
A crítica especializada torceu o nariz quando soube que o clássico Asas do Desejo, do alemão Wim Wenders, receberia uma versão hollywoodiana. Além disso, a direção ficaria a cargo do então jovem Brad Silberling, que havia estreado no cinema com outra “adaptação”: Gasparzinho. Em Cidade dos Anjos, Meg Ryan e Nicolas Cage interpretam Maggie Rice e Seth, respectivamente. Ela é uma médica cética; ele, um anjo. Seth se apaixona por Maggie, mas, para viver esse amor, precisaria abrir mão de sua eternidade e experimentar a condição humana.
Para embalar essa história de amor celestial, Gabriel Yared, que havia acabado de receber o Oscar de Melhor Trilha Sonora por O Paciente Inglês, foi escalado para compor os temas incidentais, enquanto alguns dos grandes nomes do rock alternativo daquele 1998 foram escolhidos para interpretar as canções: U2, Alanis Morissette, The Goo Goo Dolls, Peter Gabriel, Sarah McLachlan, entre outros. E ainda houve espaço para o resgate de mestres da guitarra blues, como Jimi Hendrix, Eric Clapton e John Lee Hooker.
Coleção de sucessos da trilha sonora de Cidade dos Anjos
Mais do que uma coleção de sucessos do final dos anos 90, a trilha sonora de Cidade dos Anjos funciona como uma extensão dos conflitos do filme. As canções alternam entre o desejo de transcendência e a experiência humana em sua forma mais íntima: o amor, o medo, o desejo, a perda e a busca por conexão. De um lado, as vozes celestiais, os corais e as atmosferas etéreas; de outro, o blues, a guitarra e a fragilidade humana. Essa combinação ajudou o álbum a ultrapassar o papel de simples acompanhamento do longa e transformá-lo em uma das trilhas mais marcantes daquela década.
Um detalhe curioso da trilha de Cidade dos Anjos é que nem todas as músicas do álbum têm uma presença marcante dentro do filme. Enquanto “Iris”, “Angel”, “I Grieve”, “Feelin’ Love” e “Uninvited” ficaram diretamente ligadas a momentos da narrativa, outras faixas funcionam quase como uma extensão emocional da obra. O álbum acabou construindo uma experiência própria, misturando canções que acompanham a história e outras que ajudam a criar a atmosfera entre o celestial e o humano.
Abre com “If God Will Send His Angels”, quarta faixa do álbum Pop, do U2, lançado um ano antes de Cidade dos Anjos. A versão presente na trilha é a edição single, e não a versão do álbum. A escolha, porém, caiu como uma luva para o filme: o próprio título, em tradução livre, significa “Se Deus Enviar Seus Anjos”. A faixa alcançou a 12ª posição na parada britânica.
Bono descreveu a canção como uma espécie de “gospel de ficção científica”, abordando o sentimento de abandono espiritual, a ausência de intervenção divina e a desilusão com o estado do mundo moderno, temas que continuam atuais. Isso fica evidente no videoclipe dirigido por Phil Joanou, parceiro habitual da banda e também realizador de filmes como Desejo (1992) e Prisioneiro do Passado (1996). É inevitável perceber a aproximação entre Bono e Seth: assim como o anjo de Cidade dos Anjos, o vocalista observa a cidade, inclusive de uma perspectiva elevada, como alguém tentando compreender o mundo ao seu redor.
The Goo Goo Dolls ficou 18 semanas no topo das paradas
“Iris” permaneceu por 18 semanas no topo da parada de Airplay da Billboard. A faixa recebeu duas indicações ao Grammy, nas categorias Gravação do Ano e Melhor Performance Pop de Grupo. Em 2009, a Rolling Stone colocou a canção na 39ª posição entre as maiores músicas pop já feitas. Atualmente, ela ocupa a 23ª posição entre as faixas mais executadas de todos os tempos no Spotify, com impressionantes 3,7 bilhões de reproduções, além de cerca de 2,7 milhões de plays diários. Incrível.
Uma curiosidade é que o título da música não aparece na letra e também não é o nome de nenhum personagem do filme. Ele surgiu quando John Rzeznikz, compositor e vocalista da banda, viu em um jornal o anúncio de um show da artista folk Iris DeMent. A letra aborda dois dos principais desejos de Seth: ser visto exatamente como é e conseguir tocar a pessoa que ama. O videoclipe, que já ultrapassou 800 milhões de visualizações no YouTube, mostra o vocalista observando a cidade do alto, uma referência direta…
Outra canção de grande sucesso da trilha é “Uninvited”, de Alanis Morissette. Após atingir o estrelato com seu álbum Jagged Little Pill, de 1995, a artista ainda não havia lançado um novo trabalho e preparava o sucessor do disco, que chegaria ao público apenas seis meses depois do single da trilha de Cidade dos Anjos, ainda em 1998. Dá para imaginar, portanto, a expectativa em torno da faixa.
