
Catherine O’Hara faleceu na semana passada, aos 71 anos. Muitos a lembram como a mãe de Kevin McCallister (Macaulay Culkin), o garoto de Esqueceram de Mim. Eu, porém, sempre penso nela como a artista plástica novaiorquina Délia em Os Fantasmas Se Divertem, mais especificamente naquela cena hilária em que parte do elenco é possuído para dançar Day-O (Banana Boat Song) de Harry Belafonte, um dos momentos mais icônicos da comédia no cinema dos anos 80.
Sua partida me levou a rever essa obra-prima de 1988. E talvez pareça estranho começar um texto sobre esse filme falando de morte, mas há uma verdade simples nisso: morte e estranheza são o próprio filme. E muito mais.
Adam (Alec Baldwin) e Barbara (Geena Davis), um casal recém-falecido, retornam como fantasmas à própria casa, mas descobrem que não conseguem assustar os novos moradores. Desesperados, recorrem a um bioexorcista descontrolado chamado Beetlejuice (Michael Keaton), cuja ajuda vem sempre acompanhada de consequências piores do que o problema original. Enquanto isso, Lydia (Winona Ryder), a filha adolescente da nova família, torna-se a única ponte real entre os dois mundos, viva demais para os mortos e morta demais para os vivos.
Quando Os Fantasmas Se Divertem chegou aos cinemas, Tim Burton estava apenas em seu segundo longa-metragem, o primeiro havia sido As Grandes Aventuras de Pee Wee, um fracasso no Brasil. Mas, curiosamente, foi aqui que ele realmente nasceu como autor. Mais até do que em Batman, seu filme seguinte, é neste filme que vemos, pela primeira vez em plena forma, o Burton que o mundo aprenderia a reconhecer em Edward Mãos de Tesoura, A Noiva Cadáver, Wandinha, a refilmagem de A Fantástica Fábrica de Chocolates e muitos outros: o artista fascinado por desajustados, pelo grotesco que esconde delicadeza, e como ele é fascinado por isso, senão não nos passaria a ideia de que o mundo dos mortos pode ser mais interessante do que o dos vivos.
O além como repartição pública e a crítica à América yuppie
O além de Os Fantasmas Se Divertem não é o céu e o inferno bíblico. É uma repartição pública. Um universo inteiro organizado como um funcionalismo lento, confuso e mal-humorado. O que Burton imagina para depois da morte parece menos uma dimensão espiritual e mais uma versão distorcida do Estado burocrático americano do final dos anos 80, ainda preso a arquivos de papel, filas intermináveis e funcionários (com seus devidos nomes cósmicos) que parecem ter morrido de tédio antes mesmo de morrer de fato. O horror não está no além, mas das 9h às 17h do nosso dia a dia, de onde nossos personagens parecem querer fugir.
Aliás, no centro do conflito está um choque de culturas. Adam e Barbara são interioranos felizes, ligados à vizinhança, à casa, ao cotidiano. Os novos moradores, vindos de Nova York, são o retrato exagerado da era yuppie: paranoicos, gananciosos, neuróticos, potenciais suicidas, viciados em status, em remédios para dormir, em validação, os verdadeiros monstros. Delia vê a casa como galeria. Charles (Jeffrey Jones) a vê como investimento. Aliás, desde aquela década, o diretor ja enxergava o uso do home-office como uma forma de fugir do trabalho estressante.
Lydia, o luto e o elenco como corpo dramático em Os Fantasmas Se Divertem
Lydia (Winona Ryder) não é apenas uma adolescente estranha. Ela é uma menina em luto eterno pela ausência da mãe. Sua estética gótica não é pose, é uma forma de nomear a dor. Entre todos os personagens, ela é a única capaz de ver os mortos porque já vive meio fora do mundo. Aliás, Burton nunca separa o gótico da sensibilidade.
Winona está excelente no filme como todo o elenco. Ela voltaria a trabalhar com Burton em Edward Mãos de Tesoura. Um dos segredos do filme é que ninguém está deslocado. Alec Baldwin e Geena Davis funcionam como um casal comum jogado no absurdo. Jeffrey Jones faz da ansiedade um espetáculo. E Catherine O’Hara, como Delia, cria uma personagem que parece uma performance de arte contemporânea ambulante. Sua Delia é uma piada sobre o narcisismo artístico, mas também um retrato cruel de uma elite que transforma tudo, até a morte, em decoração. O assistente de Delia, vivido por Glenn Shadix, é uma das pequenas joias do elenco. Com sua afetação e olhar permanentemente entediado, ele transforma cada silêncio em piada.
