
O Exorcista II – O Herege (1977) é um desastre total. Depois que William Friedkin transformou O Exorcista (1973) em uma das maiores obras-primas do terror, a Warner Bros. decidiu apostar em uma continuação que, além de não compreender o que tornou o primeiro filme tão especial, parece empenhada em destruir tudo aquilo que funcionava na produção original. O resultado é uma mistura de ideias desconexas, decisões criativas inexplicáveis e cenas que desafiam a paciência de qualquer espectador.
A produção, aliás, já parecia amaldiçoada antes mesmo de chegar aos cinemas. O roteiro de William Goodhart passou por diversas reescritas, tentativas de filmar nas locações originais fracassaram por problemas políticos e desentendimentos entre produtores e responsáveis pelos locais, e aproximadamente 2.500 gafanhotos importados da Inglaterra morreram por não suportarem as mudanças climáticas. Para completar o caos,integrantes da equipe enfrentaram doenças e dificuldades durante a captação das imagens. Se a intenção era reproduzir os tormentos de uma produção infernal, ninguém precisou fazer muito esforço.
O problema é que o desastre não ficou restrito aos bastidores. John Boorman, responsável pela direção, já havia demonstrado seu descontentamento com o filme original. Francamente, depois de assistir a esta continuação, fica difícil não questionar como alguém poderia olhar para a obra de Friedkin e decidir que o melhor caminho seria abandoná-la em favor de uma sucessão de ideias estapafúrdias e mal desenvolvidas.
Qual a história de O Exorcista II – O Herege?
A trama acompanha Regan MacNeil (Linda Blair), agora adolescente e vivendo em Nova York, enquanto ela tenta compreender os acontecimentos traumáticos de seu passado. Sob acompanhamento médico, a garota participa de sessões que utilizam um aparelho capaz de conectar os pensamentos e as memórias de duas pessoas. Ao mesmo tempo, o padre Philip Lamont (Richard Burton) investiga a morte do padre Merrin (Max von Sydow) e procura entender a natureza dos poderes que envolveram a jovem. O que poderia render uma investigação sobrenatural interessante transforma-se em um verdadeiro balaio de gato, no qual a lógica parece ter sido a primeira vítima.
Nada faz sentido por aqui
O tal aparelho que permite compartilhar pensamentos e lembranças é um dos exemplos mais evidentes da confusão narrativa. Primeiro, acompanhamos a conexão entre Regan e sua médica; depois, o padre Lamont passa a compartilhar experiências com a garota e, posteriormente, com a doutora. Tudo acontece como se o roteiro estivesse constantemente inventando novas regras para justificar as cenas seguintes, sem se preocupar em estabelecer uma lógica.
E o mais curioso é que todo mundo leva essa maluquice muito a sério. Não existe aquele equilíbrio entre mistério e tensão que ajudou a transformar o primeiro filme em uma experiência tão perturbadora.
Richard Burton, como o padre Lamont era um nome respeitável, mas sua interpretação parece perdida em meio às excentricidades do roteiro. Não há uma cena que consiga resgatar sua participação, e a comparação com Max von Sydow, que interpretou o padre Merrin no clássico de 1973, torna a situação ainda mais dolorosa. Enquanto Sydow transmitia autoridade, serenidade e uma fé marcada pelo peso da experiência, Burton parece atravessar o filme sem conseguir encontrar um personagem digno de sua presença. Dá vontade de pausar a reprodução e sair correndo.
Linda Blair, que recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação no primeiro filme, também tem pouco a acrescentar. Regan deveria ser o coração da narrativa, mas acaba reduzida a uma personagem envolvida em situações cada vez mais absurdas. Em determinado momento, tenta ajudar uma garota autista não verbal a falar, mas e aí? A sequência sai do nada e vai para lugar algum. O mesmo vale para a cena em que Regan coloca a mão no peito da médica, em uma tentativa de ajudá-la que parece tão artificial quanto constrangedora.
Os gafanhotos se sentiram desconfortáveis em participar de O Exorcista II – O Herege
A utilização dos gafanhotos é outro capítulo à parte. Há uma insistência em enquadramentos dos insetos e tomadas em primeira pessoa que provocam risos nervosos e nunca medo. O resultado é uma sucessão de momentos que beiram a vergonha alheia. A pessoa caindo de um penhasco em câmera lenta também merece destaque, embora não exatamente pelos motivos que Boorman provavelmente imaginava. É uma daquelas cenas em que o espectador fica tentando descobrir se está diante de uma escolha estética tosca ou de uma paródia involuntária.
A montagem completa o serviço. Principalmente no segundo ato, os cortes entre as cenas parecem ignorar qualquer relação de continuidade, ritmo ou desenvolvimento dramático. Em determinado momento, o padre está na África, sendo alvejado por habitantes locais que o consideram um mensageiro de Satanás; simultaneamente, Regan está nos Estados Unidos, fazendo uma apresentação de sapateado (!?) e sentindo os efeitos do que acontece com ele, como se ambos compartilhassem uma conexão sobrenatural. A sequência é tão desconcertante que dá vontade de perguntar se já não podemos encerrar a sessão por ali.
Mas não. Ainda há mais.
O desfecho… aaaah o desfecho!
No desfecho, Regan precisa enfrentar uma versão de si mesma possuída. A ideia poderia funcionar em outras circunstâncias, mas aqui soa como um pastiche que mistura simbolismo e efeitos de quinta categoria. Felizmente, a sequência não consegue apagar o brilho do original, embora faça um esforço considerável para manchar sua reputação.
O maior problema de O Exorcista II – O Herege é que Boorman parece não compreender o que torna o terror eficiente: atmosfera, personagens convincentes, construção de suspense e uma narrativa capaz de envolver o espectador.
Se O Exorcista é um verdadeiro filme de terror, esta continuação é um terror de filme — e dos piores que já assisti. A praga dos gafanhotos pode até ter sido um problema durante as filmagens, mas nenhuma infestação se compara à tentativa de assistir a esta sequência até o fim.




