Sabe quando você chega na metade da exibição de um filme e passa alguns minutos tentando se situar, lamentando ter perdido o primeiro ato, com a origem dos personagens e o início do enredo? Essa é a primeira sensação estranha quando Mestres do Universo começa. O espectador é jogado em uma história que parece já estar em andamento. Como o filme é baseado em uma animação que você assistia diariamente na TV quando criança, essa ausência inicial até pode ser aceita. Aí vem a segunda estranheza. Aos poucos fica claro que elementos importantes realmente estão faltando. Onde está o Gato Guerreiro? E Gorpo? Por que He Man não retorna à forma do Príncipe Adam? De repente, a resposta se impõe: há ali uma limitação evidente de orçamento.
Essa escolha de roteiro sugere a pretensão de realizar um filme essencialmente infantil. Caso contrário, não faria sentido omitir explicações básicas para o espectador adulto que não acompanha a animação em casa. Ainda assim, é justamente esse adulto que provavelmente levaria o filho ao cinema. Surge então uma dúvida: seria a obra pensada como um produto televisivo, algo para ser consumido por crianças na programação da tarde? Dificilmente. Apesar da evidente limitação de orçamento, o filme foi concebido para a tela grande. Essa indecisão revela uma confusão na relação entre produto e público alvo. E, embora isso possa parecer um detalhe, os problemas não param por aí.
A sinopse de Mestres do Universo e o erro em ambientar na Terra
Em Eternia, Esqueleto (Frank Langella) rapta a Feiticeira (Christina Pickles) para assumir o controle do planeta. He Man (Dolph Lundgren), ao lado de Mentor (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field), parte em uma missão de resgate. Paralelamente, o duende e mestre chaveiro Gwildor (Billy Barty) é sequestrado para impedir que produza novas chaves cósmicas capazes de abrir portais entre dimensões. A tentativa de salvamento fracassa e, para evitar a captura definitiva, Gwildor aciona uma chave cósmica reserva e transporta o grupo para a Terra. A fuga é apenas temporária. Esqueleto inevitavelmente os seguirá. Na chegada à Terra, a chave cósmica cai nas mãos de Julie Winston (Courteney Cox) e seu namorado Kevin Corrigan (Robert Duncan McNeill).
A opção de trazer personagens intergalácticos para a Terra contemporânea não é, por si só, um problema. ET, de 1982, permanece como o exemplo mais bem sucedido desse recurso. Em Mestres do Universo, porém, fica claro que essa escolha atende sobretudo à busca por identificação imediata com o público e à necessidade de reduzir custos de produção. Essa decisão também impõe ao roteiro a criação de um arco dramático para os personagens terráqueos. Julie, que perdeu os pais em um acidente de avião, vive uma crise existencial e planeja abandonar a cidade rumo a Nova Jersey. No entanto, esse drama íntimo pouco se integra ao conflito principal. O choque entre a tragédia pessoal da personagem e a aventura fantástica produz uma sensação de desencontro que fragiliza a imersão do espectador.
Action figure: a origem no universo de Etérnia
Para entendermos como o longa metragem foi criado de forma tão confusa, é preciso retornar ao ponto inicial desse universo. Mestres do Universo é uma linha de bonecos lançada com grande sucesso pela Mattel em 1982, nos Estados Unidos. Diante do êxito surpreendente nas vendas, a empresa expandiu rapidamente a marca para a televisão, produzindo duas temporadas de uma série animada que não apenas promoveu os brinquedos, mas organizou e aprofundou sua mitologia. Elementos centrais do imaginário da franquia, como a identidade do Príncipe Adam e a dinâmica entre os personagens, foram consolidados pelo desenho, que estruturou um universo coeso a partir de figuras originalmente pensadas como arquétipos isolados.
Além disso, a série incorporou ao final de seus episódios segmentos educativos em que o próprio herói quebrava a quarta parede para falar diretamente com o espectador infantil. Esse momento, em que He Man se dirigia ao seu público mirim para extrair uma lição moral da aventura, reforçava o vínculo afetivo com a criança e conferia à animação uma dimensão pedagógica rara em desenhos de ação. Essa combinação entre expansão narrativa e comunicação direta com o espectador foi decisiva para fixar He Man no imaginário do público.
Quando a obra original é boa, mas o filme é decepcionante
Antes de falarmos de como uma animação tão boa tornou se um filme tão decepcionante, é preciso observar a relação do público brasileiro com He-Man e seus personagens. Os bonecos chegaram ao país sem grande alarde, mas a série animada encontrou o momento ideal para prosperar, quando os programas infantis dominavam as manhãs da televisão. O desenho rapidamente se transformou em fenômeno entre as crianças.
Com o sucesso, o grupo musical Trem da Alegria gravou o que se tornaria o tema não oficial do personagem. A música abria o álbum de estreia com letra dos mestres Michael Sullivan e Paulo Massadas. Enquanto a Estrela lançou a espada de He Man, que virou um dos brinquedos mais desejados de 1986. Ter uma espada passou a ser quase obrigatório no imaginário infantil. Todo esse movimento ocorreu apenas dois anos antes da estreia do filme nos cinemas brasileiros.
