O filme 40 Acres chegou recentemente ao catálogo da Netflix e já está entre os mais vistos da plataforma. Dirigido e roteirizado por R. T. Thorne, conhecido por trabalhos em séries como Utopia Falls e Detetive Alex Cross, o longa marca sua estreia no cinema com uma proposta ambiciosa: combinar drama familiar, tensão pós-apocalíptica e crítica social em uma única narrativa. Ainda que irregular, o resultado chama atenção.
A trama opta por um recorte intimista ao invés de apresentar um panorama amplo do colapso mundial. Ao focar em uma família negra tentando sobreviver em um mundo devastado por uma pandemia fúngica que dizimou mais de 90% da vida na Terra, 40 Acres encontra seu principal diferencial. Essa escolha narrativa não é exatamente inédita, mas ganha frescor ao ser atravessada por questões raciais e simbólicas. A construção dos antagonistas — canibais majoritariamente brancos — sugere uma crítica social que não é verbalizada, mas está presente nas entrelinhas.
O elenco, formado por nomes pouco conhecidos, entrega performances consistentes. Danielle Deadwyler se destaca como a protagonista, trazendo densidade emocional e liderança para a narrativa, enquanto Milcania Diaz-Rojas tem sensibilidade em cena. No entanto, nem todos os personagens são bem desenvolvidos. O caso mais evidente é o de Emanuel, interpretado por Kataem O’Connor, cuja ingenuidade exagerada compromete essa tensão natural. Em um cenário tão brutal, suas atitudes soam artificiais e pouco coerentes , quebrando a imersão em momentos-chave.
40 Acres vale a pena tecnicamente
O trabalho do diretor de arte Peter Cosco e do diretor de fotografia Jeremy Benning contribui para essa ambientação. A sensação de desolação é construída com eficiência por meio de planos abertos de paisagens vazias, florestas silenciosas e interiores escuros, quase claustrofóbicos. A ausência de luz e a paleta de cores mais fria reforçam o clima de decadência e abandono.
Entretanto, o roteiro não mantém o mesmo nível de consistência. A premissa da escassez — elemento central em narrativas pós-apocalípticas — é tratada de forma irregular. Em alguns momentos, a falta de recursos é palpável e angustiante; em outros, parece simplesmente desaparecer para dar lugar a sequências de ação. E é justamente na ação que o filme encontra outro ponto forte: as cenas são bem coreografadas, tensas e dinâmicas, elevando o ritmo e mantendo o espectador engajado.
O universo apresentado — com terras agrícolas se tornando o bem mais valioso após uma catástrofe global — oferece inúmeras possibilidades narrativas, mas 40 Acres opta por caminhos mais previsíveis. Falta um refinamento maior no roteiro para explorar plenamente esse mundo e suas implicações. Em vez disso, a história recorre a soluções já conhecidas do gênero, o que limita seu impacto.
Base interessante, mas sem sustentação
A sensação final é de uma obra que começa com força, constrói uma base interessante, mas não consegue sustentar o mesmo nível até o desfecho. No fim das contas, trata-se de uma obra que vale a atenção — principalmente para quem busca algo com um olhar diferente dentro do gênero pós-apocalíptico —, mas que também evidencia as limitações de um diretor em sua estreia no formato de longa-metragem. Se por um lado há identidade e boas intenções, por outro falta lapidação. E é justamente nesse contraste que 40 Acres se posiciona: entre o promissor e o apenas mediano.
Onde assistir 40 Acres?
Sinopse de 40 Acres
Em um futuro pós-apocalíptico onde a comida é escassa, os últimos descendentes de uma família negra de fazendeiros que se estabeleceu no Canadá após a Guerra Civil Americana devem proteger sua propriedade de um bando de canibais famintos.
Nota: ★★★½
Título Original: 40 Acres
Ano Lançamento: 2025 (Canadá)
Dir.: R. T. Thorne
Elenco: Danielle Deadwyler, Kataem O’Connor, Michael Greyeyes, Milcania Diaz-Rojas, Leenah Robinson, Jaeda LeBlanc, Haile Amare, Elizabeth Saunders, Tyrone Benskin, Mimi Côté
Curiosidades de 40 Acres
- Essa é a estreia como roteirista de longa-metragem de R.T. Thorne.
- O filme rodou por diversos festivais mundo afora, dentre eles o Festival de Toronto.
- Embora a distribuidora canadense Mongrel Media tenha dado a este filme um lançamento muito mais amplo do que é comum para projetos daquele país, eles investiram muito pouco no marketing por lá. Como resultado, 40 Acres foi mal nas bilheterias e durou apenas duas semanas.
Entre no canal do Cinema e Séries para ficar por dentro de todas as novidades!
Acesse AQUI ou escaneie o QR Code abaixo:
