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O Justiceiro (89) | Rebobina 21

Na semana em que escrevo este texto de O Justiceiro (89), chegou ao Disney+, O Justiceiro: Uma Última Morte, especial televisivo que marca mais um retorno de Jon Bernthal ao papel de Frank Castle. Desde que o personagem passou a integrar oficialmente os projetos televisivos da Marvel Studios, Bernthal acabou se consolidando como o rosto definitivo do anti-herói para toda uma nova geração, seja em séries próprias, seja em participações dentro do universo compartilhado da Marvel. Mas muito antes desse Justiceiro brutal e traumatizado ganhar prestígio nas plataformas de streaming, o personagem já havia chegado aos cinemas a versão com Dolph Lundgren, que havia recém-saído de Mestres do Universo. E é justamente esse curioso cult perdido das locadoras que revisitaremos hoje.

O Justiceiro (89) é Frank Castle, ex-soldado que vê sua família ser assassinada por chefões do crime e decide transformar a própria vida numa cruzada violenta contra a criminalidade nas ruas de Nova York, especialmente na famosa Hell’s Kitchen. Criado em 1974 por Gerry Conway, com visual desenvolvido por John Romita Sr. e Ross Andru, o personagem é praticamente um retrato perfeito daquele período específico da cultura americana. Auge da paranoia urbana pós-Vietnã, crescimento da violência nas grandes cidades e descrença nas instituições ajudavam a alimentar figuras obcecadas por justiça pelas próprias mãos, claramente influenciadas por filmes como Desejo de Matar. Frank Castle nasce exatamente desse imaginário: menos um super-herói tradicional e mais uma máquina de guerra traumatizada tentando limpar uma cidade que considera perdida.

Marvel à beira da falência

Nos quinze anos que separam sua criação da primeira adaptação cinematográfica, a Marvel Comics passaria por transformações profundas, crises financeiras e uma verdadeira fragmentação de direitos envolvendo seus personagens. Apesar dos heróis da editora terem vivido um período de enorme popularidade na televisão graças ao sucesso dos seriados de O Incrível Hulk, Mulher Maravilha e Homem-Aranha, além da força de seus desenhos animados, o mercado de quadrinhos acabou entrando numa lógica extremamente perigosa durante os anos 80. O crescimento das vendas criou uma euforia em torno das HQs como itens de coleção, levando a Marvel a apostar em edições especiais, capas variantes e lançamentos excessivos que as bancas e lojas simplesmente não conseguiam absorver. Formava-se ali uma bolha especulativa que, pouco tempo depois, explodiria e colocaria as finanças da empresa numa situação extremamente delicada.

Esse cenário levou a Marvel Comics a buscar dinheiro praticamente de qualquer maneira, vendendo os direitos cinematográficos de seus personagens sem grande preocupação com envolvimento criativo ou controle artístico sobre as adaptações. E o destino de O Justiceiro acabou sendo uma produtora que também atravessava seus próprios problemas financeiros: a New World Pictures, criada por Roger Corman, lendária por sua especialização em filmes baratos, violentos e extremamente eficientes dentro do mercado de VHS e sessões da madrugada.

Para se ter ideia da dimensão modesta do projeto, chegou-se a cogitar Arnold Schwarzenegger para interpretar Frank Castle, mas seu cachê consumiria praticamente todo o orçamento do longa. O medo de fracasso era tão grande que a produção decidiu tratar O Justiceiro (89) muito mais como um policial urbano estrelado por Dolph Lundgren do que como uma adaptação explícita dos quadrinhos da Marvel. A insegurança chegou a um ponto curioso: removeram quase completamente o icônico símbolo da caveira do uniforme por receio de que o visual afastasse o público ou tornasse o protagonista “antipático” demais para o cinema comercial da época.

O Justiceiro (89)
O Justiceiro (89)

O Justiceiro (89) na Austrália

Pra piorar, as locações não aconteceram em Hell’s Kitchen e sequer nos Estados Unidos. Boa parte das filmagens ocorreu na Austrália, algo praticamente escancarado logo nos primeiros frames do longa, quando a cartela da produção australiana surge em destaque antes mesmo da história começar. A direção ficou nas mãos de Mark Goldblatt, profissional experiente vindo da montagem de clássicos de ação como O Exterminador e Rambo 2: A Missão. Curiosamente, O Justiceiro (89) marcava também um dos primeiros trabalhos de roteiro de Boaz Yakin, que anos depois construiria carreira sólida como produtor e diretor em Hollywood. Para viver Frank Castle, Dolph Lundgren escureceu os cabelos, ganhou ao lado o peso dramático de Louis Gossett Jr. e embarcou naquela que acabaria se tornando sua última grande missão cinematográfica dos anos 80, chegando ao projeto logo após as filmagens de Escorpião Vermelho.