Independentemente das pretensões dos realizadores, o público norte americano e o brasileiro chegavam ao longa metragem com expectativas bastante diferentes. Nos Estados Unidos, He Man era um boneco de enorme sucesso lançado cinco anos antes, que havia se expandido para uma boa animação de televisão, mas que em 1987 já dava sinais de desgaste comercial. O filme surgia ali como uma tentativa de revitalizar uma marca que perdera parte de seu fôlego.
A expectativa dos fãs brasileiros era alta
No Brasil, o cenário era oposto. Os personagens estavam no auge da popularidade e a expectativa infantil era elevada. O filme chegou cerca de um ano após a estreia americana, em parte por causa das negociações e do processo de dublagem. O público brasileiro assistiu a Mestres do Universo dublado nos cinemas, mas com vozes diferentes daquelas consagradas pela série de televisão, o que criava uma discreta sensação de estranhamento para quem conhecia intimamente os personagens pela TV.
O resultado foi um fracasso nmundial. Dos US$ 22 milhões investidos, apenas US$ 17 milhões foram arrecadados com venda de ingressos, eliminando qualquer chance de se tornar uma franquia cinematográfica ou até mesmo arriscarem um spin-off com She-Ra, irmã de He-Man que também obteve muito sucesso na telinha.
He-Man sem carisma. Esqueleto perfeito.
A escalação de Dolph Lundgren para o papel de He Man é uma escolha que funciona apenas na superfície. A semelhança física com o personagem é inegável, mas o roteiro exige um nível de interpretação dramática que o ator não consegue sustentar. Vindo de papéis como Ivan Drago em Rocky IV e de outros personagens marcados pela força bruta e pela economia de expressão, Lundgren traz para o filme uma presença rígida, distante do herói carismático, bem humorado e acessível que a animação havia consagrado.
O próprio roteiro parece reconhecer essa limitação e frequentemente desloca o foco dramático para os coadjuvantes. Em várias passagens, personagens como o policial interpretado por James Tolkan e a jovem vivida por Courteney Cox assumem o centro das cenas, explorando conflitos e emoções com mais recursos interpretativos. Esse desequilíbrio acaba expondo a fragilidade do protagonista, que deveria funcionar como eixo emocional da narrativa.
Em contraste absoluto surge Frank Langella como Esqueleto. Mesmo sob pesada maquiagem, o ator constrói uma performance intensa e assumidamente teatral, em sintonia com o tom cartunesco herdado da animação. Cada aparição sua carrega energia e intenção dramática. Langella não apenas interpreta o vilão, ele o encarna com tal convicção que termina por roubar o filme para si, elevando cenas que, no papel, poderiam soar banais.
Efeitos especiais charmosos e maquiagem fiel
Os efeitos especiais de Mestres do Universo funcionam hoje como uma espécie de cápsula do tempo dos anos 1980: datados aos olhos contemporâneos, mas carregados de um charme nostálgico. Eles foram realizados pela Boss Film Studios, também responsável por Aventureiros do Bairro Proibido, empresa fundada por Richard Edlund, ex integrante da Industrial Light & Magic, a ILM de George Lucas.
O figurino e a maquiagem, por sua vez, foram cruciais para traduzir no mundo real aquilo que só conhecíamos no desenho e nos brinquedos. Sob a direção de arte e design de figurinos de Julie Weiss e com uma equipe de maquiagem dedicada, personagens como Esqueleto, Homem-Fera, Feiticeira, entre outros, ganharam formas físicas impressionantes: próteses, armaduras e detalhes que reforçavam suas identidades icônicas.
He-Man de volta aos cinemas
Depois de décadas em que diversas tentativas de trazer os personagens de Mestres do Universo de volta às telas ficaram presas no limbo do desenvolvimento, o projeto finalmente se tornou realidade com uma nova produção prevista para estrear nos cinemas em junho de 2026. Trata se de um reboot que revisita a franquia após anos de rumores, cancelamentos e reformulações, sinalizando uma nova tentativa de consolidar He Man como propriedade cinematográfica duradoura.
A nova premissa reimagina a origem do herói ao trazê lo novamente para a Terra. Adam chega ainda criança ao planeta e cresce distante de Eternia. Cerca de vinte anos depois, ao reencontrar a Espada do Poder, ele retorna ao seu mundo natal para enfrentar Esqueleto, libertar Eternia e compreender melhor o próprio passado, assumindo a figura de um verdadeiro super herói de seu planeta.
Se o novo filme fará jus às nossas boas lembranças ainda é cedo para saber. Enquanto isso, vale revisitar os episódios da animação nos serviços de streaming e reencontrar o universo que marcou uma geração. Já o filme Mestres do Universo de 1987, realizado sem o cuidado que a franquia merecia, talvez funcione melhor como lembrança afetiva do que como experiência de revisão. Em certos casos, a memória preserva melhor o encanto do que a revisitação.
