Pinóquio – Maldição de Madeira: apesar da trasheira, diretor ainda tropeça em suas próprias limitações

Transformar personagens infantis conhecidos em criaturas assassinas parece ter se tornado uma especialidade de Rhys Frake-Waterfield. Depois de levar o Ursinho Pooh para um caminho bastante sangrento, o cineasta retorna com Pinóquio – Maldição de Madeira, uma releitura macabra do clássico personagem criado por Carlo Collodi.

A proposta é simples: abandonar a imagem do boneco inocente que deseja se tornar um menino de verdade e apresentar uma criatura perigosa, capaz de espalhar violência por onde passa. E, considerando o histórico do diretor, existe pelo menos uma evolução perceptível, especialmente quando falamos dos efeitos práticos e da construção visual do protagonista.

Qual a história de Pinóquio – Maldição de Madeira?

O filme acompanha uma nova versão da história de Pinóquio, agora inserida em um contexto de terror no qual o boneco de madeira representa uma ameaça para aqueles que cruzam seu caminho. Gepeto, interpretado por Richard Brake, está diretamente envolvido nos acontecimentos e tenta lidar com as consequências de sua criação, enquanto um grupo de crianças precisa enfrentar a violência provocada pela criatura.

Pinóquio – Maldição de Madeira

Os animatrônicos são o ponto alto por aqui!

Uma das melhores decisões da produção está na utilização de animatrônicos para dar vida ao boneco. Ao contrário de outras produções que dependem excessivamente de efeitos digitais pouco convincentes, Pinóquio – Maldição de Madeira encontra nos efeitos práticos uma maneira interessante de construir seu antagonista.

A aparência de madeira, os movimentos mecânicos e as expressões da criatura combinam perfeitamente com a proposta de apresentar uma versão assassina do personagem. É um recurso que ajuda a conferir personalidade ao vilão e, principalmente, torna os momentos de violência visualmente mais interessantes.

Aliás, o gore não economiza esforços. Rhys Frake-Waterfield parece compreender que boa parte do público interessado nesse tipo de produção está atrás justamente de mortes exageradas, sangue e situações que ultrapassem os limites do bom gosto.

Nesse aspecto, o filme entrega o que promete, embora nem sempre consiga transformar a violência em momentos realmente impactantes. Existe uma diferença entre mostrar muito sangue e construir uma sequência capaz de provocar alguma reação no espectador, e essa é uma das limitações que acompanham a produção.

Um estudo de personagem… ou quase isso!

Curiosamente, existe uma possibilidade de interpretação mais interessante envolvendo o próprio Pinóquio. Afinal, estamos diante de uma criatura que acabou de nascer e precisa compreender o funcionamento de um mundo repleto de regras, contradições e nuances.

O boneco está descobrindo o que significa existir, como as pessoas se comportam e quais são os limites entre certo e errado. Em outra produção, essa poderia ser a base para uma discussão interessante sobre inocência, aprendizado e violência, especialmente quando uma criatura sem referências morais tenta compreender uma sociedade que também está longe de ser um exemplo de virtude.

Talvez essa leitura seja mais profunda do que o próprio filme pretende oferecer, mas é difícil não enxergar algum potencial nessa ideia. O problema é que o roteiro não demonstra interesse em desenvolver essas possibilidades. Os personagens são apresentados de maneira superficial, os conflitos não ganham profundidade e a narrativa parece muito mais preocupada em chegar à próxima sequência de violência do que em construir uma história capaz de sustentar seus acontecimentos.

O Gepeto de Richard Brake traz referências àquele personagem que você conhece

Gepeto, interpretado pelo eterno coadjuvante Richard Brake, é um dos poucos personagens que recebem alguma tentativa de desenvolvimento. Seu relacionamento com o boneco apresenta a figura de alguém que deseja ajudar sua criação, mas falha ao lidar com aquilo que colocou no mundo.

Brake tenta extrair o máximo possível de um material limitado. Seus diálogos, entretanto, são excessivamente expositivos e pouco criativos, fazendo com que o personagem precise explicar situações que poderiam ser desenvolvidas de maneira muito mais natural.

Os adolescentes também cruzam o caminho de Pinóquio!

Os adolescentes que cruzam o caminho de Pinóquio também não ajudam. São figuras bastante estereotipadas, construídas a partir de comportamentos e características que parecem retirados de um manual de personagens descartáveis do cinema de terror.

A garota loira, por exemplo, precisa aparecer exibindo seus atributos físicos antes de se tornar mais uma vítima da criatura. Em determinado momento, temos até um ataque dentro de uma piscina, acompanhado de uma evidente referência a Tubarão. É aquele tipo de homenagem que o espectador identifica imediatamente, mas que não acrescenta muita coisa além de reforçar a familiaridade com outras produções do gênero.

Enquanto os adolescentes servem basicamente como combustível para a matança, o trio de crianças assume uma posição mais próxima da dos heróis. São elas que precisam lidar com a chacina e encontrar uma maneira de sobreviver à ameaça representada pelo boneco.

A dinâmica poderia funcionar como um contraponto interessante à violência, mas a falta de desenvolvimento dos personagens impede que exista um envolvimento emocional mais significativo. Sabemos quem precisa escapar, quem representa uma ameaça e quem provavelmente será a próxima vítima, mas raramente sentimos que existe algo realmente importante em jogo.

Outro problema está na maneira como o filme estabelece a força e as habilidades de Pinóquio. Em diversos momentos, o impacto dos ataques não parece completamente convincente, seja pela execução das cenas ou pela ausência de uma lógica consistente sobre as capacidades físicas do boneco.

Afinal, estamos falando de uma criatura de madeira que deveria apresentar determinadas limitações. Quando ela demonstra uma força aparentemente desproporcional, fica difícil não questionar o funcionamento daquele universo. Não é necessário transformar um filme de terror em uma aula de física, mas estabelecer regras mínimas para o próprio monstro ajudaria bastante.

Pinóquio – Maldição de Madeira evolui o que Ursinho Pooh começou

No fim, Pinóquio – Maldição de Madeira é uma produção que consegue encontrar algum valor na própria proposta, principalmente pela utilização dos animatrônicos e pela caracterização do protagonista.

Se considerarmos que Rhys Frake-Waterfield também comandou Ursinho Pooh – Sangue e Mel, é possível reconhecer uma evolução, ao menos no aspecto visual. Mas ainda falta ao cineasta compreender que transformar personagens infantis em assassinos não é suficiente para construir um bom filme de terror.

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