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Podcast sobre cinema negro chega ao quarto episódio com debate sobre Brasil

O podcast Oferendas Narrativas – Polifonias Negras no Cinema chegou ao quarto de cinco episódios com uma proposta de aproximar do público debates sobre a história, a estética e as formas de construção dos cinemas negros. Produzida pelo Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE), a série reúne as pesquisadoras e curadoras Janaína Oliveira, Kênia Freitas, Janaína Damasceno e Tatiana Carvalho Costa.

Os quatro episódios já disponibilizados percorrem temas como a formação dos cinemas negros, as temporalidades do afrofuturismo, o direito ao olhar e as maneiras de construir uma historiografia dessas produções no Brasil e em outros países.

Série usa o áudio para discutir história e pensamento negro

O conceito de “Oferendas Narrativas” orienta a proposta do podcast. A expressão relaciona a partilha de conhecimento à ideia de oferenda, ou ebó, na tradição iorubá, como um gesto associado à abertura de caminhos para o pensamento.

A série utiliza o formato de áudio como ferramenta de difusão de conhecimento, registro histórico e aproximação entre pesquisas acadêmicas, práticas curatoriais e um público mais amplo.

Em vez de tratar o cinema negro apenas como uma categoria de representação, os episódios discutem também as formas pelas quais cineastas, pesquisadores e curadores negros produzem outras referências, linguagens e possibilidades de interpretação.

Primeiro episódio questiona o que é cinema negro

No episódio “Caminhos abertos dos cinemas negros”, Janaína Oliveira parte da pergunta “o que é cinema negro?” para discutir como esse campo cinematográfico se tornou possível. A pesquisadora recorre a referências do pensamento negro, como Leda Maria Martins, Édouard Glissant e Tina Campt, para abordar imagens e experiências negras a partir de suas próprias perspectivas.

O episódio também recupera momentos da história dos cinemas negros nos Estados Unidos, passando pelos chamados race films e por nomes como William D. Foster, Noble Johnson e Oscar Micheaux. Outro destaque é a trajetória da pesquisadora Pearl Bowser, mencionada pelo trabalho de pesquisa e circulação de filmes que ajudou a ampliar os estudos e a curadoria dos cinemas negros.

cinema negro
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Afrofuturismo aproxima passado, presente e futuro

No segundo episódio, “O Curto-Circuito Temporal do Afrofuturismo”, Kênia Freitas discute como diferentes temporalidades podem ser articuladas a partir das experiências negras. A pesquisadora aborda obras como “Space is the Place” (1974), de John Coney, “O Último Anjo da História” (1995), de John Akomfrah, e “Negrum3” (2018), de Diego Paulino.

Os filmes servem como ponto de partida para discussões sobre memória, tecnologia, ficção especulativa e a possibilidade de imaginar outras experiências negras.

Kênia também apresenta conceitos como fabulação crítica, afrofabulação e imaginação radical, relacionando essas ideias à necessidade de rever repertórios e referências tradicionalmente utilizados na produção e na curadoria cinematográfica.

Fotografia entra no debate sobre o direito ao olhar

O terceiro episódio, “Pelo direito a olhar”, conduzido por Janaína Damasceno, parte da fotografia para discutir a construção das imagens negras. A pesquisadora analisa trabalhos dos fotógrafos Walter Firmo, brasileiro, e Gordon Parks, dos Estados Unidos. Uma fotografia de Clementina de Jesus feita por Firmo, em 1979, é utilizada para refletir sobre beleza, identidade e as possibilidades de pessoas negras se reconhecerem nas imagens.

A discussão apresenta ainda o conceito de afrovisualidades, relacionado à imagem como espaço de disputa, existência e construção de outras maneiras de estar no mundo.

Na segunda parte do episódio, a trajetória de Gordon Parks permite abordar temas como racismo, fotografia e cinema, incluindo registros da segregação racial nos Estados Unidos e o filme “Flávio”, realizado pelo fotógrafo durante sua passagem pelo Brasil, em 1961.

Quarto episódio discute epistemologias negras brasileiras

O episódio mais recente, “Cinemas e Epistemologias Negras Brasileiras”, é conduzido por Tatiana Carvalho Costa e concentra a discussão nas formas tradicionais de analisar o cinema brasileiro.

A pesquisadora utiliza a imagem da Porta do Não Retorno para discutir uma chamada crise epistêmica no cinema e apresenta conceitos como QuilomboCinema e corpo-ficção, em diálogo com autores como Frantz Fanon, Achille Mbembe, Neusa Santos Souza e Leda Maria Martins.

O episódio também aborda o conceito de cativeiro estético, desenvolvido por Cíntia Guedes, e utiliza o filme “República”, de Grace Passô, para discutir a ideia de corpo-ficção e as formas de construção do corpo negro como alteridade e também como possibilidade de invenção de si.

Outro conceito apresentado é o dos filmes radiais, definido na série a partir de obras que incorporam determinadas lógicas de existência em sua própria forma e as transformam em pensamento. A discussão procura deslocar o olhar sobre os cinemas negros para além da representação, destacando a capacidade dessas produções de criar outras gramáticas, poéticas e maneiras de narrar.

Último episódio terá Zózimo Bulbul como referência

A série ainda terá um quinto episódio, intitulado “Um Black-ground para os cinemas negros no Brasil”, novamente com Janaína Oliveira. A proposta é percorrer marcos da presença e das perspectivas negras no cinema brasileiro, com destaque para o cineasta Zózimo Bulbul e sua importância na abertura de caminhos para a produção audiovisual negra no país.

Com cinco episódios, “Oferendas Narrativas” constrói um percurso que passa pela história dos cinemas negros, pelo afrofuturismo, pela fotografia, pela curadoria e pelas formas de produção de conhecimento sobre essas cinematografias.

Eder Pessoa

Primeiro vingador do Cinema e Séries (antigo Cinema e Pipoca) e do Pipocast, sou formado em Jornalismo e também em Locução. Aprendi a ser ‘nerdzinho’ bem moleque, quando não perdia um episódio de Cavaleiros do Zodíaco na TV Manchete ou os clássicos oitentistas na Sessão da Tarde. Além disso, moldei meu caráter não só com os ensinamentos dos pais, mas também com os astros e estrelas da Sétima Arte que me fizeram sonhar, imaginar e crescer. Também sou Redator Freelancer.

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