente armados desembarcam de helicóptero em uma base na selva, estabelecendo de imediato o terreno físico e simbólico do filme. Tudo é embalado pela trilha marcante de Alan Silvestri, que dita o ritmo com aquele senso de urgência e robustez típico do cinema de ação dos anos 80.

Predador (87)

Tensão de sobra

A partir daqui, Predador (87) começa a revelar suas verdadeiras intenções. Fica claro que o roteiro aposta em algo mais sofisticado do que um simples embate entre soldados e uma ameaça alienígena. A tensão se infiltra por todos os lados: nas relações entre os próprios militares, na natureza suspeita da missão, no confronto com os guerrilheiros e, sobretudo, na presença silenciosa do predador, sugerida pela icônica visão térmica que observa e aguarda o momento ideal para agir. Ao descentralizar o foco da ameaça e espalhar a inquietação por toda a narrativa, o filme constrói uma atmosfera constante de desconforto, como se o perigo estivesse sempre presente — mesmo quando ainda não se mostra por completo.

Um dos motivos para que essa engrenagem funcione com tanta eficiência está na química entre Arnold Schwarzenegger e Carl Weathers — eternizado como Apollo Creed na franquia Rocky — aqui como Dillon, o homem que conduz a missão liderada por Dutch, poe caminhos nem sempre transparentes. A dinâmica entre os dois adiciona camadas à narrativa, equilibrando camaradagem, desconfiança e confronto de interesses. Tudo isso é orquestrado com precisão por John McTiernan, então ainda no início de sua trajetória, mas já demonstrando um domínio notável do ritmo e do espaço. McTiernan entende como poucos a linguagem da ação como construção de tensão — algo que refinaria ainda mais em trabalhos posteriores como Duro de Matar — e, aqui, transforma a selva não apenas em cenário, mas em elemento ativo da narrativa.

Predador é sabiamente revelado aos poucos

A opção por esconder a criatura é outro acerto fundamental de Predator. Em vez de sugeri-la fora de quadro, o filme prefere revelá-la aos poucos, construindo presença antes de identidade. Além da já citada visão térmica, suas primeiras aparições surgem em estado de camuflagem, quase translúcidas — vemos o contorno, a distorção no ambiente, mas não a forma completa. Esse jogo visual sustenta o mistério sem negar a existência da ameaça.

O design da criatura, assinado por Stan Winston, é um dos grandes responsáveis por essa eficácia: ao mesmo tempo orgânico e tecnológico, ele cria um ser que parece plausível dentro daquele universo. Aliás, a criatura vem acompanhada por acessórios ícônicos da mitologia dos anos 80 como também o míssil no ombro, a mira iluminada em 3 pontos, o kit médico, o simulador de voz, entre outros.

Já por trás da máscara, quem dá vida ao Predador é Kevin Peter Hall, cuja fisicalidade imponente contribui decisivamente para a imponência do personagem. Curiosamente, existe uma história de bastidores bastante conhecida envolvendo Jean-Claude Van Damme (Soldado Universal), que chegou a ser escalado para interpretar a criatura em uma versão inicial do traje, mas acabou deixando a produção após conflitos criativos e limitações do design original — uma daquelas lendas que ajudam a construir ainda mais o mito em torno do filme.

Quando o primeiro membro da equipe é atacado pelo Predador, o filme muda de patamar. Até então, os soldados lidavam com inimigos humanos; agora enfrentam algo que sequer compreendem. A tensão cresce de forma quase palpável até atingir um dos momentos mais icônicos: quando Mac, vivido por Bill Duke, presencia a morte do companheiro atingido por um disparo de energia e, tomado pelo instinto, começa a atirar contra um vulto quase invisível na selva. O que se segue é uma descarga massiva de fogo, com todo o arsenal do grupo sendo despejado sem direção clara, transformando o ambiente em puro caos. No centro dessa sequência está a icônica metralhadora rotativa M134 Minigun, que varre a floresta em uma explosão contínua de balas — um momento que sintetiza perfeitamente o cinema de ação dos anos 80.