Entretanto, quando a primeira cena começa, o filme muda completamente de linguagem. Entramos numa estética tipicamente oitentista e televisiva através de uma reportagem de TV que resume a situação de forma bastante direta: cinco anos após o assassinato da família de Frank Castle, um dos principais mafiosos investigados pelo crime acaba de deixar a prisão, enquanto dezenas de chefões do submundo foram executados misteriosamente nesse mesmo período. A própria presença da imprensa, dos telejornais e da cobertura sensacionalista ajuda a transportar imediatamente o filme para aquele imaginário urbano tão característico do cinema e da televisão dos anos 80.

Os créditos de abertura de O Justiceiro (89) já deixam claro que o filme está muito mais próximo do cinema policial violento dos anos 70 do que de uma adaptação tradicional Marvel. Rostos de mafiosos surgem congelados na tela enquanto cortes rápidos mostram Dolph Lundgren empunhando metralhadoras pesadas. A estética lembra diretamente o clima paranoico e decadente de filmes como Dirty Harry, além de carregar algo do visual exploitation que dominava parte do cinema americano daquela década. Nitidamente uma forma de homenagear aquele período em que Frank Castle foi criado.

Justiceiro: uma máquina de matar

A partir daí, o longa praticamente abandona qualquer tentativa de suspense tradicional. Assim que o mafioso deixa a prisão, a narrativa acompanha simultaneamente sua chegada à mansão e o deslocamento do Justiceiro em sua moto. Quando os capangas percebem, Frank Castle já está dentro da propriedade eliminando todos de forma brutal e direta, sem construção elaborada de tensão.

Existe, porém, uma sacada bastante eficiente no roteiro: tudo leva o espectador a acreditar que aquele recém-libertado será o grande vilão da história, apenas para vê-lo ser executado poucos minutos depois numa sequência seca e explosiva. A falsa indução funciona muito bem porque transforma aquele mafioso em apenas mais um nome eliminado pelo Justiceiro ao longo de sua guerra particular, criando imediatamente uma sensação de imprevisibilidade sobre o que realmente moverá a narrativa dali em diante.

Dolph Lundgren perdeu 11kg para o papel

Na sequência, somos levados às lembranças de Frank Castle sobre a tragédia que destruiu sua vida. Enquanto a câmera percorre lentamente um beco subterrâneo escuro, a narração de Dolph Lundgren questiona por que inocentes morrem enquanto criminosos continuam vivos. Logo encontramos Frank Castle nu, sentado de costas e de joelhos dentro de uma espécie de santuário improvisado dedicado à própria dor e à memória da família assassinada.

Quando finalmente vemos seu rosto pela primeira vez, a expressão é de puro desgaste: amargurado, cansado e taciturno, como alguém consumido por uma guerra interminável travada havia cinco anos. Curiosamente, Dolph Lundgren perdeu cerca de 11 quilos para interpretar o personagem, buscando justamente transmitir uma figura menos heroica fisicamente e muito mais destruída emocionalmente do que os protagonistas musculosos tradicionais do cinema de ação da época.

O roteiro é o maior inimigo de Justiceiro (89)

Conforme a trama se desenvolve, fica claro que o maior problema de O Justiceiro não está exatamente na falta de orçamento. O filme até consegue construir uma atmosfera urbana interessante dentro de suas limitações. O verdadeiro problema surge quando o roteiro parece perder o interesse por Frank Castle. A chegada do último membro da família Franco à cidade desencadeia uma guerra entre as máfias locais e a Yakuza, que passa a sequestrar filhos de chefões numa tentativa de forçar novas alianças criminosas. A questão é: o que exatamente isso tem a ver com o trauma de Frank Castle ou sua jornada de vingança? Muito pouco. Aos poucos, o longa parece mais fascinado pelas disputas mafiosas, negociações criminosas e movimentações do submundo do que pelo homem destruído emocionalmente que deveria ocupar o centro da narrativa.

Existe algo muito típico do cinema de ação dos anos 80 nisso tudo. Naquele período, falar sobre máfias, guerras urbanas e organizações criminosas internacionais parecia automaticamente tornar qualquer filme mais “adulto” e grandioso. Enquanto isso, o aspecto mais humano e psicológico do Justiceiro acaba ficando em segundo plano. Em paralelo, acompanhamos o Tenente Berkowitz, interpretado por Louis Gossett Jr., e sua nova assistente Sam tentando localizar Frank Castle, numa altura em que já não resta praticamente nenhuma dúvida de que ele seja o vigilante responsável pelos assassinatos. Curiosamente, é justamente nessa investigação mais íntima sobre quem Frank se tornou que o filme parece mais próximo de encontrar sua verdadeira identidade.

