Akira (88) | Rebobina 31

Neste mês de agosto, a animação japonesa Akira recebeu um relançamento em 4K nos cinemas brasileiros para celebrar 35 anos de sua estreia no país. Isso mesmo: apesar de ter sido lançado originalmente no Japão em julho de 1988, Akira é frequentemente associado ao início dos anos 90, período em que conquistou uma nova geração de fãs e ganhou status de obra cult no Ocidente. Mas sua trajetória até se tornar um fenômeno foi mais lenta do que parece.

O filme não chegou imediatamente ao grande público mundial: após sua estreia no Japão, passou por festivais internacionais, incluindo Berlim em fevereiro de 1989, antes de alcançar outros mercados. Nos Estados Unidos, sua chegada comercial aconteceu apenas no final de 1989. Aqui no Brasil, estreou em 1991. O que hoje é considerado um dos maiores marcos da animação adulta levou alguns anos para encontrar seu público e construir a reputação que possui atualmente.

Akira nasceu nas páginas de um mangá

Akira é uma adaptação do mangá homônimo criado por Katsuhiro Otomo, lançado em 1982. Naquele momento, a estética cyberpunk já possuía alguns anos de desenvolvimento, com referências importantes como Judge Dredd, publicado pela primeira vez em 1977, que apresentava uma visão distópica de futuro marcado por violência, controle estatal e cidades superpopulosas. Entretanto, Akira surge antes de alguns dos trabalhos que ajudariam a consolidar definitivamente o movimento, como o romance Neuromancer, de William Gibson, publicado em 1984, e a graphic novel Ronin, de Frank Miller, iniciada em 1983. Otomo estava, portanto, criando sua própria visão de futuro em um momento em que o cyberpunk ainda estava definindo suas características.

A animação foi dirigida pelo próprio criador da obra, Katsuhiro Otomo, e se passa em Neo-Tóquio, no ano de 2019, uma cidade reconstruída após ter sido destruída por uma misteriosa explosão nuclear em 1988. A trama acompanha Kaneda, líder de uma gangue de motociclistas, e seu melhor amigo de infância, Tetsuo, um jovem inseguro que sempre viveu à sombra dele. Após um acidente envolvendo uma criança com habilidades psíquicas, Tetsuo desperta poderes telecinéticos.

Akira volta nos cinemas nacionais

Uma animação de pura ação sci-fi

Os primeiros 15 minutos de Akira são intensos. Após apresentar a imagem icônica de Tóquio sendo consumida por uma explosão nuclear, o filme nos leva para a decadente Neo-Tóquio de 2019. Uma cidade reconstruída sobre suas próprias ruínas, onde o avanço tecnológico convive lado a lado com o colapso social. De um lado, enormes arranha-céus, luzes neon e propagandas em hologramas gigantes anunciam uma sociedade moderna e futurista. Do outro, ruas sujas, manifestações populares, conflitos urbanos, violência e gangues de motociclistas revelam uma população que não parece ter se beneficiado desse progresso. Neo-Tóquio é exatamente a essência do cyberpunk: uma cidade onde a tecnologia avançou mais rápido do que a própria humanidade.

Nesta primeira sequência, percebemos que Katsuhiro Otomo bebeu de diversas fontes para construir seus personagens e seu universo. A juventude violenta, a sensação de alienação e a sociedade em conflito dialogam com obras como Laranja Mecânica e Carrie, a Estranha, especialmente na maneira como apresentam jovens deslocados, incompreendidos e capazes de liberar forças que a sociedade não consegue controlar. Alguns poderiam citar Blade Runner pela estética de uma metrópole futurista dominada por luzes, propaganda e arquitetura gigantesca. Porém, o filme de Ridley Scott segue uma direção mais próxima do noir, com sua atmosfera de investigação, chuva e decadência urbana. O curioso é que o mangá de Akira começou a ser publicado em 1982, o mesmo ano de lançamento de Blade Runner. Impressiona perceber como duas obras criadas em lados opostos do mundo imaginaram futuros visualmente tão próximos, ambas enxergando a cidade do amanhã como um lugar de excesso tecnológico e crise humana.