E temos Michael Keaton. Ele não interpreta Beetlejuice, ele incorpora. O personagem é vulgar, barulhento, inconveniente, pervertido, quase uma força da natureza. E o mais curioso é que, apesar de dar nome ao filme, ele aparece relativamente pouco. Mas cada cena em que surge é como um terremoto. Keaton transforma Beetlejuice menos em um fantasma e mais em um resultado do caos, ele mesmo um ex-funcionário público que preferiu virar microempreendedor.
Roteiro que transforma clichês em leis do mundo
Boas interpretações exigem bons roteiros. E aqui ele é brilhante. Como ao pegar frases feitas e torná-las reais. Antigos moradores mortos assombram casas? É claro. Fantasmas iniciantes usam lençóis para identificarmos que são assombrações? Pode crer. Suicidas são punidos com empregos públicos no limbo? É óbvio que sim. O humor está em descobrirmos que já vivemos no além.
E quando Juno avisa que “não se deve confiar nos vivos”, o filme não está apenas fazendo humor. Está revelando a lógica daquele universo: no mundo de Burton, quem respira costuma ser mais perigoso do que quem já morreu.
A montagem do filme participa da piada. Como na cena em que Adam e Barbara tentam assustar os novos moradores e o corte mostra os vivos reagindo. O espectador acredita que eles estão vendo os fantasmas, mas não estão. Reagem a outra coisa. O filme usa uma gramática típica de filmes sérios (O Sexto Sentido, O Clube da Luta) para criar comédia. O corte mente, e nós caímos. É uma manipulação elegante que reforça o brilhantismo do roteiro.
O título original, Beetlejuice, é uma genialidade de roteiro disfarçada. O nome funciona como um feitiço: deve ser dito três vezes para que o personagem apareça. O filme constrói o próprio título como parte da narrativa. Você sai do cinema repetindo a palavra, ativando o personagem no mundo real e divulgando o próprio filme. Já o titulo nacional Os Fantasmas Se Divertem apaga tudo isso. Troca magia por golpe baixo para dizer “compre o ingresso e divirta-se com fantasmas”. Some com o jogo metalinguístico que Burton e os roteiristas criaram. É um caso em que o título brasileiro não apenas muda o nome, mas transforma genialidade em truque barato.
O circo da morte: efeitos e música
A genialidade só não entrou em ação ao não sacar que na tecnologia não se pode confiar. Os efeitos especiais que mais resistem ao tempo são os mais artesanais: maquiagem, stop motion, próteses, truques de câmera. Já os primeiros efeitos digitais envelheceram mal. Mas curiosamente isso acabou jogando a favor de Os Fantasmas se Divertem ao longo das décadas, que sempre pareceu mais próximo do circo do que do realismo.
A trilha de Danny Elfman dá ao filme um tom de desfile fúnebre alegre, quase um carnaval de outro plano, desde o inesquecível tema abertura. E quando o filme interrompe isso para usar Day-O (The Banana Boat Song), o efeito é ainda mais poderoso. Talvez seja a cena mais memorável do filme. A música alegre e, ao mesmo tempo, estranha, vira um ritual de possessão coletiva. O constrangimento como comédia pura.
O legado da comédia macabra de Os Fantasmas se Divertem
(alerta de spoiler) O final do filme é mais revelador do que parece. Fantasmas e vivos passam a coexistir em harmonia, mas há algo ainda mais profundo ali. Lydia abandona o gótico, como se tivesse encontrado, enfim, um lugar onde não precisa mais performar sua dor. Ao mesmo tempo, Adam e Barbara, que jamais conseguiram ter filhos em vida, encontram em Lydia aquilo que lhes faltava: paz de espirito em forma de famíla.
Beetlejuice continua vivo não apenas no imaginário coletivo, nem só porque ganhou recentemente uma continuação, mas porque nunca tentou ser normal e, ainda assim, convenceu Hollywood a apostar nele. Pioneiro, Tim Burton abriu caminho para a comédia macabra de grande estúdio, da qual viriam depois A Família Addams 1 e 2, Gremlins 2 e A Morte do Demônio 3, e transformou esse universo em uma marca registrada da qual ele próprio se tornaria um dos maiores expoentes.





