Na semana passada, Sylvester Stallone (Os Mercenários) anunciou que será produtor executivo de um novo filme explorando as origens de John Rambo. A notícia levanta uma curiosidade imediata: o que realmente sabemos sobre o passado desse personagem antes do Vietnã? Nos filmes, pouco é dito. Rambo surge já como um veterano marcado pela guerra, enquanto seu período anterior permanece difuso, quase apagado. Sabe-se que teve uma infância difícil e uma juventude marginalizada, até passar pelo Vietnã.
Logo na primeira cena, John Rambo chega à casa de um antigo companheiro com um sorriso discreto e uma esperança genuína de reencontro, carregando consigo a simplicidade de quem ainda acredita que a vida ainda pode ser boa pra ele. No entanto, essa expectativa é rapidamente quebrada quando descobre que o amigo morreu vítima de um câncer causado por “aquela fumaça laranja” — como a mãe do amigo descreve, referindo-se ao Agent Orange, substância química utilizada durante a Guerra do Vietnã.
Rambo é sobre perda
Antes mesmo de qualquer confronto, o filme já estabelece sua dimensão mais importante: não estamos diante de uma história sobre ação, mas sobre perda. Rambo não chega à cidade em busca de conflito. A cena mostra que ele chega procurando alguém que já não existe mais, seu amigo um reflexo dele mesmo. Na sequência, o filme continua construindo Rambo através de gestos silenciosos. Caminhando pela estrada rumo à cidade mais próxima, ele observa carros passando, oportunidades de carona surgindo e desaparecendo, mas não faz qualquer sinal. Rambo segue sozinho. Depois da guerra, o mundo deixou de ser um lugar confiável, e a autossuficiência se tornou não apenas uma habilidade, mas uma forma de defesa.
Em seguida, somos apresentados ao xerife Will Teasle, em uma cena que define imediatamente sua posição dentro daquele universo. Ele surge saindo da delegacia, do alto de uma escada, em um enquadramento que já sugere autoridade. Ainda arrotando o café da manhã, ao lado da bandeira dos Estados Unidos, cumprimenta pelo nome todos que passam. Teasle conhece sua comunidade e é reconhecido por ela. É o tipo de figura que representa ordem, pertencimento e estabilidade — tudo aquilo que Rambo, poucos minutos antes, demonstrou não ter mais. O contraste está estabelecido antes mesmo dos dois se encontrarem.
Quem e a caça e que é o caçador?
O que se segue é uma escalada de tensão. A abordagem inicial da polícia rapidamente se transforma em abuso de poder, com violência aplicada sem qualquer justificativa coerente. A prisão, o tratamento humilhante e violento, os gatilhos psicológicos acionados levam Rambo a reagir e fugir, dando início a uma sequência de perseguição. Encurralado na floresta, ele volta a ser o soldado treinado para sobreviver a qualquer custo. Mas há algo profundamente irônico nessa caçada: desta vez, seus inimigos não são estrangeiros, mas seus próprios compatriotas. Em uma segunda camada, o filme sugere algo ainda mais incômodo — talvez os inimigos nunca tenham sido apenas aqueles contra quem Rambo lutou no Vietnã.
Trama posta, o roteiro passa a operar de forma quase mítica. É nesse momento que a iconografia de Rambo é definitivamente apresentada ao espectador: a faca de sobrevivência sempre à mão, a capacidade de suturar os próprios ferimentos, a camuflagem improvisada, as armadilhas artesanais, o domínio absoluto do terreno. Ao mesmo tempo, o xerife Teasle decide continuar a caçada mesmo após descobrir que esta lidando com um veterano herói de guerra altamente treinado. A partir daí, a perseguição se torna pessoal. Soma-se a isso um conflito de gerações bastante claro: enquanto os mais velhos impõem autoridade pela força e exigem obediência cega, ignoram completamente os alertas do jovem policial, que demonstra uma leitura mais sensata e menos impulsiva da situação.
A longa sequência da primeira caçada dentro da floresta antecipa uma dinâmica que o cinema exploraria com ainda mais intensidade nos anos seguintes. Em determinado momento, um dos policiais admite: “não somos nós que estamos caçando ele, ele é quem está nos caçando”. A inversão é completa. É impossível não lembrar de Predador, lançado alguns anos depois, que levaria essa lógica ao limite ao colocar soldados experientes na posição de presas dentro da selva. Em retrospecto, Rambo: Programado para Matar já operava nessa mesma chave.
“Não esqueça os sacos para os corpos”
Enquanto John tenta, ainda que brevemente, voltar a um estado quase primitivo — caçando um javali e buscando algum descanso —, o roteiro desloca o foco para outro tipo de conflito: a disputa de poder. Entre o xerife Will Teasle e o chefe da Guarda Florestal, instala-se uma discordia de egos sobre quem está no comando da operação. A chegada do coronel Samuel Trautman, que afirma estar ali para “buscar seu garoto”, deveria encerrar a discussão, mas apenas intensifica o embate. Teasle reage com desdém, questiona sua autoridade e transforma a situação em um confronto pessoal. Ninguém quer receber ordem de ninguém, mas Trautman alerta: “(se enviar os 200 soldados) não esqueça os sacos para os corpos“.
