Críticas

A Dama de Vermelho (84) | Rebobina 22

Esta semana, mais precisamente no dia 1º de junho, Marilyn Monroe completaria 100 anos. Um século de vida daquela que talvez seja o maior ícone feminino da cultura pop do século XX. A atriz nos deixou precocemente aos 36 anos, em 1962, mas sua imagem atravessou gerações e continua presente no imaginário popular. Algumas cinebiografias sobre sua vida chegaram aos cinemas neste século, mas para o Rebobina eu queria buscar algo genuinamente oitentista. E, para dizer a verdade, não é difícil encontrar sua influência e inspiração. Madonna, por exemplo, inspirou-se nela para o clipe de Material Girl em 1984. A versão ao vivo de Candle in the Wind, homenagem de Elton John a Marilyn, voltou às paradas mundiais em 1988. Inclusive ela foi uma das inspirações dos garotos de Mulher Nota 1000 para criar Lisa, personagem vivida por Kelly LeBrock em 1985.

Outra inspiração ainda mais interessante que também envolve Kelly Le Brock com mais camadas me veio à mente nessa busca. Uma das imagens mais famosas da história do cinema mostra Marilyn tentando segurar o vestido branco enquanto uma corrente de ar vinda do metrô o levanta diante dos fotógrafos. Trinta anos depois, a mesma Kelly LeBrock recriaria aquele momento em A Dama de Vermelho. É naquele instante que Teddy Pierce, personagem de Gene Wilder, se apaixona instantaneamente pela misteriosa mulher de vermelho. A cena não é apenas uma homenagem a Marilyn Monroe. Ela é a força propulsora de todo o roteiro. E é justamente essa deliciosa comédia romântica que revisitaremos hoje.

A Dama de Vemelho e a fantasia masculina

Aliás, muito mais do que uma simples comédia romântica, vale lembrar que em 1984 ainda não existia o modelo de romance adulto que seria popularizado por Harry & Sally alguns anos depois. O que encontramos aqui é um retrato bastante característico do homem de classe média daquela época: maduro, casado, profissionalmente estável e ainda confortável em alimentar fantasias e flertes sem carregar grandes dilemas morais por isso. Antes da ascensão definitiva da cultura yuppie no final da década, Teddy Pierce representa um sujeito comum cuja rotina organizada é abalada pela aparição de uma mulher que parece existir apenas no campo do desejo. Não por acaso, a modelo Kelly LeBrock, que estreia aqui, estamparia as páginas da Playboy em 1985, logo após os sucessos consecutivos de A Dama de Vermelho e Mulher Nota 1000, consolidando-se como um dos maiores símbolos sexuais dos anos 80 e reforçando exatamente a fantasia masculina idealizada que o filme explora.

Com a tela tomada pelo vermelho e, em seguida, por imagens da cidade de São Francisco, os créditos iniciais passam ao som de It’s You, dueto entre Stevie Wonder e Dionne Warwick que fez enorme sucesso no Brasil e até hoje aparece com frequência em programações de rádios dedicadas a flashbacks adultos. Aliás, a trilha sonora de A Dama de Vermelho foi um fenômeno por si só. Além de It’s You, Stevie emplacou mais dois sucessos ligados ao filme: Love Light in Flight e principalmente I Just Called to Say I Love You, que se transformou numa das canções mais populares de toda a década. A faixa recebeu indicações ao Grammy, venceu o Oscar e Globo de Ouro de Melhor Canção Original e ainda ganharia uma versão de enorme sucesso no Brasil com Gilberto Gil, rebatizada como Eu Só Chamei Porque Te Amo. A música acabou se tornando tão grande que, para muita gente, sobreviveu ao próprio filme.

Gene Wilder: diretor, roteirista e protagonista

Gene Wilder não apenas protagoniza A Dama de Vermelho, como também assina a direção e o roteiro deste remake da comédia francesa O Doce Perfume do Adultério (1976). Naquele 1984, Wilder já possuía uma carreira consolidada de quase duas décadas em Hollywood, tendo participado de sucessos como Primavera Para Hitler (1967), A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971) e O Jovem Frankenstein (1974), este último também escrito por ele em parceria com Mel Brooks. A Dama de Vermelho marcava sua terceira experiência na direção de longas-metragens e o quinto roteiro de sua carreira. Embora nunca tenha sido especialmente celebrado atrás das câmeras, Wilder demonstrava aqui um entendimento bastante claro do tipo de humor romântico e constrangedor que pretendia explorar, apoiando-se principalmente em sua enorme experiência como ator cômico.