“Uninvited” chegou ao topo da parada Pop da Billboard. Quatro notas de piano em crescendo criam uma atmosfera etérea, enquanto a produção e a composição ficaram a cargo de Rob Cavallo, que também trabalhou na faixa do Goo Goo Dolls. Diferente do estilo mais roqueiro e energético de Jagged Little Pill, a canção trouxe novos músicos para o estúdio e funcionou também como uma prévia do caminho que Alanis seguiria em seu novo álbum.
Alanis recebeu três indicações ao Grammy e venceu nas categorias Melhor Canção de Rock e Melhor Performance Vocal Pop Feminina, mas não levou o prêmio de Melhor Canção Escrita para Mídia Visual. Se “Iris” é sobre Seth, “Uninvited” é sobre Maggie. A letra aborda a tensão entre o desejo, a vulnerabilidade, o medo da exposição emocional e a relutância em se entregar a um amor ou a uma presença avassaladora.
Outra faixa de relativo sucesso que já havia sido lançada, mas foi escolhida a dedo para a trilha, é “Angel”, de Sarah McLachlan. A canção fazia parte do álbum Surfacing, que estava em alta após os sucessos de “Building a Mystery”, “Sweet Surrender” e “Adia”. “Angel” chegou à 4ª posição da parada Billboard. Na letra, os “braços do anjo” não representam necessariamente uma figura religiosa ou a morte, mas funcionam como uma metáfora para o alívio temporário e o entorpecimento proporcionados pelas drogas a alguém que está sofrendo. A música foi composta em homenagem a Jonathan Melvoin, tecladista da turnê do Smashing Pumpkins, que morreu de overdose em 1996, aos 34 anos.
Uma pérola escondida na trilha sonora de Cidade dos Anjos
Uma pérola escondida na trilha sonora de Cidade dos Anjos é “I Grieve”, de Peter Gabriel. A canção fala sobre aquele momento em que o luto parece nos retirar temporariamente da própria experiência humana: os minutos, horas ou dias após uma perda, quando o tempo perde o sentido e tudo parece ficar em suspenso. Não é apenas uma música sobre tristeza, mas sobre o vazio deixado por alguém que partiu e o difícil processo de continuar vivendo.
Criada originalmente para a trilha do filme, a faixa foi escolhida para acompanhar uma montagem específica sobre a perda e as consequências da escolha de Seth em abandonar sua condição de anjo para experimentar a vida humana. Curiosamente, a música ganharia uma nova versão e maior destaque anos depois, quando Peter Gabriel a incluiu no álbum Up, de 2002.
“Feelin’ Love”, de Paula Cole, aparece na trilha sonora de Cidade dos Anjos um ano após a artista receber indicações ao Grammy pela faixa “Where Have All the Cowboys Gone?” e enquanto “I Don’t Want to Wait” ganhava alta rotação por ser tema da série Dawson’s Creek. Ambas faziam parte do álbum This Fire. É um pop rock cadenciado, com uma atmosfera sensual e contemplativa, que pode ter passado despercebido diante dos grandes sucessos da trilha, mas funciona muito bem dentro da proposta do longa-metragem.
Ainda temos Jude, um artista praticamente estreante quando a trilha sonora foi lançada, mas que seguiu sua carreira dentro do folk alternativo, mesmo sem alcançar grande projeção comercial. A faixa “I Know”, presente em Cidade dos Anjos, é um bom exemplo do seu trabalho, com sua sonoridade intimista e melancólica.
As faixas mais clássicas e roqueiras de Jimi Hendrix (“Red House”), Eric Clapton (“Further On Up the Road”) e John Lee Hooker (“Mama, You Got a Daughter”) funcionam como contraponto aos temas mais celestiais da trilha, quase como uma representação do mundo terreno e da experiência humana que Seth tanto deseja conhecer.
O álbum ainda traz quatro faixas do score de Gabriel Yared. O compositor construiu uma trilha de atmosfera espiritual e contemplativa, muitas vezes utilizando um motivo de três notas ascendentes para representar a ideia de elevação dos anjos. Misturando sintetizadores, piano, cordas e corais distantes, Yared criou uma ponte entre o mundo celestial e a experiência humana de Seth. Hoje é possível ouví-la por completa nos aplicativos de streaming.
A trilha sonora foi lançada em março de 1998, chegou ao primeiro lugar da Billboard e terminou o ano como o 7º álbum mais vendido. O sucesso foi impulsionado principalmente por quatro faixas lançadas como singles, todas elas grandes sucessos. Mesmo quase 30 anos depois, elas continuam presentes na programação das rádios adultas e seguem sendo descobertas por novas gerações no streaming.




