Ninja (2009), lançado pela Nu Image em parceria com a Millennium Films, foi dirigido por Isaac Florentine. Surgiu como uma espécie de homenagem ao cinema de artes marciais que dominou as prateleiras das locadoras na década de 1980. Há um resgate da essência das produções da Cannon Films, recriando aquela atmosfera mística e exagerada que transformou esses guerreiros em verdadeiros fenômenos da cultura pop ocidental.
Mesmo com esse ponto saudosista, o filme tenta corrigir pequenos absurdos do passado — ou ao menos atualizá-los. Se nos clássicos oitentistas como Ninja – A Máquina Assassina e American Ninja era comum ver guerreiros perambulando à luz do dia vestidos de preto sem o menor pudor, Florentine opta por um visual noturno mais sóbrio. Em contrapartida, o diretor insere novos exageros cômicos: em determinado momento, os personagens usam óculos de visão noturna em ambientes onde seria perfeitamente possível enxergar o oponente a olho nu. Essa alternância entre o respeito ao gênero e a inocência estética dá o tom da produção.
Ninja (2009) e os vícios da Era Digital
Se há algo em que o diretor se destaca é na condução das cenas de ação. Ele entende a geografia das lutas, mantendo a câmera estável e enquadrando os movimentos com clareza, valorizando o talento físico de seu astro, Scott Adkins. As coreografias são fluidas, dinâmicas – uma ou outra com cortes excessivos – e possuem um ritmo que prende a atenção de quem busca artes marciais de alto nível.
No entanto, Ninja (2009) carrega uma marca registrada um tanto indigesta dos projetos da Millennium Films daquela época — presente também em franquias de maior orçamento, como Os Mercenários: o infame sangue digital.
Simplicidade narrativa e o mistério do figurino
Com enxutos 90 minutos de duração, o longa entrega uma trama de vingança extremamente convencional. A premissa não busca inovar em nenhum aspecto narrativo, servindo apenas como um pretexto raso para conectar uma sequência de pancadaria à outra. O vilão da história, interpretado por Tsuyoshi Ihara, abusa de “caras e bocas” a cada aparição para reforçar sua maldade.
Em contrapartida, as lutas entre Adkins e Ihara são divertidas demais. O ponto curioso é que, em momento algum, o roteiro se preocupa em explicar como os protagonistas conseguem trajes ninjas com um design tão moderno, tecnológico e incrivelmente estiloso. A roupa simplesmente surge em cena, bonita e pronta para o combate, exigindo do espectador uma suspensão total da descrença.
Acrobacias exageradas
O exagero estilístico é uma lâmina de dois gumes no longa. Mesmo quando um movimento simples resolveria a situação, os personagens executam saltos mortais e piruetas mirabolantes apenas para deixar o enquadramento mais empolgante. Embora esse apelo estético funcione nos primeiros minutos, a repetição exaustiva acaba gerando um desgaste visual no espectador.
Essa quebra de lógica atinge seu ápice no confronto final. Na tentativa de criar um ar de mistério e superioridade para o antagonista, o filme concede a ele uma espécie de “poder especial” sem qualquer embasamento prévio. Em um segundo o vilão está posicionado estrategicamente à frente do nosso herói; no instante seguinte, após acionar uma bomba de fumaça, ele reaparece milagrosamente desferindo um golpe pelas costas do protagonista. O recurso soa mais como uma conveniência de roteiro preguiçosa do que como uma habilidade ninja legítima.
O humor involuntário de Ninja (2009)
Por fim, Ninja (2009) é uma bobeira cinematográfica assumida. É uma obra cujo valor reside justamente na sua capacidade de não se levar a sério demais, entregando uma experiência de entretenimento puramente escapista.
Se o espectador entende a proposta e abraça o tom galhofa — apreciando tanto a excelente execução das lutas quanto o humor involuntário —, o filme de Florentine e Adkins cumpre seu papel e garante uma boa dose de diversão sem compromisso.




