Highlander – O Guerreiro Imortal | Rebobina 011

Highlander começa com uma vantagem que poucos filmes na história do cinema tiveram o privilégio: duas vozes que, sozinhas, já carregam o peso de gerações inteiras. Primeiro, a narração grave e serena de Sean Connery, que hoje ressoa com uma autoridade ainda maior para quem cresceu sob sua presença constante nas telas. Em seguida, sem transição suave ou pedido de licença, entra a voz de Freddie Mercury em “Princes of the Universe”, rasgando o silêncio com presença e autoridade. Provando que só o tempo é capaz de confirmar que alguns podem, sim, ser imortais.

A primeira cena, ambientada em um ginásio durante uma luta livre, já demonstra que Highlander pretendia ser visualmente diferente com a adição do diretor Russell Mulcahy. O uso de um traveling aéreo livre sobre o ringue, mergulhando do alto da arena até o centro da ação, não era uma escolha simples na época. Esse artificio era muito usado em externas com helicóptero. A câmera não apenas observa, ela atravessa estruturas, desce em direção ao personagem e o encontra no meio da multidão.

Na sequência, nosso guerreiro desce ao estacionamento para um combate de espadas que rompe qualquer lógica cotidiana. Ali, passado e presente passam a coexistir. Não apenas pela luta improvável em pleno anos 80, mas pelos flashes de uma batalha ancestral que invadem a tela sem aviso, como memórias. A luta ultrapassa o simples choque entre lâminas e corpos. Os carros e as luzes ao redor deixam de ser cenário e passam a reagir, pulsando em um ritmo frenético, como se aquele duelo liberasse uma força que o mundo ao redor não consegue conter.

Highlander é mesmo imortal?

Highlander é um guerreiro (quase) imortal, como o próprio subtítulo brasileiro afirma. Ele não adoece e não envelhece, mas pode morrer se for decapitado. Espalhados pelo mundo ao longo dos séculos, esses guerreiros vivem em anonimato e em constante confronto, guiados por uma profecia simples e inevitável: “no final, restará apenas um”. Entre eles está Connor MacLeod, um escocês nascido no século XVI que sobrevive, carregando não apenas sua espada, mas o peso de séculos de existência.

A tarefa de Christopher Lambert como Connor MacLeod não era simples. Ele precisava construir um personagem fragmentado pelo tempo, apresentado em diferentes estágios emocionais sem perder sua unidade. Primeiro, o vemos jovem, ainda limitado aos seus vinte e poucos anos, cheio de energia e inocência, incapaz de compreender o que sua condição realmente significa. Em seguida, durante o treinamento com seu mentor Ramirez, surge a confusão, o desconforto de alguém que precisa reaprender a existir sob regras – além de atuar a altura de Sean Connery. Já nos anos 80, Lambert adota outra postura, mais contida e silenciosa, como se cada gesto carregasse o acúmulo invisível de séculos. Sua interpretação não busca grandes demonstrações, mas sim uma transformação gradual, mostrando que, em Highlander, o tempo não apenas passa pelo personagem, ele se instala dentro dele.

Highlander

Roteiro de iniciantes tem seus problemas

O roteiro, escrito pelos inexperientes Gregory Widen, Peter Bellwood e Larry Ferguson, se apoia em uma estrutura cíclica que alterna constantemente entre três eixos: os confrontos físicos, relacionamentos amorosos de Connor ao longo dos séculos e as investigações sobre sua natureza. No entanto, essa escolha também revela uma limitação. As lutas repetitivas e os romances, emocionalmente superficiais, acabam recebendo mais espaço do que o aspecto mais fascinante da premissa: o peso psicológico da imortalidade. O filme toca nesse tema, mas raramente permanece tempo suficiente nessas consequências. Ele não pode constituir família e sua cabeça está, literalmente, em jogo o tempo todo, fatos que poderiam ter sido explorado com mais profundidade.

