Ruas de Fogo: a fábula rock’n’roll (84) | Rebobina 006

Era uma vez… uma estrela do rock chamada Ellen Aim (Diane Lane) que é sequestrada por uma gangue liderada por Raven (Willem Dafoe). Tom Cody (Michael Paré), o ex-namorado durão, é contratado pelo empresário (Rick Moranis) para resgatá-la com a ajuda da ex-soldado McCoy (Amy Madigan). Com essa premissa simples, Walter Hill construiu o que ele próprio chamou de uma fábula rock n’ roll. Ruas de Fogo não quer ser levado a sério, ele só quer entreter.

A cidade não tem nome, mas tem rosto. O rosto da noite. Sempre iluminada por néon, permanentemente molhada pela chuva e governada por gangues de motociclistas. Becos escuros, metrôs decadentes, bares esfumacentos e ruas que parecem existir apenas para servir de palco para brigas, intimidação e explosões. Não há sol e a manhã é cinza.

Não há rotina, apenas o próximo passo. Tudo acontece como se aquele mundo estivesse preso em um microcosmo bandido, repleto de seres errantes. Um western urbano onde todos os arquétipos estão presentes: o xerife, o mocinho e o bandido. O saloon, a música, os cavalos e o duelo. Só mudou a estética.

Ruas de Fogo

Nem tudo é fábula em Ruas de Fogo

Entretanto, nem tudo é fábula quando se trata do diretor Walter Hill. Cinco anos antes, ele havia retratado as gangues em uma Nova York futurista e ainda mais decadente em The Warriors – Selvagem da Noite. Vale lembrar que, em 1984, os yuppies ainda estavam apenas começando a moldar a visão otimista e consumista que marcaria o imaginário urbano no final da década – aqui pateticamente representada pelo empresário Fisk.

Há, sim, um discurso social em Ruas de Fogo, ainda que ele nunca se imponha de forma explícita. Tom Cody passou dois anos no Exército e retorna sem rumo e “sem condecoração”, como ele próprio afirma, um herói que não foi recompensado por nada. Ellen faz shows beneficentes em lugares caóticos, cantando para comunidades esquecidas. McCoy também foi soldado, mas a guerra acabou e agora ela precisa simplesmente de trabalho. Reva (Deborah Van Valkenburgh), irmã de Tom, mora sozinha e trabalha como garçonete, sem qualquer perspectiva concreta de um futuro melhor, assim como Clyde (Bill Paxton), antigo amigo de escola do protagonista, preso à mesma estagnação juvenil.

Elenco bem escolhido, mas é Amy Madigan quem brilha

O elenco foi muito bem escolhido. Michael Paré, recém-saído de Eddie, o Ídolo Pop (1983), encaixa perfeitamente na pele do herói de poucas palavras. Diane Lane, cujo lançamento anterior havia sido Vidas Sem Rumo (1983), de Coppola, é intensa sobre o palco e fútil fora dele, exatamente como Walter Hill precisava para construir sua musa inalcançável. Willem Dafoe é perfeito como vilão operístico, e Rick Moranis já antecipa aqui o tipo de personagem irritante e carismático que repetiria ao longo da década em filmes como Ghostbusters, Viagem Insólita e Querida, Encolhi as Crianças.

Entretanto, quem realmente rouba o filme é Amy Madigan. Sua McCoy entrega um raro equilíbrio entre humildade (“me descola um lugar pra dormir”), dureza (“só aponto uma arma se for pra usar”), bom humor (“acho que você não faz o meu tipo, entende?”) e solidariedade (“sei o que você está passando”). É, de longe, a personagem mais complexa do filme, aquela que parece existir além da função mítica e se aproxima mais de uma pessoa real. Nas mãos de uma grande atriz, McCoy se torna o verdadeiro centro emocional da narrativa. Madigan foi indicada este mês ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação como a Tia Gladys em A Hora do Mal, sua segunda indicação em uma carreira longa, sólida e muitas vezes subestimada.

Uma opera-rock pop

E há ainda a música, que embala toda a fábula. Ruas de Fogo já começa em ritmo acelerado com “Nowhere Fast”, que no Brasil foi imortalizada como tema de abertura do Programa Livre no início dos anos 90. Além disso, a banda The Blasters aparece em cena tocando duas músicas no inferninho de Raven, reforçando a sensação de que o rock não é apenas trilha, mas parte orgânica daquele universo. Mais perto do final, surgem dois dos momentos mais icônicos do filme: “I Can Dream About You”, que chegou ao top 10 da Billboard, e “Tonight Is What It Means to Be Young”, ambas apresentadas na íntegra, como verdadeiros clímax emocionais. A trilha, produzida por nomes como Jimmy Iovine (U2, Simple Minds) e Jim Steinman (Bonnie Tyler), consolida o filme como uma espécie de ópera pop, onde a música não é pano de fundo para a ação, ela é a própria ação.

O título do filme é uma referência direta a canção homônima que Bruce Springsteen gravou para seu album Darkness On The Edge of Town (78). Inclusive os produtores tentaram por meses uma liberação do artista para que ela fosse usada no final do filme, mas quando Bruce descobriu que ela seria regravada, vetou.

Fracasso nos cinemas, sucesso no sofá

Parece estranho ler isso nos dias de hoje, quando Ruas de Fogo já ocupa com conforto o status de cult dos anos 80, mas o filme fracassou nos cinemas em seu lançamento. O público simplesmente não comprou a ideia de misturar rock, fábula e western urbano em um mesmo pacote. Com o passar dos anos, porém, ele foi redescoberto no VHS e acabou se tornando um clássico da televisão, especialmente no Brasil.

Além disso, “I Can Dream About You” custa a envelhecer e continua tocando nas FMs adultas, como se lembrasse constantemente que, em 1984, foi lançado um filme com trilha sonora vibrante e trama de Sessão da Tarde que, de tempos em tempos, insiste em ser revisitada por novas gerações.

O próprio Walter Hill nunca escondeu que Ruas de Fogo nasceu menos de uma ideia de mercado e mais de um desejo pessoal. Segundo o diretor em entrevista da época, o filme surgiu da vontade de realizar aquilo que ele considerava, na adolescência, o “filme perfeito”, reunindo tudo o que ainda lhe despertava afeto: carros customizados, beijos sob a chuva, luzes de néon, trens cruzando a noite, perseguições em alta velocidade, brigas de rua, astros do rock, motocicletas, piadas em situações extremas, jaquetas de couro e, sobretudo, uma noção quase romântica de honra. Dessa lista, muito entrou para o corte final de Ruas de Fogo: um cinema que não pede permissão para ser sofisticado, porque prefere ser sincero com as próprias paixões.

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