Críticas

Batman (89) | Rebobina 17

Quando iniciei minhas revisitas aos filmes dos anos 80 para o site Cinema & Séries, já sabia que não demoraria a chegar a Batman (89). Sempre pautei essas escolhas por efemérides, homenagens ou pelo oportunismo crítico que surge com refilmagens e continuações. E é curioso perceber como, desde o seu lançamento, o morcego jamais deixou o imaginário coletivo — ano após ano, ele retorna ao centro do debate. No momento, por exemplo, acompanhamos os movimentos de pré-produção de The Batman – Part II, sequência que dará continuidade à releitura protagonizada por Robert Pattinson. Revisitar o filme de Tim Burton agora, portanto, não é apenas um exercício de nostalgia, mas quase uma inevitabilidade crítica.

Antes de mergulhar no filme em si, é importante entender o momento do Batman naquele final dos anos 80. Criado nas HQs nos anos 40 como um justiceiro movido pelo trauma do assassinato dos pais, o personagem sempre teve uma origem ligada à violência urbana e à obsessão por justiça em Gotham City. Com o passar das décadas, essa essência foi sendo suavizada, culminando na versão televisiva dos anos 60 estrelada por Adam West, que transformou o herói em um ícone pop colorido, marcado pelo humor leve e uma estética deliberadamente exagerada.

Após o impacto de Superman (78), o cinema passou a flertar com o potencial dos super-heróis, mas Batman ainda não figurava entre os favoritos — personagens como Hulk, Homem-Aranha e Mulher-Maravilha, já consolidados na televisão, pareciam apostas mais naturais. Esse cenário muda de forma decisiva com Frank Miller e sua obra graphic novel Batman – O Cavaleiro das Trevas que resgata o lado sombrio, psicológico e urbano do personagem. Mais do que uma reinvenção nos quadrinhos, ali surgia uma abordagem estética e narrativa que parecia pronta para o cinema, abrindo caminho para a leitura que se consolidaria dois anos depois.

Tim Burton: um diretor Gótico para um pesadelo urbano

A escolha para orquestrar essa chegada do Batman aos cinemas, hoje, parece quase inevitável: Tim Burton. À época, no entanto, tratava-se de uma aposta que misturava coerência estética e certo risco. Burton vinha de uma trajetória marcada por curtas de forte identidade visual, carregados de um imaginário gótico e excêntrico, e havia levado parte dessa sensibilidade para o cinema com Os Fantasmas se Divertem. Ainda que o filme flertasse com o sombrio, seu tom era essencialmente cômico, o que levantava dúvidas sobre como aquele olhar se traduziria em uma adaptação de super-herói que, naquele momento, buscava resgatar densidade.

As incertezas não paravam na direção. A escalação de Michael Keaton para o papel principal gerou forte resistência: conhecido por papéis cômicos, inclusive no próprio Os Fantasmas se Divertem, o ator parecia, para muitos, uma escolha desalinhada tanto fisicamente quanto em termos de presença dramática. Para completar, a notícia de que Prince assinaria a trilha sonora soava, aos ouvidos de parte dos fãs — especialmente aqueles influenciados pela abordagem sombria de Frank Miller — como um desvio quase irreconciliável de tom. No entanto, esse conjunto de desconfianças acabaria se dissolvendo com a estreia de Batman (89), que não apenas respondeu às expectativas, mas redefiniu o que se imaginava possível para o personagem no cinema.

Batman (89)
Batman (89)

A abertura de Batman (89) que já diz tudo

Os créditos iniciais de Batman (89) já estabelecem o tom com precisão quase hipnótica: sobre uma tela negra, a câmera percorre um espaço abstrato em um traveling sinuoso até revelar, de forma gradual, a insígnia do herói em uma leitura completamente sombria, distante do imaginário colorido das décadas anteriores. A trilha de Danny Elfman, claramente influenciada pelo modelo sinfônico de John Williams em Superman, assume aqui um caráter mais marcial, sugerindo combate e tensão contínua — uma base que definiria o cinema de super-heróis até Batman Begins — antes de nos conduzir ao skyline noturno de Gotham City, que já surge ao som de sirenes da policia.

Uma das boas sacadas do roteiro se revela já na primeira cena, que brinca com a expectativa do espectador com certa malícia narrativa a cerca do assassinato dos Wayne. Burton subverte essa expectativa com elegância. Entretanto, como veremos ao longo de todo o filme, esse mesmo roteiro é um misto de bons diálogos, um equilíbrio qualitativo no desenvolvimento de cenas e um direcionamento que quase estragou toda a experiência da estreia de Batman nos cinemas.