Um dos momentos em que Highlander encontra sua forma mais completa acontece ao som de “Who Wants to Live Forever”. A canção, escrita por Brian May, com arranjo orquestral de Michael Kamen e interpretada por Freddie Mercury, não apenas acompanha a cena, mas a traduz emocionalmente. Enquanto Connor observa o envelhecimento inevitável de sua grande amada, a música expressa aquilo que o roteiro raramente verbaliza: a imortalidade como condenação afetiva. A letra questiona o próprio valor de viver para sempre quando tudo o que dá sentido à vida é passageiro. A combinação entre imagem e som transforma a sequência em uma das mais românticas e melancólicas do cinema dos anos 80, dando profundidade a um conflito que, em outros momentos, o filme apenas sugere.

Sean Connery perfeito como mentor

É preciso falar do vilão. Visualmente, Kurgan (Clancy Brown) é uma criação memorável. Sua presença física, o olhar penetrante e a forma como ocupa o quadro fazem dele uma ameaça imediata, quase primitiva, como se fosse menos um homem e mais uma força inevitável que atravessou os séculos intacta. No entanto, o roteiro não sustenta essa promessa inicial. Apresentado como o grande nêmesis de Connor ao longo de gerações, ele carece de desenvolvimento que justifique esse peso dramático. Seus diálogos são limitados e, muitas vezes, reduzem o personagem a provocações rasas e grunhidos, risadas e caretas, como se sua brutalidade bastasse para defini-lo. Exceto na cena da igreja, num dos vários encontros de guerra psicológica com McLeod.

Também é impossível ignorar a presença de Sean Connery como Ramirez, o mentor que dá a Connor não apenas respostas, mas direção. Sua função na história ecoa o arquétipo clássico do mestre que prepara o herói para um destino que ele ainda não compreende, muito próximo do que Obi-Wan representa para Luke na saga Star Wars. Connery traz autoridade e serenidade ao personagem, tornando crível que aquele homem carregue séculos de sabedoria. Não importa onde ele esteja depois dos ensinamentos, Ramirez permanecerá vivo na memória, nas escolhas e na consciência de Connor.

Queen é a alma do filme

Falar de Highlander é também falar da presença decisiva do Queen em sua identidade, que surge como a alma do filme. Poucas trilhas sonoras se confundem tanto com o próprio espírito do filme. Suas músicas atravessam os séculos junto com Connor MacLeod, surgindo tanto como comentário épico em cenas ambientadas no passado (“Who Wants to Live Forever”) quanto tocando em um simples toca-fitas de carro nos anos 80 (“Hammer To Fall”) ou num bar acompanhado de cerveja gelada (“One Year Of Love”), sem jamais soar deslocadas – “It’s a Kind of Magic” toca nos créditos finais. Essa elasticidade temporal reforça uma ideia central do próprio filme. Quatro décadas depois, a permanência da banda na cultura popular confirma essa impressão inicial.

Nas décadas seguintes, Highlander gerou continuações e até uma série de televisão, mas nenhuma delas conseguiu reproduzir o impacto singular do filme original. Curiosamente, seu desempenho inicial nos cinemas foi apenas modesto, longe de qualquer consagração imediata. Foi no mercado de home video que encontrou seu verdadeiro destino, conquistando aos poucos um público fiel que o transformou em clássico cult. No Brasil, seu alcance foi além das telas: “Highlander” virou apelido popular para definir alguém que resiste a tudo e segue em frente, como se carregasse a mesma capacidade de sobrevivência do personagem. É um sinal raro de permanência cultural, que explica por que, mesmo depois de quarenta anos, o filme ainda ocupa um espaço afetivo na memória de quem viveu o cinema dos anos 80. No fim, talvez o longa nunca tenha sido apenas sobre viver para sempre, mas sobre permanecer vivo na memória, o único lugar onde a verdadeira imortalidade sempre existiu.

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