E é com Teddy em pé no parapeito de um quarto de hotel, prestes a despencar vários andares, que começamos de verdade o filme. A trama, narrada pelo próprio personagem, acompanha aproximadamente um mês de sua vida. Casado, pai de família e aparentemente satisfeito com a rotina, Teddy faz questão de afirmar que jamais teve uma aventura extraconjugal. Tudo muda numa manhã comum de trabalho. Ao estacionar o carro, ele testemunha a cena que mencionei anteriormente: Charlotte passa sobre um duto de ventilação e tem seu vestido levantado pelo vento.

Aliás, muito mais do que na clássica imagem de Marilyn Monroe que inspirou a sequência. Teddy observa tudo com um sorriso quase infantil, encantado pela coincidência. Só que o inesperado acontece. Charlotte retorna ao local e, ao som da canção título do filme, transforma aquele instante numa pequena performance improvisada. É um dos momentos mais memoráveis do cinema popular dos anos 80. Para Teddy, basta. A partir dali, ele fica completamente obcecado pela misteriosa mulher de vermelho.

A Dama de Vermelho
A Dama de Vermelho

A Dama de Vermelho é uma comédia, menos romântica do que parece

É importante avisar a quem nunca viu A Dama de Vermelho que, antes de qualquer coisa, trata-se de uma comédia. Aliás, o termo “comédia romântica” ainda não era utilizado com a naturalidade que ganharia nos anos seguintes. Por isso, o foco da trama é constantemente interrompido por situações cômicas, mal-entendidos e piadas típicas dos anos 80, quase sempre carregadas de certa malícia. E disso Gene Wilder entendia como poucos. O romance existe, mas raramente é tratado de forma direta por muito tempo sem que alguma gag apareça para quebrar a tensão. É um tipo de filme cada vez mais raro hoje em dia, em que as risadas servem para distrair o espectador enquanto o roteiro avança aos poucos na história principal, equilibrando desejo, constrangimento e humor numa proporção bastante particular daquela época.

Entretanto, visto hoje, A Dama de Vermelho revela uma visão bastante peculiar sobre relacionamentos e beleza. O roteiro parece organizar suas personagens femininas em categorias muito bem definidas. De um lado estão as mulheres estonteantes, apresentadas quase como objetos de desejo destinados a homens maduros e bem-sucedidos. Em outro, as esposas bonitas na faixa dos trinta anos, dedicadas à casa e aos filhos, que supostamente deveriam se sentir realizadas apenas por terem constituído uma família. Por fim, surgem as solteironas, tratadas como figuras excêntricas e quase invisíveis socialmente, a ponto de se surpreenderem quando recebem um simples convite para jantar.

Essa visão fica evidente numa das piadas recorrentes do filme, quando Teddy, por engano, convida a senhorita Milner para sair. O próprio fato de ela ser constantemente chamada de “senhorita” já faz parte da construção da personagem. Interpretada por Gilda Radner, integrante do elenco original do Saturday Night Live, Milner se torna alvo de uma sequência de situações constrangedoras justamente porque o roteiro parte do pressuposto de que ninguém a enxergaria como uma possibilidade romântica.

Curiosamente, Radner se casaria com Gene Wilder no ano seguinte e morreria precocemente em 1989, vítima de câncer de ovário. Revendo o filme hoje, chama atenção como o texto raramente questiona a aparência ou o envelhecimento dos homens. Teddy e seus amigos jamais precisam justificar sua atratividade. Basta que sejam profissionais bem-sucedidos. Já as mulheres são constantemente avaliadas, classificadas e posicionadas numa espécie de escala de desejo que diz muito sobre a mentalidade de uma parcela do cinema americano dos anos 80.

