
Há filmes que parecem ter sido concebidos com uma única missão: entregar ao espectador exatamente aquilo que ele espera encontrar. Sem grandes ambições narrativas, sem personagens particularmente complexos e sem a pretensão de reinventar o cinema de ação, essas produções apostam todas as suas fichas na presença de um astro carismático, em sequências de combate bem coreografadas e na velha fórmula do homem solitário que, contra todas as probabilidades, consegue enfrentar um verdadeiro exército de inimigos. Missão Refúgio, dirigido por Ric Roman Waugh, é justamente esse tipo de filme. E, considerando que seu protagonista é Jason Statham, dificilmente alguém entrará na sala de cinema esperando encontrar uma obra-prima do roteiro.
A boa notícia é que o longa sabe, ao menos parcialmente, qual é o seu público. A má notícia é que parece satisfeito demais em oferecer apenas o básico, como se a presença de Statham e uma sucessão de confrontos violentos fossem suficientes para sustentar toda a experiência. Para quem procura escapismo, a produção pode funcionar como entretenimento descompromissado. Já para quem espera alguma novidade dentro de um gênero que há tempos se repete, a experiência tende a ser menos empolgante.
Missão Resgate traz o mesmo personagem para Jason Statham
Statham interpreta Mason, um homem de poucas palavras, semblante permanentemente fechado e passado misterioso. Isolado em uma ilha, longe da sociedade e aparentemente interessado apenas em sobreviver à própria solidão, ele representa uma figura bastante familiar na filmografia do ator. Mason não precisa explicar muito quem é, tampouco demonstrar grandes emoções. Basta olhar para alguém com aquela expressão de poucos amigos para perceber que existe uma quantidade considerável de problemas escondidos sob a superfície.
A tranquilidade desse isolamento, entretanto, chega ao fim quando uma menina chamada Jesse, interpretada por Bodhi Rae Breathnach (Hamnet – A Vida Antes de Hamlet), acaba em perigo após um acidente com o barco que a levava até a ilha. Ela e um parente costumavam transportar alimentos para nosso herói uma vez por semana, mas, em determinado dia, a embarcação vira por conta de uma forte tempestade, o homem morre e a garota quase se afoga, mas é salva pelo sujeito e, de repente, o cara precisa assumir a responsabilidade de cuidar de uma adolescente.
É nesse ponto que Missão Refúgio tenta acrescentar uma dimensão emocional à sua história. A relação entre um homem endurecido pelas circunstâncias da vida e uma menina vulnerável é um recurso antigo, explorado à exaustão pelo cinema de ação. A menina representa a possibilidade de redenção do protagonista, enquanto o adulto precisa reaprender a se importar com alguém além de si mesmo. Não há nada de errado em recorrer a essa estrutura, mas o problema está na maneira como ela é desenvolvida. Em vez de construir uma relação capaz de conquistar o espectador gradualmente, o roteiro parece interessado em cumprir as etapas necessárias para colocar Mason novamente em movimento.
Conveniências narrativas
E o roteiro, escrito por Ward Parry, não demora a encontrar uma maneira de transformar o protagonista em alvo. Quando Mason precisa deixar a ilha para conseguir alimentos e medicamentos para cuidar dos ferimentos de Jesse, uma situação envolvendo o MI6 faz com que ele seja confundido com um criminoso. A partir daí, aquilo que deveria ser uma simples ida ao mercado e à farmácia transforma-se em uma sucessão de perseguições, emboscadas e confrontos armados.
A conveniência narrativa é evidente. Os acontecimentos se encaixam porque precisam acontecer, e não porque exista uma construção particularmente convincente por trás deles. É aquele tipo de roteiro que não pede muita atenção, mas também não oferece motivos suficientes para que o espectador se envolva de verdade com o que está acontecendo.
Na direção, Ric Roman Waugh, responsável pelo medianos Destruição Final e Invasão ao Serviço Secreto, demonstra alguma familiaridade com a linguagem do cinema de ação, embora continue longe de ser um realizador especialmente inventivo. Seu trabalho em Missão Refúgio funciona melhor quando a narrativa abandona as explicações e deixa os corpos falarem. As lutas são conduzidas com impacto, os golpes parecem dolorosos e os disparos carregam uma brutalidade que ajuda a manter o interesse durante os momentos mais movimentados.
Ação desenfreada sob influência de John Wick
Existe uma fisicalidade interessante nessas sequências. Waugh procura fazer com que o espectador sinta o peso dos socos e a violência dos confrontos, evitando que tudo se transforme em uma sucessão excessivamente artificial de movimentos. Quando a coreografia funciona, Statham reafirma aquilo que o tornou uma figura tão popular no gênero: sua capacidade de transmitir eficiência física sem precisar recorrer a grandes discursos ou demonstrações exageradas de heroísmo.
Entretanto, também é impossível ignorar a influência de John Wick. A combinação de combates coreografados, inimigos descartáveis e um protagonista praticamente imparável remete diretamente à franquia estrelada por Keanu Reeves. A diferença é que, enquanto John Wick construiu uma identidade visual própria e expandiu seu universo com regras, códigos e personagens particulares, Missão Refúgio parece mais interessado em aproveitar os elementos que deram certo em outras produções. A violência está presente, mas falta personalidade para transformar a referência em algo verdadeiramente próprio.
Jason Statham, por sua vez, entrega exatamente o que se espera dele. Ele sabe ocupar a tela, sustentar o silêncio e transformar movimentos simples em demonstrações de autoridade física. O problema é que essa competência também evidencia a falta de profundidade do material que tem em mãos.
Bodhi Rae Breathnach é responsável por boa parte da tentativa de humanizar a história. Como Jesse, a atriz demonstra expressividade e procura dar alguma personalidade à menina, mesmo quando o roteiro não lhe oferece material suficiente para desenvolver uma personagem mais complexa. Sua presença ajuda a estabelecer o vínculo emocional que deveria servir de sustentação para a jornada de Mason, mas nem sempre a narrativa permite que essa relação respire. O resultado é uma dinâmica que funciona em alguns momentos, embora raramente alcance a força dramática que poderia ter.
Naomi Ackie, de Pisque Duas Vezes, e Bill Nighy, conhecido também por sua participação em Piratas do Caribe: O Baú da Morte, completam o elenco. São extremamente talentosos, mas se perdem nesse limbo de mesmice. É mais uma oportunidade desperdiçada em uma produção que parece considerar qualquer aprofundamento narrativo um obstáculo à próxima sequência de ação.
Missão Refúgio é pra quem curte o cinema de ação brucutu
Não espere grandes reviravoltas, diálogos memoráveis ou uma história capaz de surpreender. Missão Refúgio não está interessado em reinventar o subgênero do exército de um homem só, tampouco apresenta uma abordagem particularmente original para a relação entre seu protagonista e a criança que passa a proteger. Seu objetivo é mais simples: colocar Jason Statham em situações perigosas e deixá-lo resolver tudo da maneira que seus fãs conhecem tão bem.
A obra não é um desastre, mas também está longe de ser memorável. É um daqueles filmes que oferecem exatamente o que prometem, sem entregar muito além disso. Se você gosta de Jason Statham, aprecia histórias de homens solitários enfrentando dezenas de adversários e não se importa com um roteiro que funciona mais como desculpa para a pancadaria, pode assistir sem grandes receios. Agora, se procura algo que vá além dos clichês e apresente uma visão renovada do cinema de ação, talvez seja melhor procurar abrigo em outro lugar.




