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O Enigma da Pirâmide | Rebobina 012

Esta semana chegou ao streaming a série Young Sherlock. Quando vi a chamada, minha mente começou a viajar para o passado em camadas. Primeiro vieram os dois filmes de Enola Holmes, nos quais Sherlock aparece como coadjuvante nas aventuras de sua irmã. Em seguida, lembrei das cenas de luta estilizadas criadas por Guy Ritchie em seus dois filmes dedicados à dupla formada por Robert Downey Jr. e Jude Law, alguns anos atrás. Mas minha memória acabou estacionando mais longe, nos anos 80, na aventura juvenil O Enigma da Pirâmide. Foi ali que muitos espectadores conheceram uma possível origem para o mito de Sherlock Holmes, em uma produção que carregava a marca de Steven Spielberg.

Na trama, em um colégio interno na Londres vitoriana, o jovem Watson (Alan Cox) chega como novo aluno e acaba dividindo o dormitório com um estudante excêntrico e brilhante: Sherlock Holmes (Nicholas Rowe). Rapidamente fica claro que Holmes já possui a mente analítica que mais tarde o tornaria famoso. Observador, lógico e constantemente alguns passos à frente dos colegas, ele enxerga padrões onde ninguém mais vê. O que começa como uma curiosidade entre estudantes se transforma em algo muito mais sério quando uma série de mortes estranhas começa a ocorrer na cidade.

O Enigma da Pirâmide surpreende desde a primeira cena

A abertura de O Enigma da Pirâmide é daquelas sequências que imediatamente capturam a atenção do espectador. A câmera percorre a Londres vitoriana à noite, com um uso expressivo de sombras e iluminação que ajuda a construir uma atmosfera elegante e ameaçadora ao mesmo tempo. Logo somos apresentados à primeira vítima: um senhor que é atingido por um pequeno dardo. A partir daí, o filme mergulha no estranho. Durante o jantar em um restaurante, ele passa a ter uma alucinação em que sua própria refeição parece atacá-lo. A sequência continua quando ele retorna para casa e novas visões perturbadoras o conduzem a um desfecho trágico. Antes mesmo da aparição de Sherlock Holmes e Dr. Watson, o filme já estabelece três de seus pilares: suspense, uma cuidadosa recriação de época e efeitos especiais surpreendentes para a época.

No entanto, os produtores também fazem questão de deixar claro, desde os primeiros minutos, que estamos diante de uma aventura ambientada em outro tempo. Os créditos iniciais surgem com tipografia e estrutura clássicas, evocando o cinema de época e preparando o espectador para mergulhar naquela Londres vitoriana cuidadosamente reconstruída. Esse cuidado visual não é coincidência, especialmente quando se observa o time criativo envolvido. Além de Steven Spielberg, cuja influência no cinema de entretenimento dos anos 80 dispensa apresentações, a produção reúne também Kathleen Kennedy e Frank Marshall, parceiros frequentes em projetos como Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida. O roteiro é assinado por Chris Columbus, que anos mais tarde dirigiria Harry Potter e a Pedra Filosofal, e a direção fica a cargo de Barry Levinson, vencedor do Oscar por Rain Man. Reunidos, esses nomes ajudam a explicar por que o filme combina ambição visual, espírito aventureiro e um cuidado narrativo pouco comum em produções juvenis da época.

O Enigma da Pirâmide
O Enigma da Pirâmide

A ponte entre O Enigma da Pirâmide e Harry Potter

Aliás, Chris Columbus é um a ponte direta entre Enigma da Pirâmide e o universo de Harry Potter. O refeitório do colégio, iluminado por velas e organizado em longas mesas paralelas, parece antecipar em anos o grande salão de Hogwarts. A semelhança não é mero acaso. A arquitetura segue o modelo real dos tradicionais internatos britânicos do século XIX, mas o detalhe ganha um sabor curioso quando lembramos que o roteiro foi escrito por ele. Aliás, se alguém disser que este filme é um protótipo das histórias do famoso bruxinho, dificilmente encontrará contestação. Estão todos os elementos lá: escola inglesa, estudantes investigando um mistério, professores excêntricos, rituais secretos, atmosfera gótica e um trio de protagonistas juvenis. Revisitado hoje, O Enigma da Pirâmide parece quase um ensaio involuntário para o universo que anos depois ganharia o mundo em Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Já um dos efeitos especiais podemos dizer que é inovador. Na cena da segunda morte, um cavaleiro representado em um vitral de igreja ganha vida, salta da janela e passa a perseguir o personagem como uma figura espectral. A cena dura poucos segundos, mas ocupa um lugar especial na história do cinema. O efeito foi criado por uma pequena equipe de computação gráfica da Industrial Light & Magic, grupo que poucos anos depois se tornaria a Pixar. Trata-se de um dos primeiros personagens totalmente gerados por computador a aparecer em um filme live-action. Curiosamente, o efeito ainda funciona bem hoje, talvez porque a própria natureza do personagem — um vitral que se transforma em espectro — combina com a geometria rígida do CGI primitivo, transformando limitações técnicas em estilo visual.