O Medo como método

A primeira aparição do Batman reforça essa proposta com uma carga estética singularmente gótica, talvez mais acentuada do que em qualquer encarnação posterior. Sempre emergindo das sombras, com movimentos contidos e quase ritualísticos, sua silhueta de asas abertas evoca mais a figura de um vampiro do que a de um herói tradicional. Ao abordar os criminosos, distribui alguns golpes, apresenta seus apetrechos e sentencia logo na primeira luta: “Sou o Batman. Vão e conte aos seus amigos”. Não há execução, nem qualquer tentativa de prisão — apenas a imposição do medo como estratégia de controle. Nesse gesto, o filme explicita a lógica inicial do personagem: instaurar o terror como linguagem, ainda que já se insinue, nas entrelinhas, a limitação desse método diante da complexidade da criminalidade de Gotham. Entretanto, ele enfrentará em futuro breve um contraventor muito mais perigoso.

Tim Burton acerta em quase tudo ao consolidar essa Gotham gótica e noir, mas sua escolha para o desenvolvimento do vilão não passou incólume. Jack Nicholson, já consagrado como um dos grandes nomes do cinema em 1989, surge inicialmente como um gangster de médio escalão, um Jack ainda distante da mitologia mais elaborada dos quadrinhos. Mesmo com a posterior transformação no Coringa e sua natural personificação psicótica, sua construção permanece ancorada nesse arquétipo mais terreno, quase como apenas mais um criminoso excêntrico dentro daquele ecossistema urbano — o que destoa da dimensão caótica e simbólica que o personagem ganharia em outras leituras.

Jack Nicholson e Coringa grandes demais para o filme?

Além disso, o roteiro optou por estreitar as relações entre Batman e Coringa, além do que conhecemos dos quadrinhos, soando forçado e desnecessário, pois não há aprofundamento que sustente. Some a isso, o peso de Nicholson é tamanho que seu nome aparece antes do próprio Michael Keaton nos créditos, evidenciando uma centralidade que, em certos momentos, desequilibra o filme. Anos depois, interpretações como as de Heath Ledger e Joaquin Phoenix mostrariam o quanto ainda havia espaço para expandir — e aprofundar — essa primeira encarnação cinematográfica do vilão.

Há ainda o pano de fundo político de Gotham, frequentemente apontado como um dos elementos menos envolventes do universo Batman — quase como acontece em Star Wars para parte do público — mas que se revela essencial para sustentar o caos instaurado na cidade. A corrupção estrutural do departamento de polícia, somada à relevância de figuras como o promotor público (Billy Dee Williams) e o comissário, cria uma dinâmica de poder em que essas instituições parecem mais determinantes do que o próprio prefeito. Essa equação fragiliza o tecido social, sugerindo uma cidade onde o crime não apenas prospera, mas se torna um caminho tentador, enquanto a ação de um milionário traumatizado deixa de soar absurda e passa a operar quase como uma resposta possível.

Um respiro em meio ao caos

O respiro vem na festa da Mansão Wayne, onde o filme suaviza momentaneamente seu tom opressivo. A introdução de Alexander Knox como alívio cômico se revela um acerto, especialmente por tratar a imprensa com uma leveza pouco comum no cinema, pena que ele tem sua participação resumida. Kim Basinger compõe uma Vicki Vale deslumbrante, equilibrando beleza e sagacidade com naturalidade, enquanto Michael Gough, com sua presença quase bela-lugosiana, encaixa-se com precisão como o Alfred ideal — mais do que um mordomo, uma figura paterna silenciosa que ancora emocionalmente Bruce Wayne.

A força do protagonismo de James Gordon na mitologia de Gotham aqui acaba desperdiçada ao apresentar um personagem já envelhecido em contraste com o próprio Batman. Essa escolha dificulta a construção de uma dinâmica mais ativa entre os dois e sugere um Gordon que, embora bem-intencionado, carrega a sensação de ineficácia — como se sua permanência no cargo fosse mais resistência do que competência. O resultado é um personagem que parece querer fazer o certo, mas que já não inspira a confiança necessária para liderar essa mudança. Curiosamente, essa limitação se tornaria ainda mais evidente com o tempo, sobretudo quando a figura do comissário ganharia camadas muito mais robustas em releituras posteriores, como na abordagem de Christopher Nolan.

Batman (89)
Batman (89)

Michael Keaton sempre foi a opção de Tim Burton

A escolha de Michael Keaton sempre dividiu opiniões, mas a questão central talvez nunca tenha sido o Batman — e sim Bruce Wayne. Afinal, sob a armadura, o herói exige presença física e economia de gestos; é fora dela que o personagem realmente se constrói. Ao optar por um Wayne mais afável, quase deslocado, que encena a figura do milionário despreocupado como uma máscara social, o roteiro encontra em Keaton um encaixe preciso. Seu ar ligeiramente inseguro humaniza o personagem e cria um contraste interessante com versões posteriores que apostariam no arquétipo do galã ou do playboy arrogante — algumas tão comprometidas com essa fachada que acabam confundindo o disfarce com a essência.