Não é difícil imaginar que a solução mais eficiente para o roteiro seria justamente usar a chegada do último membro da família Franco como catalisador para unir as máfias contra Frank Castle, transformando o Justiceiro no alvo principal daquela cidade criminosa e obrigando-o a enfrentar seu maior desafio após cinco anos de guerra particular. No entanto, o filme escolhe outro caminho. Em vez de aprofundar a lógica de vingança e perseguição que construiu até então, o roteiro decide envolver Frank no resgate dos filhos dos mafiosos sequestrados pela Yakuza. A mudança soa estranha porque desloca completamente o eixo emocional da narrativa. De repente, o Justiceiro deixa de agir movido pela obsessão pessoal contra o crime para assumir quase um papel de herói protetor, algo que pouco conversa com a jornada amarga e autodestrutiva apresentada até aquele momento.

E os problemas de roteiro não param por aí. Existe também um enorme desperdício de Louis Gossett Jr., provavelmente o ator mais sólido em cena durante todo o filme. Seu Tenente Berkowitz surge inicialmente como peça importante daquela investigação sobre a identidade do Justiceiro, mas o personagem praticamente não evolui durante grande parte do longa e, pior, cria um vinculo entre ele e Frank, sugerindo até que ele fosse policial – diferente da origem que conhecemos. A própria presença da polícia em O Justiceiro acaba funcionando mais como formalidade narrativa do que como força ativa dentro da trama. Em muitos momentos, a sensação é de que a cidade simplesmente aceitou a existência de Frank Castle como mecanismo paralelo de controle do crime, enquanto os investigadores apenas circulam ao redor da história sem realmente interferir nela.

Alguns diálogos também ajudam a reforçar a estranheza tonal do longa. Em determinado momento, capturado pela Yakuza durante o resgate das crianças sequestradas, Frank Castle é questionado sobre quem o enviou até aquele local. Sua resposta: “Batman”. A piada talvez funcionasse como comentário irônico sobre Justiceiro ter sido criado como uma respoASta ao herói da DC, mas ganha contornos ainda mais curiosos quando lembramos que Batman, é um personagem da única grande chegaria aos cinemas naquele mesmo ano cercado de enorme expectativa. O detalhe fica ainda mais intrigante porque o nome de Stan Lee aparece nos créditos iniciais como consultor executivo. Fica difícil não imaginar se ele realmente acompanhou o roteiro completo e simplesmente deixou passar uma referência tão direta ao Homem-Morcego em pleno primeiro filme cinematográfico do Justiceiro.

Dolph Lundgren fala pouco em cena

A falta de experiência de Mark Goldblatt na direção também fica bastante evidente ao longo. Embora viesse de uma carreira sólida como montador, especialmente em filmes de ação, suas limitações aparecem tanto nas sequências de perseguição, tiroteios e combate quanto na condução do elenco, frequentemente preso a interpretações caricatas e diálogos bastante superficiais. E isso acaba afetando diretamente Dolph Lundgren. Como já comentei ao revisitar Mestres do Universo, Dolph possui limitações dramáticas bastante claras, especialmente quando o roteiro exige maior profundidade emocional ou frases de impacto mais elaboradas. Felizmente, aqui o texto parece entender parcialmente isso e reduz bastante a quantidade de diálogos do personagem.

Ainda assim, é justamente na construção visual de Frank Castle que o filme encontra sua maior força. Mesmo abrindo mão do icônico símbolo da caveira no uniforme, o visual criado para o personagem funciona surpreendentemente bem. Dolph Lundgren parece alguém que realmente não dorme há anos. Não existe sorriso, leveza ou qualquer resquício de humanidade confortável em seu rosto. Você acredita imediatamente naquela figura consumida pela própria guerra pessoal, alguém que já não se importa mais em viver ou morrer e que dedicará o restante de sua existência apenas à eliminação de criminosos. Há algo profundamente desesperançado naquele Frank Castle. Mais do que um herói, ele surge quase como uma máquina de matar emocionalmente destruída, movida apenas por dor, obsessão e uma vingança que parece não reconhecer qualquer limite.

Desde 1989, Justiceiro reapareceu algumas vezes no cinema ou tv. Em 2004, ganhou nova adaptação cinematográfica estrelada por Thomas Jane. Quatro anos depois, foi a vez de Ray Stevenson assumir o papel em Punisher: War Zone, abraçando uma violência ainda mais estilizada e próxima dos quadrinhos. Mais recentemente, Jon Bernthal transformou Frank Castle em um dos personagens mais populares da fase televisiva da Marvel Studios, seja em sua série própria, seja em participações dentro daquele universo compartilhado.

E por mais que o Justiceiro sempre ocupe uma posição curiosa de personagem B dentro da Marvel, distante do apelo massivo de Homem-Aranha ou X-Men, é difícil imaginar que Hollywood abandonará tão cedo uma figura tão perfeita para narrativas violentas e urbanas. Ainda assim, o filme de 1989 permanece único justamente por capturar uma Marvel completamente diferente: uma empresa ainda distante dos holofotes, insegura sobre o valor de seus próprios personagens e perdida dentro daquele universo decadente de VHS, produções baratas e action movies musculosos do fim dos anos 80.

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