A Dama de Vemelho é sobre traição conjugal

Entretanto, o roteiro está longe de simplesmente celebrar esse machismo. Pelo contrário, em diversos momentos parece criticá-lo. Um dos amigos de Teddy vive se gabando das traições que comete, tratando a infidelidade como prova de masculinidade e sucesso. Mas basta ser abandonado pela esposa quando ela descobre a verdade para que toda sua autoconfiança desapareça e dê lugar ao ressentimento. Ao mesmo tempo, Didi, vivida por Judith Ivey, é retratada como uma esposa exemplar, carinhosa, inteligente e dedicada à família. Cada novo passo de Teddy em direção a Charlotte reforça uma ideia curiosa: o problema não está apenas no risco de destruir seu casamento, mas no fato de que Didi não fez absolutamente nada para merecer aquilo, pelo menos que ele saiba.

Aliás, o filme é mais cuidadoso com Charlotte do que se poderia imaginar. Embora seja constantemente colocada no papel de objeto de desejo, suas primeiras reações às investidas de Teddy são sempre de evidente desinteresse. A cada encontro, seu olhar parece dizer algo próximo de “lá vem mais um sujeito achando que pode me impressionar”. Charlotte reconhece imediatamente o padrão de comportamento daquele homem casado que acredita estar vivendo uma grande paixão quando, para ela, ele é apenas mais um desconhecido insistente. É justamente esse contraste que impede A Dama de Vermelho de se transformar numa fantasia masculina completamente sem contrapontos.

Apesar de todas essas conjecturas que fazemos hoje ao analisar a estrutura machista daquela metade dos anos 80, A Dama de Vermelho é, na verdade, muito mais um filme sobre infidelidade matrimonial do que sobre conquista amorosa. O próprio título brasileiro do longa francês que lhe deu origem, O Doce Perfume do Adultério, deixa isso bastante claro. Quem chega esperando uma história centrada no romance entre Teddy e Charlotte talvez se surpreenda ao descobrir que Kelly LeBrock aparece muito menos em cena do que a memória popular faz parecer.

O verdadeiro foco do filme está nas situações, mentiras, desencontros e constrangimentos gerados pela tentativa de Teddy de alimentar uma fantasia sem destruir a vida que construiu. É justamente aí que o roteiro encontra sua melhor fonte de humor. As maiores gargalhadas não surgem dos encontros com Charlotte, mas das consequências cada vez mais absurdas provocadas pela possibilidade da traição. Isso joga muito a favor do filme como comédia, embora possa desapontar quem espera um romance mais tradicional.

Aliás, novas camadas envolvendo o adultério são acrescentadas de forma bastante inteligente ao longo da projeção, mantendo o interesse do espectador mesmo quando a trama principal parece andar em círculos. Cada mentira contada por Teddy gera uma nova complicação, que por sua vez exige outra mentira ainda maior, criando um efeito cascata típico das melhores comédias de situação. Por outro lado, o roteiro frequentemente minimiza as consequências emocionais da traição, tratando-as de acordo com a necessidade de cada piada.

A confiança entre marido e mulher raramente é discutida de forma profunda. O que está em jogo é muito mais a preservação da família como instituição do que os sentimentos envolvidos naquela relação. Mas talvez seja injusto cobrar mais do filme nesse aspecto. Afinal, estamos diante de uma comédia, não de um drama matrimonial. O objetivo principal nunca é refletir sobre as feridas causadas pela infidelidade, mas criar situações cada vez mais constrangedoras e engraçadas a partir dela. E disso A Dama de Vermelho está repleta.

O filme acabou se tornando o último grande sucesso de Gene Wilder nos cinemas. Ele nos deixou em 2016, aos 83 anos. Aliás, a partir da década de 90 passaria a dedicar mais tempo ao teatro e à televisão. Hoje, A Dama de Vermelho é lembrado principalmente por sua excelente trilha sonora, pela presença magnética de Kelly LeBrock que interpreta uma mulher segura e muito bem sucedida – não muito diferente de como lembramos de Marilyn Monroe – e por registrar um tipo de comédia que praticamente desapareceu das telas. O típico filme perfeito para a Sessão da Tarde numa época em que o cinema não tinha vergonha de ser apenas divertido.

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