Uma animação japonesa, com estética cyberpunk dos anos 80, lançada no final daquela década e ambientada em 2019. Essa própria combinação já faz do longa uma obra curiosamente atemporal. É difícil imaginar que o filme não poderia ter sido produzido hoje, tamanha a força de sua visão de futuro. Entretanto, por trás dessa aparência universal, existe um DNA profundamente ligado ao período em que foi criado. Akira carrega a energia punk das grandes metrópoles em crise do final dos anos 70, como Nova York e Londres, com seus problemas econômicos, violência urbana e sensação de colapso social, mas mistura isso ao avanço tecnológico e à confiança no futuro do Japão dos anos 80. É justamente desse contraste que nasce sua identidade: uma sociedade capaz de construir cidades impressionantes e desenvolver tecnologias extraordinárias, mas ainda incapaz de resolver seus próprios conflitos humanos.

O roteiro vai muito além de sua estética

Analisando-o como roteiro, o elemento que sustenta o interesse da trama é justamente o mistério envolvendo a organização secreta responsável pelos experimentos com indivíduos dotados de poderes psíquicos. Enquanto o cotidiano caótico de Neo-Tóquio, com suas gangues, conflitos urbanos e manifestações políticas, constrói muito bem o ambiente daquele futuro, ele poderia se tornar repetitivo com o passar do tempo se não houvesse uma ameaça maior sendo revelada aos poucos.

O grande motor da narrativa está na descoberta de que aquela sociedade não apenas convive com o avanço tecnológico, mas tenta controlar uma nova etapa da evolução humana. Os experimentos com os telecinéticos colocam em discussão até onde o homem pode interferir na própria natureza e quais consequências surgem quando uma força maior do que sua capacidade de compreensão é despertada.

Akira previu o futuro?

Muitas pessoas afirmam que Akira previu o futuro. Particularmente, acredito que sua visão está mais ligada aos medos e expectativas de sua própria época do que a uma previsão literal dos próximos anos. A ideia de poderes psíquicos, paranormalidade e evolução humana através de mutações era uma tendência muito presente na ficção científica das décadas de 70 e 80, assim como os conceitos explorados pelos X-Men com suas mutações genéticas.

O futuro imaginado por Akira pertence a uma época que temia uma transformação física da humanidade: novos poderes, novas capacidades, uma evolução que poderia escapar do controle. O mundo atual trouxe outros desafios: uma sociedade conectada pela internet, dependente de inteligência artificial, preocupada com questões ambientais e com novas formas de relacionamento social. A rebeldia das ruas de Neo-Tóquio pertence muito mais ao século passado do que ao presente.

Nesse sentido, 2001: Uma Odisseia no Espaço talvez seja uma obra que se torna cada vez mais atual a cada ano. A ideia de um computador capaz de assumir o controle de uma situação, colocando em discussão os limites entre homem e máquina, parece mais próxima das preocupações do mundo atual do que a existência de indivíduos com poderes sensitivos. A inteligência artificial e a dependência tecnológica tornaram esse tipo de reflexão ainda mais presente.

Entretanto, isso não significa que Akira tenha envelhecido. As experiências de Tetsuo após seu contato com o poder telecinético, suas alucinações, dores físicas e a sensação de perder o controle sobre o próprio corpo possuem uma conexão surpreendentemente forte com questões contemporâneas, especialmente a maneira como nossa sociedade lida com crises de ansiedade, sobrecarga mental e a dificuldade de administrar transformações internas cada vez mais intensas.

Um história sobre controle

Acima de tudo, essa é uma história sobre controle. E Katsuhiro Otomo explora esse tema em diferentes camadas. A primeira está na tentativa da ciência e do governo de controlar uma força que talvez esteja além da capacidade humana de compreensão. Os experimentos com indivíduos dotados de poderes psíquicos mostram uma sociedade tentando dominar uma nova etapa da evolução, sem realmente entender as consequências de despertar algo tão poderoso.

A segunda camada está no controle político. Neo-Tóquio é uma cidade reconstruída após uma grande destruição, mas continua marcada por desigualdade, repressão e insatisfação popular. Ao tentar controlar uma sociedade através da força, os governantes acabam criando exatamente aquilo que mais temem: uma rebeldia impossível de conter.

