Críticas

Gatinhas e Gatões (84) | Rebobina 25

No dia de hoje completo 50 anos. Algumas pessoas me sugeriram escrever sobre meu filme preferido dos anos 80 para o Rebobina desta semana, como uma espécie de presente de aniversário para mim mesmo. Confesso que considerei a ideia, mas logo surgiu um problema: como escolher apenas um entre tantos filmes que amo? Pensei então em seguir outro caminho. Em vez do meu favorito, por que não revisitar o melhor filme adolescente dos anos 80 sobre aniversário? A resposta veio imediatamente. Não precisei pensar duas vezes. Tinha que ser Gatinhas e Gatões (84).

O título brasileiro pouco ajuda a entender sobre o que realmente é o filme. Como tantas adaptações da época, Gatinhas e Gatões (84) resume de forma bastante preguiçosa a geração retratada na tela. O original, Sixteen Candles, é muito mais específico. Traduzido literalmente, significa “Dezesseis Velas”, uma referência direta ao aniversário de 16 anos de Samantha Baker, vivida por Molly Ringwald. Diferente do Brasil, onde tradicionalmente as meninas celebram a chegada à vida adulta aos 15 anos, nos Estados Unidos esse rito de passagem costuma acontecer aos 16. Trata-se do chamado sweet sixteen, uma data cercada de expectativas, simbolismos e importância social. Por isso, aquele deveria ser o dia mais especial da vida de Samantha. O problema é que ninguém parece se lembrar disso.

A estréia do diretor John Hughes e o brat pack

Lançado em 1984, este foi o primeiro filme dirigido por John Hughes, que já havia escrito o roteiro de Férias Frustradas (1983), mas ainda estava longe de se tornar o principal cronista da adolescência americana. Nos anos seguintes, ele dirigiria clássicos como Clube dos Cinco (1985), Mulher Nota 1000 (85) e Curtindo a Vida Adoidado (1986), além de escrever os roteiros de A Garota de Rosa Shocking (1986) e Alguém Muito Especial (1987). Ou melhor, em apenas quatro anos, Hughes ajudou a criar uma verdadeira mitologia adolescente para os anos 80.

Esse conjunto de filmes e jovens atores recorrentes foi fundamental para consolidar o chamado Brat Pack, grupo que definiria a imagem da juventude americana durante boa parte dos anos 80. O movimento costuma ter como marco inicial Vidas Sem Rumo (1983), em produções voltadas aos dilemas da adolescência e da entrada na vida adulta. A alcunha era uma brincadeira com o lendário Rat Pack, grupo de astros liderado por Frank Sinatra que simbolizou a cultura pop americana nos anos 50 e 60. Durante a década seguinte, o Brat Pack dominaria o cinema jovem, transformando bailes, romances, inseguranças e conflitos familiares em fenômenos de bilheteria. Seu auge se estenderia até o final dos anos 80, quando filmes como Harry & Sally (1989) ajudariam a deslocar o foco de Hollywood para uma nova geração de personagens e relacionamentos.

Aliás, dois dos principais nomes do elenco acabariam se tornando símbolos daquela geração: Molly Ringwald e Anthony Michael Hall. Os dois voltariam a dividir a tela em Clube dos Cinco (1985), outro marco da filmografia de John Hughes. Ringwald se transformaria na grande musa adolescente dos anos 80, estrelando também A Garota de Rosa Shocking (1986), enquanto Hall, que já havia aparecido em Férias Frustradas (1983), conquistaria definitivamente o público em Mulher Nota 1000 (1985). Mas o talento reunido em Gatinhas e Gatões não para por aí. Entre os coadjuvantes estão os irmãos John e Joan Cusack, Jami Gertz, Michael Schoeffling, Justin Henry e Liane Curtis, entre outros.