Paralelamente, o filme introduz a imprensa, que rapidamente distorce os acontecimentos ao sugerir que Rambo tentou matar policiais. Corrupta, corrompida, sensacionalista, preconceituosa com veteranos de guerra? Tudo isso e mais um pouco, não sabemos — e o roteiro faz questão de deixar essa resposta em aberto, convidando o espectador a formar seu próprio julgamento.
Roteiro e direção equilibrados
Depois de explorar tanto o roteiro, vale lembrar que Rambo: Programado para Matar nasce de uma obra literária. O filme é baseado no romance First Blood, de David Morrell, que já trazia essa visão mais crua e psicológica do personagem. A adaptação para o cinema foi construída a várias mãos, com participações de Sylvester Stallone, Michael Kozoll e William Sackheim, resultando em um roteiro que consegue equilibrar ação e densidade emocional.
Na direção, Ted Kotcheff conduz o filme com segurança, encontrando o ponto exato entre a dor silenciosa do personagem e a violência crescente da situação, sem deixar que um elemento anule o outro. Esse equilíbrio também se sustenta no elenco: Stallone entrega talvez sua interpretação mais contida e vulnerável, enquanto Brian Dennehy constrói um antagonista firme, mas nunca caricatural, e Richard Crenna funciona como a voz da experiência, alguém que compreende Rambo de uma forma que os demais personagens simplesmente não conseguem.
Um ícone da cultura pop
Rambo rapidamente ultrapassou os limites de Rambo: Programado para Matar e se consolidou como um dos personagens mais reconhecíveis da história do cinema. Ainda nos anos 80, ganhou duas continuações que ampliaram sua escala e reposicionaram seu papel dentro do imaginário popular. Em Rambo II – A Missão (1985), o personagem retorna ao Vietnã com a missão de resgatar prisioneiros de guerra, agora assumindo uma postura muito mais ativa e quase mítica. Já em Rambo III (1988), a ação se desloca para o Afeganistão, onde ele se envolve em um conflito local ao tentar salvar o coronel Trautman. Décadas depois, o personagem retornaria em Rambo IV (2008), ambientado em Mianmar, com um tom mais brutal e desencantado, e em Rambo: Até o Fim (2019), levando a ação para a fronteira entre Estados Unidos e México, em uma história mais pessoal e introspectiva.
Curiosamente, o primeiro filme já parece plantar, de forma quase involuntária, o desejo por essa continuidade. Mesmo sendo uma obra fechada em si, ele deixa no espectador a sensação de que aquele personagem ainda tem muito a enfrentar — talvez em um ambiente mais próximo de sua origem como combatente. É difícil sair da sessão sem imaginar Rambo novamente em território de guerra, onde suas habilidades fariam ainda mais sentido. Não por acaso, Rambo II – A Missão acabou se tornando um sucesso ainda maior, especialmente no Brasil, onde ajudou a consolidar de vez o personagem como ícone da cultura pop. Mas essa já é uma outra história.
Pra que tanta munição numa cidade tão pequena?
Uma cena no meio da floresta chama atenção justamente por ampliar uma discussão sobre armamentos. Rambo quase mata um adolescente que, por um instante, confunde com um soldado inimigo. O garoto estava caçando ao lado da família. Mais tarde, na caçada final ao xerife, Rambo destrói parte da cidade, inclusive uma loja de armas e munições para caça, detalhe que reforça algo já sugerido antes: há armamento demais para um lugar tão pequeno. O filme parece apontar para uma cultura em que a violência está sempre à mão, naturalizada tanto no cotidiano quanto no imaginário nacional.
Revisto hoje, é difícil não traçar um paralelo entre esse apego americano às armas e a facilidade com que o país se projeta em guerras sucessivas. No dia em que escrevo esse texto, os Estados Unidos estão envolvidos em uma guerra com o Irã, e o Presidente Donald Trump chegou a dizer que teria a “honra” de “tomar Cuba”, num momento de forte pressão americana também sobre a ilha e sobre a Venezuela. Nesse sentido, Rambo: Programado para Matar parece menos um retrato fechado de 1982 e mais uma história atemporal, por mais amargo que pareça.
Perda e pertencimento
Em seu emocionante discurso final, antes de se entregar ao coronel Samuel Trautman, John desmorona. “Essa guerra não é minha”, diz ele — e não se refere à caçada iniciada pelo xerife, mas àquela para a qual foi enviado sem chance real de vitória. Condecorado como herói, descrito por Trautman como o melhor soldado do exército americano, Rambo retorna para um país que não sabe o que fazer com ele. Não consegue sequer um emprego como manobrista, como ele próprio relata entre lágrimas ao recordar os companheiros que perdeu.
O que vemos ali não é apenas um veterano traumatizado, mas alguém completamente deslocado de qualquer possibilidade de pertencimento. “Eu não tenho amigos”, diz antes de sair da delegacia em silêncio. E talvez seja essa a conclusão mais dura do filme: não existe final feliz quando se trata de guerra, seja ela numa pequena cidade ou entre países. Apenas sobreviventes tentando existir depois dela.