Mas a camada mais importante talvez seja a individual. O maior conflito de Tetsuo não é contra uma organização secreta ou contra o governo, mas contra a própria incapacidade de controlar aquilo que existe dentro dele. O poder que recebe não o transforma em alguém melhor; apenas amplia suas inseguranças, seus ressentimentos e seu desejo de reconhecimento. Em Akira, o maior perigo não está apenas em possuir uma força extraordinária, mas em não possuir maturidade suficiente para lidar com ela.

Akira é mais um conceito do que um personagem

Diferente do que muitos desavisados podem imaginar, Akira é muito mais um conceito de poder incontrolável do que propriamente um personagem. O próprio roteiro trata o personagem-título quase como uma entidade, uma força próxima do divino. Em determinado momento, o filme estabelece uma comparação com Deus, não no sentido religioso tradicional, mas como algo que ultrapassa a compreensão humana e desafia qualquer tentativa de controle.

Por isso, o grande conflito do longa não é simplesmente descobrir quem é Akira, mas acompanhar se Tetsuo será capaz de alcançar um nível de poder semelhante e quais serão as consequências disso. O filme transforma a evolução humana em algo ao mesmo tempo fascinante e assustador.

E é justamente nessa ideia que encontramos a dimensão da influência de Akira nas décadas seguintes. É difícil imaginar o impacto de obras como Matrix (1999) sem a existência do anime de Katsuhiro Otomo, especialmente na maneira de apresentar corpos modificados, poderes além da compreensão humana, tecnologia e uma visão de futuro dominada por conflitos entre homem e máquina. Além disso, sua influência pode ser percebida em inúmeras animações e produções de ficção científica que surgiram posteriormente, consolidando Akira como uma das obras mais importantes da cultura pop moderna.

Uma das maiores animações de todos os tempos

Tecnicamente, seria difícil contestar, no final dos anos 80, que Akira estava entre as maiores realizações da história da animação. O investimento na produção foi extremamente elevado para os padrões da época, especialmente considerando um processo ainda totalmente baseado em animação tradicional. A quantidade de desenhos produzidos, o nível de detalhamento dos cenários, a fluidez dos movimentos e a complexidade das cenas de ação impressionam até hoje, principalmente por terem sido realizados antes da popularização das ferramentas digitais.

A trilha sonora também foge completamente do caminho mais óbvio da ficção científica daquele período. Em uma época em que muitos filmes associavam o futuro aos sintetizadores eletrônicos, Akira aposta em uma sonoridade muito mais ritualística e orgânica, com coros, percussões e elementos experimentais. Existe até uma aproximação curiosa com outro grande Akira do cinema: Kurosawa, pela maneira como a música não funciona apenas como acompanhamento, mas como parte da identidade dramática da obra.

Além disso, a história, como já abordado, estava muito à frente de seu tempo tanto no mangá de 1982 quanto na adaptação cinematográfica de 1988. Akira não imaginava apenas um futuro tecnológico; imaginava uma sociedade em conflito com seus próprios avanços, uma juventude sem direção e instituições incapazes de controlar aquilo que criaram.Visto hoje, o filme continua sendo um marco de uma geração que ainda tenta compreender uma nova juventude. A mesma dificuldade que os adultos de Neo-Tóquio tinham para entender os jovens daquele futuro fictício encontra ecos no mundo atual, onde diferentes gerações tentam compreender os valores, comportamentos e formas de comunicação da geração Z.

Akira merece um live-action

Toda a longa sequência final de Akira é ao mesmo tempo apoteótica e grotesca. A escolha de Katsuhiro Otomo por abraçar o horror corporal pode causar estranhamento em alguns espectadores, especialmente por transformar o clímax em algo muito mais próximo de um pesadelo visual do que de uma tradicional batalha de ficção científica. A animação, ao contrário de limitar o impacto, permite que o filme alcance imagens que seriam extremamente difíceis de realizar em uma produção live action da época.

Uma adaptação cinematográfica em live action é prometida há décadas, mas nunca conseguiu sair do papel de forma definitiva. E talvez seja justamente porque o longa-metragem exige muito mais do que reproduzir sua estética: seria necessário encontrar o equilíbrio entre o espetáculo visual, a complexidade temática e o desconforto de suas imagens. Uma obra dessa dimensão merece um investimento à altura, não apenas para recriar Neo-Tóquio, mas para preservar tudo aquilo que tornou o filme um marco da animação mundial.

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