Gatinhos e Gatões (84)
Gatinhos e Gatões (84)

Comédia teen e Gatinhos e Gatões (84) em tempos de Ronald Reagan

Gatinhas e Gatões também é herdeiro de uma das tendências mais marcantes do cinema americano dos anos 80. Poucos anos antes, Picardias Estudantis (1982), que já comentei aqui no Rebobina, havia mostrado a adolescência de maneira surpreendentemente franca, abordando temas como aborto, uso de drogas, iniciação sexual, inseguranças e a falta de perspectivas para o futuro. John Hughes parte desse mesmo universo, mas com uma proposta diferente. Sua missão era transformar aqueles adolescentes em protagonistas de histórias mais românticas, otimistas e acessíveis ao grande público, sem cair no moralismo ou parecer excessivamente careta.

Afinal, estávamos na era Reagan. Os Estados Unidos viviam um período de valorização da família, do consumo e do sonho suburbano, e Hughes encontrou uma forma de dialogar com esses valores sem ignorar as angústias típicas da juventude. Em vez dos grandes dramas sociais, seus filmes passaram a falar sobre pertencimento, popularidade, primeiro amor e a sensação de que pequenos acontecimentos da adolescência pareciam capazes de definir uma vida inteira.

E o aniversário de 16 anos de Samantha não poderia cair em momento pior. A data coincide justamente com a véspera do casamento de sua irmã mais velha, transformando aquilo que deveria ser seu grande dia em um detalhe completamente esquecido pela família. Aliás, estamos diante de uma típica família americana dos anos 80: numerosa, barulhenta e permanentemente à beira do caos. Samantha ainda divide a casa com um casal de irmãos mais novos e, para complicar ainda mais a situação, a cerimônia traz para dentro do lar os quatro avós, cada um com suas manias e opiniões. Como se isso não bastasse, a família também hospeda um estudante chinês de intercâmbio, criando uma convivência tão caótica quanto divertida. O resultado é uma casa em estado de alerta constante, onde ninguém tem tempo para perceber que aquela adolescente está vivendo o dia mais importante de sua vida.

Os créditos de abertura não poderiam ser mais anos 80. Depois de um rápido passeio pelo quarto de Samantha, repleto de pôsteres de bandas e ídolos adolescentes da época, o filme transforma sua sequência inicial num pequeno videoclipe sobre a juventude de 1984. Enquanto os créditos surgem na tela, acompanhamos estudantes chegando para mais um dia comum de aula, mas John Hughes e o diretor de fotografia fazem questão de transformar aquele cotidiano em um desfile de moda adolescente.

A câmera passeia por tênis, saias, jaquetas, penteados e acessórios, alternando closes de pés, quadris, rostos e cabelos numa linguagem visual muito influenciada pela MTV, que havia estreado apenas três anos antes. Para completar, a trilha abandona qualquer orquestra tradicional ou hit radiofônico do momento e aposta num tema instrumental fortemente inspirado pelo synthpop. O resultado é imediato: antes mesmo de conhecermos os personagens, já estamos completamente mergulhados naquele universo juvenil, colorido, estilizado e irresistivelmente oitentista.

Os dramas de uma adolescente americana

Na sequência, os demais dramas que parecem capazes de destruir a vida de qualquer adolescente são apresentados um a um. Samantha sente-se frustrada por ainda não parecer a mulher de 16 anos que imaginava se tornar, sua família esqueceu completamente seu aniversário e, como se não bastasse, ela é apaixonada por Jake Ryan, o veterano mais popular da escola, que namora a garota perfeita. Para piorar a situação, Samantha responde um daqueles questionários que circulavam de mão em mão entre os estudantes, uma espécie de versão americana dos nossos antigos cadernos de perguntas. Entre as respostas, admite que faria amor com Jake. O problema é que a folha desaparece. De repente, aquilo que deveria ser um segredo guardado entre adolescentes se transforma numa potencial catástrofe social, algo que, dentro da lógica do ensino médio, parecia muito mais assustador do que qualquer problema do mundo adulto.

Duas cenas ajudam a entender como John Hughes enxergava os adolescentes daquela década. Durante a aula de educação física, Jake Ryan comenta com um amigo sobre Samantha e demonstra um interesse relativamente maduro por ela. A resposta que recebe é reveladora: o colega não vê nada de especial na garota, considerando-a apenas mais uma estudante comum. E é justamente aí que reside uma das grandes sacadas do roteiro. Samantha não é a rainha do baile, não é a garota mais bonita da escola, não pertence ao grupo dos populares e tampouco faz parte dos nerds ou geeks caricatos que circulam pelos corredores. Ela ocupa o espaço onde estava a maioria do público que assistia ao filme: o da adolescente comum.

