
Em 2025, Ethan Hawke completou 40 anos de carreira. Não podemos dizer que ele seja um ator subestimado. Afinal, já soma três indicações ao Oscar por atuações e duas como roteirista. Ainda assim, passa longe de ser um astro arrasa-quarteirão. Inclusive, recebeu mais uma indicação esta semana por seu papel em Blue Moon.
Quando vasculho minhas memórias de suas atuações, retorno à minha pré-adolescência e à sua estreia como ator: Uma Viagem ao Mundo dos Sonhos. Era o motivo que eu precisava para revisitar esse filme que me marcou bastante. Ben (Ethan Hawke) constantemente tem sonhos com um mundo high-tech que remete ao visual de Tron (1982). Ávido consumidor de filmes de ficção científica, ele entende que aquilo se trata do mundo dos computadores. Ao conseguir rascunhar uma peça importante que visualiza nesses sonhos, entrega o desenho a Wolfgang (River Phoenix), seu melhor amigo e um pequeno gênio da informática.
Viagem ao Mundo dos Sonhos: história e o cinema dos anos 1980
Durante uma briga com valentões da escola, Ben acaba conhecendo Darren (Jason Presson), um garoto que vive perambulando pelos ferro-velhos da cidade. Assim, cada um passa a dar sua contribuição para que possam, de fato, visitar o espaço sideral, após uma chamada interestelar que recebem, não sem antes causar algumas confusões pela vizinhança.
O ano era 1985. As pessoas ainda imaginavam o que os computadores poderiam fazer. Era inevitável que o cinema explorasse isso à exaustão. No já citado Tron (1982), um hacker é sequestrado e obrigado a participar de jogos perigosos dentro de um computador. Falando em hackers, Matthew Broderick quase inicia a Terceira Guerra Mundial em Jogos de Guerra (1983). E não podemos esquecer dos garotos que criaram uma mulher através de um computador em Mulher Nota 1000 (1985).
Ben (Ethan Hawke) constantemente tem sonhos com um mundo high-tech que remete ao visual de Tron (1982). Ávido consumidor de filmes de ficção científica, ele entende que aquilo se trata do mundo dos computadores. Ao conseguir rascunhar uma peça importante que visualiza nesses sonhos, entrega o desenho a Wolfgang (River Phoenix), seu melhor amigo e um pequeno gênio da informática.
Direção e roteiro em Viagem ao Mundo dos Sonhos
O diretor Wolfgang cria um campo magnético em forma de esfera. A partir disso, eles constroem uma nave chamada Thunder Road — nome dado por Darren em homenagem à canção de Bruce Springsteen — utilizando apenas sucata. Sim, aqui os computadores foram capazes de levar três garotos, sem capacetes, para longe no universo.
O roteiro é dividido em duas partes principais: antes e depois da viagem. Ou melhor, a descoberta, a construção da Thunder Road e os primeiros voos ocupam os dois primeiros atos. Já no terceiro, estamos dentro da nave de Wak e Neek, os extraterrestres que chamaram o trio.
Aliás, na época, esse terceiro ato causou muita frustração e, até hoje, segue dividindo opiniões. Os três garotos carregavam expectativas altíssimas sobre como seriam os extraterrestres, expectativas moldadas por décadas de filmes, séries e quadrinhos que os apresentavam como seres superiores, quase sempre malignos, invariavelmente sérios e detentores de algum tipo de sabedoria absoluta.
No entanto, Ben, Wolfgang e Darren se deparam com dois seres infantis e pastelões, que parecem não dizer nada com nada e levam pouquíssimas coisas a sério. Numa leitura mais superficial, entende-se rapidamente que se tratam, essencialmente, de crianças. Agora imagine a frustração de adolescentes interagindo com crianças quando esperavam exploradores do universo. Essa frustração se estende, inevitavelmente, aos espectadores.
Quando descobrimos que Wak e Neek se comunicam de forma tão caricata porque conhecem a cultura terráquea exclusivamente através de nossos canais de televisão, o filme avança para outro nível de entendimento. Se é isso que refletimos para fora e isso nos parece tão ridículo, talvez a pergunta correta seja outra: por que é exatamente isso que consumimos? O ridículo é parte central do nosso entretenimento, e, em alguma medida, acabamos nos tornando aquilo que assistimos.
E o filme não para por aí.
