Cansei de ser Nerd | Resenha | Vale a pena assistir?

Cansei de ser Nerd, que estreia nos cinemas no dia 28 de maio, tenta unir humor, ação, romance e referências à cultura pop em uma narrativa sobre deslocamento social e identidade nerd. O longa, dirigido por Gualter Pupo (da série Procurando Casseta & Planeta), parte de uma premissa que poderia render uma sátira interessante. O problema é que o filme parece ter chegado atrasado para essa discussão. Em um momento em que a cultura geek domina eventos, cinemas, plataformas de streaming e o mercado de produtos licenciados, essa figura de excluído já não possui o mesmo impacto simbólico de décadas atrás. Assim, o personagem principal nasce deslocado não apenas dentro da trama, mas também em relação ao próprio contexto cultural contemporâneo.

Desde os primeiros minutos, o longa deixa claro qual será o tom adotado (que é o mais exagerado possível). A abertura, com um trecho do programa Choque de Cultura, aproxima o espectador de uma linguagem irônica e autoconsciente, bastante ligada ao humor de internet. Esse é um dos pontos positivos do filme e, somado a uma ou outra cena no primeiro ato, consegue arrancar risadas dos espectadores.

Entretanto, o roteiro rapidamente transforma as referências em um problema. Durante os cerca de 80 minutos de duração, o espectador é bombardeado com citações constantes a obras e produtos da cultura geek, como,, o jogo de tabuleiro War, além de filmes e séries como Hellraiser, Star Wars, Um Drink no Inferno e outros. O excesso dessas menções cria uma sensação artificial, como se Cansei de ser Nerd estivesse desesperadamente tentando provar ao público que entende desse tema. Em vez de enriquecer a narrativa ou construir personalidade para os personagens, muitas dessas referências surgem apenas como acenos vazios. Isso compromete a naturalidade dos diálogos e torna a experiência cansativa em vários momentos.

Cansei de ser Nerd não sabe o gênero que quer priorizar

Outro aspecto problemático está na indecisão tonal da obra. Cansei de ser Nerd parece não conseguir definir exatamente o tipo de filme que deseja ser. Em alguns momentos, aposta em uma comédia escrachada; em outros, tenta inserir cenas de ação, violência (com um medo grande de mostrar sangue para não aumentar a classificação etária) e até romance dramático. E quero deixar claro que adoro essa mescla, porém, aqui, a combinação raramente funciona porque falta unidade narrativa. O roteiro parece avançar em direções diferentes sem desenvolver nenhuma delas de maneira satisfatória.

Algumas cenas de luta parecem existir apenas para adicionar dinamismo visual, sem impacto real na construção dramática. O romance também carece de profundidade, funcionando mais como obrigação estrutural do que como elemento orgânico da história. Como consequência, há uma constante sensação de estar incompleto, como se várias ideias interessantes tivessem sido colocadas lado a lado sem uma costura eficiente.

Visualmente, a produção também apresenta inconsistências. A fotografia do primeiro ato possui uma identidade diferente da dos outros atos. Ainda assim, é possível reconhecer certa ambição na tentativa de construir um “herói nacional nerd”. Aírton representa um personagem que cresceu deslocado e que tenta encontrar espaço em um mundo que mudou rápido demais. Existe um potencial interessante nessa ideia de alguém que sofreu exclusão justamente por características que hoje se tornaram populares e comercialmente valorizadas. O problema é que o roteiro apenas toca superficialmente nessa reflexão, preferindo apostar em piadas rápidas e referências fáceis em vez de aprofundar os conflitos internos do protagonista.

A sequência final, com um toque de cinema B dos anos 1990/2000

A sequência final sintetiza muitos dos problemas de Cansei de ser Nerd. Há uma cena em que Aírton sobe ao palco para cantar enquanto a ação acontece simultaneamente abaixo dele. Essa passagem acaba soando exagerada e deslocada dentro da narrativa construída até ali. Em seguida, a batalha final recorre a diálogos expositivos e flashbacks que tentam amarrar os acontecimentos anteriores de maneira apressada. O resultado lembra produções adolescentes dos anos 1980 e 1990, especialmente uma das continuações de Garotos Perdidos, com Corey Feldman lutando contra uma horda de vampiros.

No fim, Cansei de ser Nerd é um filme que possui boas intenções e alguns momentos divertidos, mas que se perde na execução. O humor ocasionalmente funciona, especialmente quando abraça o absurdo sem medo, e existe uma tentativa legítima de dialogar com a cultura geek brasileira. Contudo, o excesso de referências, a falta de foco narrativo e as inconsistências tonais impedem que o longa alcance todo o potencial de sua proposta. É quase como ler aquele livro que você nem se interessou tanto, só por teimosia, fica uma sensação agridoce.

Cansei de ser Nerd

Onde assistir Cansei de ser Nerd?

O filme estreia em 28 de maio nos cinemas de todo Brasil.

Qual a história de Cansei de ser Nerd?

Aírton é um nerd assumido que decide comparecer à festa de reencontro da faculdade com uma missão bastante incomum: desmascarar um suposto culto alienígena responsável por um ritual assassino. Em meio ao caos, ele também tenta limpar sua reputação, marcada por acontecimentos do passado que ainda o perseguem.

Enquanto enfrenta situações absurdas e perigos inesperados, Aírton reencontra pessoas importantes da sua antiga vida universitária, incluindo aquela que acredita ser sua alma gêmea. Entre perseguições, conspirações e momentos constrangedores, ele tenta reconquistar esse amor ao mesmo tempo em que luta para sobreviver à noite mais insana de sua vida.

Nota: ★★

Título Original: Cansei de ser Nerd
Ano Lançamento: 2026 (Brasil)
Dir.: Gualter Pupo
Elenco: Fernando Caruso, Bia Guedes, Pedro Benevides, João Velho, Thais Belchior, Junior Vieira, Ana Carolina Sauwen, Paulo Verlings, Thainá Gallo, Marcelo Olinto, Thaisa Damous, Renata Canossa, Cissa Guimarães, Bel Kutner

Curiosidades de Cansei de ser Nerd

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