Um predador sem padrão

Outra escolha particularmente acertada do roteiro é não estabelecer um padrão claro para o comportamento do predador. Em Predador (87), a criatura não segue uma lógica previsível na escolha de suas vítimas, na forma de ataque ou mesmo no momento em que decide agir. Ela pode estar camuflada a poucos metros do grupo e simplesmente observar, para então atacar em outra ocasião, de maneira precisa e calculada. Não há progressão numérica, nem escalada convencional: às vezes é um, às vezes mais, às vezes nenhum. O que fica evidente é que ela teria plena capacidade de eliminar toda a equipe em questão de minutos — e, ainda assim, opta por não fazê-lo. Essa espera deliberada, esse tempo que se alonga sem explicação, transforma o predador em algo ainda mais perturbador: não apenas uma ameaça física, mas uma inteligência que caça por escolha, e não por necessidade.

À medida que a criatura se revela e a equipe é reduzida, o filme passa a evidenciar a sagacidade de Dutch, vivido por Arnold Schwarzenegger. Não é apenas a força física que o diferencia, mas sua capacidade de observar, interpretar e reagir ao que foge completamente à lógica militar convencional. Enquanto o restante do grupo sucumbe ao impulso de combater o desconhecido com fogo pesado, Dutch recua, analisa e começa a entender o funcionamento do inimigo — da camuflagem à lógica de escolha das vítimas. As frases de efeito permanecem, mas aqui funcionam quase como extensão de um raciocínio mais estratégico. É essa leitura rápida do ambiente e do comportamento do predador que permite a virada: ele não tenta enfrentar a criatura nos seus termos, mas adapta o jogo, transformando inteligência em sua principal arma.

Uma pequena pista de que era aquele predador

Curiosamente, é por meio de Anna, interpretada por Elpidia Carrillo, que começamos a compreender melhor a natureza da criatura. Feita refém pelo grupo, ela se torna a primeira a oferecer uma leitura quase mítica do que está acontecendo. Segundo seu relato, o “monstro” já é conhecido por sua aldeia — uma presença que surge nos períodos mais quentes para caçar homens, como um verdadeiro “caçador de troféus humanos”. Esse relato desloca a criatura do campo do desconhecido absoluto para algo próximo de uma entidade recorrente, quase folclórica, reforçando a ideia de que não se trata de um assassino aleatório, mas de um caçador que escolhe suas presas segundo um código próprio.

E se era esse confronto que o espectador aguardava desde o início, o roteiro não hesita em dedicar todo o terceiro ato a ele. A narrativa se reduz ao essencial: apenas Dutch, vivido por Arnold Schwarzenegger, e a criatura, sem distrações, sem interferências. O embate abandona a lógica do confronto direto e abraça a estratégia, com o terreno, o silêncio e a inteligência assumindo protagonismo ao lado da força física. É uma luta que se constrói no tempo, na observação e na adaptação — e justamente por isso alcança um impacto raro. Não é exagero colocá-la entre as mais marcantes do cinema de ação dos anos 80.

Um grande sucesso nos cinemas

O sucesso de Predador nos cinemas, que faturou seis vezes o seu custo de produção, consolidou imediatamente a força da ideia, transformando o filme em um dos pilares do sci-fi de ação dos anos 80 e abrindo caminho para uma franquia que se expandiria ao longo das décadas. Vieram Predador 2 (90), que desloca a caça para o ambiente urbano, os crossovers como Alien vs. Predador e sua continuação, além das tentativas de retomada com Predadores e O Predador.

Ainda assim, por mais que a mitologia da criatura tenha sido expandida, há uma lacuna evidente: nunca revisitamos Dutch de forma significativa. O personagem, que encerra o original como símbolo máximo da sobrevivência humana frente ao desconhecido, permaneceu congelado naquele duelo final — uma ausência curiosa, quase um desperdício narrativo dentro de uma franquia que tantas vezes retornou ao mesmo ponto sem seu protagonista mais icônico.

No fim, o filme original permanece tão poderoso justamente por entender que sua força não está apenas na ação, mas naquilo que a antecede e a envolve. Predador (87) não é apenas um inimigo, mas a personificação de um código de caça que transforma cada confronto em ritual. Entre músculos, armas e explosões, o filme encontra algo mais duradouro: a sensação constante de estar sendo observado. Mostra que uma boa estratégia pode superar qualquer força bélica.

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