E se a imortalidade fosse possível, mas o preço a pagar fosse perder, aos poucos, as próprias lembranças? E se, depois de viver por décadas ou até séculos, você pudesse (ou não) decidir que chegou a hora de partir? Essas são algumas das questões levantadas por Cartório das Almas, longa-metragem dirigido por Leo Bello que aposta na ficção científica para discutir temas profundamente humanos. Com Gabriela Correa, Wellington Abreu e Chico Sant’Anna no elenco, o filme, que chega aos cinemas em 29 de outubro e tem distribuição da Pandoras Filmes, constrói um universo peculiar, melancólico e repleto de questionamentos sobre a existência, o livre-arbítrio e a maneira como lidamos com a nossa finitude.
Qual a história de Cartório das Almas?
A trama acompanha Laura, uma jovem de 126 anos que consegue emprego no Cartório das Almas, instituição responsável por registrar os motivos daqueles que decidem abrir mão da imortalidade. Sua função é ouvir os clientes, compreender suas razões e documentar suas escolhas, sem jamais tentar convencê-los a mudar de ideia.
Existe, porém, uma ironia cruel nessa rotina: enquanto Laura acompanha diariamente pessoas que desejam encerrar sua existência eterna, ela própria está proibida de fazer o mesmo. Presa a um contrato que a condena a viver para sempre, a personagem precisa lidar com a perspectiva de um futuro marcado pela solidão e pelo desaparecimento gradual de tudo aquilo que um dia conheceu.
Questões filosóficas que vão além do óbvio
A premissa é bastante interessante justamente porque transforma uma questão filosófica em uma situação concreta. A imortalidade, frequentemente retratada no cinema como um poder desejável, ganha aqui contornos muito menos atraentes. Afinal, de que adianta viver eternamente quando as pessoas ao seu redor desaparecem, as lembranças se apagam e o mundo se transforma inúmeras vezes? Aqui, a vida ilimitada não representa necessariamente uma bênção. Pelo contrário, pode se tornar uma prisão da qual nem todos possuem autorização para escapar.
Dirigido por Leo Bello, o longa também se destaca pela maneira como constrói seu universo sem depender de grandes cenários, efeitos especiais extravagantes ou sequências espetaculares. A tecnologia dos chamados “banhos”, procedimento que permite aos personagens prolongar indefinidamente a vida, não é exatamente uma novidade dentro da ficção científica. Ainda assim, sua utilização é inteligente e fundamental para a narrativa. Por meio de uma ideia relativamente simples, Cartório das Almas estabelece as regras de seu mundo e apresenta as consequências físicas e emocionais de uma sociedade na qual a morte deixou de ser um destino inevitável.
O funcionamento dos banhos é apresentado de maneira visualmente simples: os personagens entram em uma banheira com um líquido branco e, depois de submergir, retornam à superfície sem os sinais do envelhecimento. O procedimento, entretanto, cobra um preço silencioso.
A cada novo banho, as memórias anteriores podem desaparecer, colocando em xeque a própria identidade daqueles que continuam vivendo. Ou seja, o banho que, para nós, tem algo de sagrado e puro, aqui se distancia disso de uma maneira um tanto bizarra. É uma solução narrativa que desperta uma pergunta incômoda: se nossas experiências, relações e recordações fazem parte de quem somos, o que sobra de nós quando começamos a perder tudo isso?
O que acontece com quem decide abandonar a imortalidade?
Aqueles que decidem abandonar a imortalidade precisam obter uma senha de número zero, explicar suas razões por escrito e assinar o documento que formaliza a escolha. Depois, entram em um compartimento antigo, semelhante a um armário, de onde saem transformados em pássaros pretos. A imagem é carregada de simbolismo e estabelece um contraste interessante entre a burocracia do procedimento e a dimensão quase mística daquilo que acontece.
A morte, nesse contexto, não é apresentada apenas como um acontecimento biológico, mas como uma decisão que exige reflexão. Os personagens precisam justificar por que desejam partir, enquanto Laura permanece do outro lado do balcão, registrando motivos que talvez jamais consiga compreender completamente. O trabalho, que poderia parecer meramente administrativo, torna-se uma espécie de observatório da condição humana.
É nesse ponto que a interpretação de Gabriela Correa ganha importância. Laura é uma personagem que carrega o peso de uma existência prolongada, mas não necessariamente repleta de experiências significativas. Sua função exige distanciamento, pois ela não pode interferir nas decisões dos clientes. Ao mesmo tempo, a situação em que se encontra torna cada atendimento uma lembrança de sua própria falta de liberdade. Existe uma melancolia constante nessa contradição, que ajuda a sustentar o interesse pelo drama da protagonista.
O visual de Cartório das Almas
Visualmente, Cartório das Almas demonstra um cuidado que merece reconhecimento. A direção aposta em enquadramentos contemplativos, cenários contidos e tomadas longas que permitem ao espectador observar os personagens e absorver o ambiente.
Naturalmente, o recurso também apresenta alguns problemas. Em determinados momentos, a duração dos planos pesa contra o ritmo, fazendo com que algumas passagens pareçam mais demoradas do que deveriam. A proposta contemplativa exige paciência, e nem todas as sequências conseguem justificar plenamente o tempo que ocupam. Ainda assim, na maior parte da projeção, essa abordagem funciona a favor do filme, reforçando a sensação de que seus personagens estão presos em uma existência na qual o tempo perdeu parte de seu significado.
Outro aspecto que merece atenção é a maneira como a produção apresenta suas ideias sem recorrer a explicações excessivamente didáticas. Para quem chega ao filme sem conhecer sua proposta, algumas situações podem parecer confusas, especialmente no início. As regras daquele universo não são necessariamente explicadas de uma só vez, e o espectador precisa acompanhar os acontecimentos para compreender como os banhos, o cartório e a transformação em pássaros se relacionam.
É preciso, portanto, aceitar que nem todas as respostas serão entregues imediatamente. Quem insistir em acompanhar a narrativa encontrará uma ficção científica que utiliza seus elementos fantásticos para explorar questões existenciais. A experiência exige envolvimento, mas recompensa a disposição de quem aceita mergulhar naquele universo.
Prêmios no Festival de Brasília
O reconhecimento obtido no Festival de Brasília, onde o longa venceu diversos prêmios, incluindo Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular, reforça a relevância de uma produção que encontra sua força na criatividade, e não na grandiosidade técnica.
Cartório das Almas também serve como resposta para quem insiste em afirmar que o cinema brasileiro aborda sempre os mesmos temas. A ficção científica nacional tem espaço para experimentar, criar mundos próprios e discutir questões universais a partir de perspectivas particulares.
No fim, o filme é interessante, melancólico e potencialmente provocador. Pode tropeçar no ritmo e deixar algumas pessoas confusas diante de suas escolhas narrativas, mas possui personalidade visual e uma premissa capaz de render boas reflexões. Mais do que discutir a possibilidade de viver para sempre, Leo Bello questiona o significado dessa eternidade e o preço de continuar existindo quando as lembranças deixam de acompanhar o tempo.
A vida e a morte caminham lado a lado nessa história, sem que uma seja apresentada como resposta definitiva para os dilemas da outra. Talvez a maior provocação do longa esteja justamente em nos fazer pensar que a possibilidade de escolher quando partir pode ser tão importante quanto o direito de continuar vivendo. Afinal, se a eternidade nos condenasse à solidão e ao esquecimento, será que ainda desejaríamos possuí-la?