Enquanto todos ao seu redor são construídos a partir de estereótipos facilmente identificáveis, Samantha é a personagem mais próxima da realidade. Suas inseguranças, frustrações e desejos parecem genuínos, o que facilita a identificação do espectador. Talvez por isso Gatinhas e Gatões funcione muito melhor como comédia do que como drama adolescente. Hughes não está interessado em analisar profundamente os conflitos da juventude, mas em observá-los com carinho e humor, transformando pequenos dramas cotidianos em situações universais capazes de fazer rir justamente porque parecem tão familiares.

A segunda cena acontece no ônibus escolar e funciona como uma síntese perfeita da hierarquia adolescente que John Hughes retrata ao longo de todo o filme. Samantha está no segundo ano do ensino médio e acaba de completar 16 anos, idade em que muitos jovens americanos conquistam a carteira de motorista e, em alguns casos, até ganham um carro dos pais. Por isso, os alunos mais velhos e populares já não dependem mais do transporte escolar. Eles voltam para casa dirigindo.

Samantha e sua amiga Randy ocupam uma posição curiosa nessa cadeia alimentar: são as veteranas do ônibus, mas ainda não alcançaram o status que realmente desejam. Enquanto sonham com a liberdade simbolizada por um carro, seguem espremidas entre adolescentes mais novos, barulhentos e imaturos. É nesse ambiente que surge Geek, personagem de Anthony Michael Hall, e vários outros garotos fascinados pela simples presença de meninas mais velhas. A cena é engraçada, mas também revela como Hughes compreendia o ensino médio como um sistema de castas temporárias, onde cada ano letivo parecia aproximar ou afastar os jovens do mundo adulto.

Geek: um dos personagens mais engraçados dos anos 80

Geek é o líder natural daquele grupo de geeks que circula pelos corredores da escola tentando desesperadamente encontrar seu lugar na hierarquia adolescente. Trata-se de um personagem muito típico dos anos 80: o garoto que não é aceito pelos populares, mas deseja tanto fazer parte daquele universo que quase consegue se convencer de que pertence a ele. Sem o porte físico dos atletas, sem a aparência dos galãs e sem a autoconfiança necessária para impressionar as garotas, ele tenta compensar tudo isso com conversa, insistência e uma imagem cuidadosamente construída de si mesmo.

O problema é que, para impressionar os outros, acaba frequentemente fingindo ser alguém que não é. E o mais interessante é que John Hughes sugere que esse comportamento não é exclusividade dos geeks. Samantha tenta parecer mais madura do que se sente. Os amigos de Jake se esforçam para sustentar uma imagem de popularidade e sucesso. Até os casais do filme parecem representar papéis sociais que esperam deles. No fundo, todos estão atuando para uma plateia. Impressionar os outros faz parte da sobrevivência naquele ambiente. E talvez seja justamente por isso que o filme continue tão atual. Afinal, a necessidade de projetar uma versão idealizada de nós mesmos não desaparece quando termina o ensino médio. Ela apenas ganha novas formas na vida adulta.

Uma das cenas mais saudosistas de Gatinhas e Gatões acontece justamente na chegada de Samantha ao baile daquela noite. Em meio às inseguranças que a acompanham durante todo o filme, ela encontra Jake Ryan dançando de rosto colado com a namorada Caroline ao som de “True”, do Spandau Ballet. Para quem viveu os anos 80, é difícil não sentir um certo aperto nostálgico. Quantos adolescentes, inclusive no Brasil, não dançaram aquela mesma música com a namoradinha escolhida nas festas de escola, clubes e matinês? Mais do que um simples momento romântico, a cena registra um ritual social que marcou gerações inteiras.