Questionado sobre o motivo de nunca terem ido à Terra, Wak responde exibindo cenas de filmes sobre alienígenas e mostrando o que costumamos fazer com eles. Ben tenta se defender: “Nós não maltrataríamos vocês. Nunca vimos um extraterrestre. Não matamos… quer dizer, matamos, mas…”. Wak completa com precisão cirúrgica: “Vocês têm mania de explodir tudo”.
Por que será que a destruição fascina tanto os seres humanos?
Se Viagem ao Mundo dos Sonhos tinha alguma chance de arrasar nos cinemas, ela foi completamente dissipada por um lançamento desastroso. Finalizado às pressas, com problemas evidentes de pós-produção, o filme chegou aos cinemas norte-americanos um dia antes do Live Aid, o maior evento musical do mundo até então. Para piorar, De Volta para o Futuro havia estreado no fim de semana anterior e monopolizado completamente a atenção do público. Ao final daquele 1985, seria a maior bilheteria do ano.
Curiosamente, Joe Dante não foi a primeira escolha para a direção. O nome inicialmente cogitado era o de Wolfgang Petersen, recém-saído de Uma História Sem Fim, mas o cineasta queria filmar na Alemanha. Acabaria dirigindo Inimigo Meu no mesmo ano. Dante vinha do sucesso estrondoso de Gremlins (1984) e, dois anos depois, lançaria Viagem Insólita (1987), cravando de vez seu nome no território da ficção científica e da fantasia.
Os efeitos especiais ficaram a cargo da Industrial Light & Magic, a lendária empresa de George Lucas, que dominava o imaginário visual dos anos 80. Ainda assim, o contraste é inevitável: lançado no mesmo mês que De Volta para o Futuro, Viagem ao Mundo dos Sonhos exibe efeitos visivelmente mais modestos. A diferença não está na capacidade técnica da ILM, mas nas circunstâncias. Enquanto o filme de Robert Zemeckis teve tempo, orçamento e planejamento para lapidar cada cena, Explorers chegou às telas pressionado por prazos e decisões apressadas de estúdio, o que comprometeu a finalização e deixou evidentes os limites de uma produção que não teve a chance de amadurecer visualmente.
River Phoenix e sua estreia nos cinemas
Quase irreconhecível, River Phoenix ainda exibia bochechas mais protuberantes em sua estreia, especialmente quando comparadas à sua fisionomia em Conta Comigo, lançado no ano seguinte. Em Viagem ao Mundo dos Sonhos, Wolfgang surge como a miniatura de um cientista sério e comprometido, plenamente consciente de que sua inteligência provoca inveja, ainda que isso em nada ajude suas relações sociais dentro da escola.
O nome do personagem não é casual. Sabemos que Wolfgang é uma homenagem direta a Mozart, reforçada pelo fato de um de seus irmãos se chamar Ludwig, referência evidente a Beethoven. Essa escolha sublinha o modo como o filme associa genialidade precoce, isolamento e sensibilidade, características que Phoenix traduz com notável maturidade para alguém tão jovem.
Foram pouco mais de oito anos de carreira, interrompidos precocemente por sua morte em 1993, aos 23 anos, tempo suficiente para que River Phoenix deixasse uma marca duradoura e tão singular que mesmo com o enorme sucesso de seu irmão Joaquin nos cinemas, jamais se referem de forma menos importante entre um e outro dentro ou fora do meio cinematográfico.
Ao final da viagem, o que Ben, Wolfgang e Darren encontram não é a grandiosidade que imaginaram, mas a frustração de um espelho. Ao se depararem com alienígenas que não correspondem ao mito construído por décadas de ficção científica, os três são forçados a amadurecer não pela conquista, mas pela decepção. Mais do que compreender o outro, eles passam a se enxergar como seres humanos que talvez não imaginassem ser, portadores de uma herança cultural marcada pela violência e pelo espetáculo.
Quando Neek afirma que “nós só queríamos conhecê-los”, o filme expõe um contraste doloroso: conhecer não é invadir, não é explorar e não é uso da violência. É nesse choque entre expectativa e realidade que Viagem ao Mundo dos Sonhos encontra sua maturidade definitiva, transformando uma aventura juvenil em uma reflexão surpreendentemente adulta sobre quem somos quando finalmente somos observados de fora. Pena que parece que o mundo teima em não enxerga o próprio umbigo.