Alguns discursos que tentam justificar as motivações do Coringa — como a obsessão pela beleza plástica ou a ganância capitalista — surgem de forma superficial, quase como pretextos frágeis para sustentar seus atos de violência, frequentemente interrompidos pela ação do Batman (89). Historicamente, o Coringa não necessita de motivações claras para matar, e é justamente essa imprevisibilidade que o torna tão ameaçador dentro de Gotham City.

Nesse sentido, a tentativa do roteiro de estabelecer uma relação mais íntima de amor e ódio entre ele e o herói não encontra o devido desenvolvimento, prejudicada pelo pouco tempo dedicado a essa construção. O conflito acaba diluído entre a busca por poder do vilão e a disputa pelo afeto de Vicki Vale, o que enfraquece o impacto dramático dessa dualidade — possivelmente um dos pontos mais frágeis do longa.

Prince estraga a festa

Não há como ignorar o quanto a trilha de Prince soa deslocada dentro da proposta do filme. Em diversos momentos, suas músicas surgem de forma estranha, quase invasiva, associadas ao Coringa — a ponto de o personagem carregar um capanga com uma boombox, espalhando o som por onde passa. Não se trata de questionar a qualidade do trabalho de Prince, um gênio cuja sonoridade funcionava perfeitamente no contexto das rádios da época, ainda que sem um grande hit duradouro vindo daqui. O problema é outro: essa camada musical acaba datando o filme. Em contraste com todo o esforço de Tim Burton em construir uma estética atemporal, o synth-funk introduz um carimbo muito específico de período — e, pior, seus arranjos envelheceram de forma pouco generosa, comprometendo a experiência em revisitas.

O grande acerto do filme está em seu design de produção, responsável por dar a Gotham City uma identidade única e imediatamente reconhecível. Longe de parecer uma metrópole futurista genérica ou uma versão estilizada de Nova York, a cidade existe como um organismo próprio, moldado por arquitetura opressiva e uma atmosfera constantemente enevoada — percepção reforçada pela presença do próprio Batman. Seu batmóvel e sua batnave cruzam ruas estreitas e sombrias, ora engolidas por becos, ora abertas em vias que conduzem a espaços quase míticos, como a Mansão Wayne e a catedral repleta de gargoles, ajudam a consolidar essa Gotham como um personagem vivo e visualmente único.

A ação raiz com tiros, perseguições e explosões

A ação, como todo o restante do filme, surge em um crescendo paciente, quase calculado. Filha de uma época em que perseguições e explosões eram essencialmente práticas, ela carrega hoje um valor nostálgico que se traduz em peso e fisicalidade — algo que ainda se sustenta com vigor. Os tiroteios, por sua vez, evocam um ar noir que se encaixa com naturalidade na estética proposta por Tim Burton. Mesmo o uso pontual de efeito digital — como a icônica blindagem do batmóvel acionada por voz — é empregado com inteligência e sutilmente, preservando a imersão. O mesmo vale para as sequências com a aeronave do herói, que, inseridas na noite densa de Gotham, mantêm a verossimilhança e não comprometem a experiência visual, mesmo sob o olhar dos dias de hoje.

Batman: o legado nos cinemas

No fim, Batman permanece como uma obra de equilíbrio curioso entre acertos marcantes e limitações evidentes, mas cujo impacto é impossível de ignorar. Ao resgatar o tom sombrio do personagem e inseri-lo em uma Gotham com identidade própria, Tim Burton não apenas redefiniu o herói no cinema, como também pavimentou o caminho para tudo que viria depois dentro do gênero.

O próprio Burton ainda retornaria em 1992 com Batman, O Retorno (92), antes da guinada estética comandada por Joel Schumacher em Batman Forever (95) e Batman & Robin (97), ambos vividos por George Clooney.

Um novo ciclo surgiria com a abordagem mais realista e celebrada de Christopher Nolan, na trilogia formada por Batman Begins (05), O Cavaleiro das Trevas (08) e O Cavaleiro das Trevas Ressurge (12), desta vez com Christian Bale. O personagem ainda ganharia nova encarnação com Ben Affleck, no universo compartilhado da DC, aparecendo em Batman vs Superman (16), A Liga da Justiça (17) – além da versão de Zack Snyder do mesmo filme, participações em Esquadrão Suicida (16) e The Flash (23). Mais recentemente, o herói ganhou uma nova leitura em The Batman (22) com Robert Pattinson, que já prepara sua continuidade. Se há algo que o filme de 1989 deixou claro, é que Batman não pertence a uma época — ele se reinventa com ela.

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