Curiosamente, o filme captura um dos últimos momentos em que essa tradição ainda era vista como algo natural entre adolescentes. Poucos anos depois, com a popularização das boates, das danças mais individuais e das transformações culturais do início dos anos 90, o velho “rostinho colado” passaria a ser encarado por muitos como algo antiquado. Sem querer, John Hughes acabou filmando uma pequena cápsula do tempo de uma forma de paquera que estava prestes a desaparecer.

Aliás, a trilha sonora é um dos grandes trunfos de Gatinhas e Gatões, como não poderia deixar de ser em um filme adolescente lançado em 1984. Supervisionada pelo produtor Jimmy Iovine, uma das figuras mais influentes da indústria musical daquele período, ela reúne uma seleção impecável de pop e rock que funciona quase como um retrato sonoro da juventude oitentista. Estão presentes nomes já citados como Spandau Ballet e Kajagoogoo, além de Billy Idol, Madness, Oingo Boingo, Wham! e Stray Cats, responsáveis pela divertida versão de “Sixteen Candles”, clássico que inspirou o título original do filme.

Mas o grande destaque fica para “If You Were Here”, dos Thompson Twins, utilizada no encerramento e responsável por uma das sequências mais tocantes da obra. Curiosamente, apesar da qualidade da seleção musical, a trilha sonora oficial recebeu um lançamento bastante modesto na época, restrito aos Estados Unidos e em formato de miniálbum com apenas cinco faixas. Ainda assim, basta assistir ao filme para perceber que poucas produções capturaram tão bem o som da adolescência dos anos 80.

A famosa cena da calcinha

E então chegamos à famosa cena da calcinha de Samantha. Curiosamente, ela acontece logo após aquela que considero a melhor sequência de todo o filme. Ao fugir do baile, tanto pela vergonha de ter chamado a atenção de Jake quanto para escapar da insistência de Geek, Samantha se refugia em um conversível estacionado na garagem da escola. Geek a segue e, pela primeira vez, os dois têm uma conversa sincera sobre suas inseguranças, frustrações e desilusões. É um daqueles momentos em que John Hughes deixa claro que, longe das panelinhas e da hierarquia social do colégio, todos os adolescentes compartilham as mesmas dúvidas e carências. O excelente timing cômico de Anthony Michael Hall combinado à doçura de Molly Ringwald cria uma química surpreendente. De longe, é a dinâmica que melhor funciona em Gatinhas e Gatões

A conversa acaba levando a um acordo improvável. Em troca de uma informação valiosa, Samantha entrega sua calcinha para Geek, objeto que ele exibe como prova de uma aposta feita com os amigos. A situação culmina numa das cenas mais lembradas do cinema adolescente dos anos 80, quando a roupa íntima a exibida para os geeks e nerds a troco de 1 dólar no banheiro da escola. Vista hoje, ela evidencia como certas piadas e comportamentos daquela geração eram encarados de forma muito diferente pelo público da época. Ainda assim, dentro da proposta de comédia de John Hughes, funciona como mais um retrato exagerado das inseguranças, fantasias e obsessões que pareciam dominar o universo adolescente.

Depois do baile, o filme segue para uma animada after party na casa de Jake Ryan. Ali surgem mais uma boa coleção de encontros, desencontros e situações cômicas que impedem a narrativa de perder o ritmo em qualquer momento. John Hughes demonstra mais uma vez sua habilidade para construir histórias que se desenrolam ao longo de um único dia, algo que aperfeiçoaria ainda mais nos anos seguintes com Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986).

Em Gatinhas e Gatões, ele praticamente define o que seria uma sexta-feira perfeita para um adolescente americano de 16 anos em 1984: ultima aula da semana durante o dia, baile da escola à noite e uma festa na casa do garoto mais popular depois disso. Talvez seja justamente por compreender tão bem os sonhos, inseguranças e rituais daquela geração que Hughes tenha criado uma das Sessões da Tarde mais lembradas dos anos 80. Mesmo revisto décadas depois, o filme continua funcionando como uma divertida cápsula do tempo de uma juventude que acreditava que um único dia poderia mudar tudo. John Hughes no precocemente aos 59 anos, vítima de um ataque cardíaco em 2009, não sem antes deixar uma ótima coleção de filmes que retratam sua geração com bom humor.

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