A origem de muitos elementos clássicos do universo Sherlock Holmes

O roteiro de Chris Columbus demonstra um cuidado evidente em transformar O Enigma da Pirâmide em mais do que uma simples aventura juvenil. Em vez de apenas imaginar Sherlock Holmes na adolescência, Columbus se diverte construindo pequenas origens para elementos que se tornariam marcas registradas do personagem. A famosa frase “elementar, meu caro” aparece pela primeira vez como expressão utilizada pelo tio de Elizabeth. O tradicional chapéu é apresentado como um presente do mesmo personagem, enquanto o inseparável cachimbo surge quando Watson o encontra em uma loja de antiguidades. Além da presença do ainda jovem Lestrade, policial da Scotland Yard. Esses detalhes funcionam quase como pequenas peças de um quebra-cabeça, sugerindo que o mito do detetive começa a se formar ali, ainda entre experiências juvenis.

Ao mesmo tempo, o roteiro mantém uma estrutura narrativa muito bem equilibrada. A história alterna momentos do cotidiano escolar com a investigação do mistério central, seguindo uma progressão clara: crime, retorno à rotina, descoberta de pistas, nova ameaça e assim por diante. Essa alternância cria um ritmo natural, permitindo que os personagens se desenvolvam enquanto o enigma se aprofunda gradualmente. Cada novo evento acrescenta uma peça ao quebra-cabeça maior, conduzindo a narrativa por uma escalada que parece simples, mas revela um planejamento bastante cuidadoso.

Pirâmide, rituais, canto gregoriano e cemitério: prato cheio para os jovens dos anos 80

O clímax envolvendo a pirâmide mistura elementos que se tornaram quase marca registrada do cinema de aventura dos anos 80: sociedades secretas, cânticos ritualísticos e a ameaça de sacrifício humano. Embalada por canto gregoriano, a cena transporta o expectador para um território que lembra aventuras como Indiana Jones e o Templo da Perdição, lançado apenas um ano antes. Chris Columbus parece compreender bem a mecânica da aventura clássica: mistério, perigo crescente e sequências visualmente marcantes. E ele transporta todos esses elementos para um universo juvenil, demonstrando que a fórmula podia funcionar perfeitamente também quando os heróis ainda estavam em formação.

Curiosamente, este continua sendo o trabalho mais lembrado da maior parte do elenco principal. Embora alguns dos atores tenham seguido carreira em produções menores para cinema e televisão, nenhum deles alcançou posteriormente um papel de impacto semelhante ao que tiveram em O Enigma da Pirâmide. Assim, o filme acabou se tornando a principal referência na trajetória de nomes como Nicholas Rowe, que interpretou o jovem Sherlock Holmes, e Alan Cox, o Watson adolescente. Para muitos espectadores, esses rostos permanecem associados quase exclusivamente a essa aventura juvenil, que acabou funcionando como uma espécie de marco definitivo em suas carreiras. Diferentemente do diretor Barry Levinson que teve uma carreira consistente com 6 indicações ao Oscar e uma vitória como diretor de Rain Man, de 1988.

A performance nas bilheterias e o sucesso em home video

Apesar de todas essas qualidades, O Enigma da Pirâmide não foi um grande sucesso de bilheteria quando lançado. Como aconteceu com diversos filmes daquela década, sua verdadeira redescoberta ocorreu posteriormente no mercado de home video e nas exibições televisivas. Com o passar dos anos, o filme passou a ser lembrado com carinho por uma geração que cresceu assistindo a aventuras que misturavam mistério, imaginação e uma certa dose de perigo.

Seu grande mérito foi ter apresentado Sherlock Holmes e Dr. Watson a toda uma nova geração de espectadores. Ao imaginar a juventude dos dois personagens, O Enigma da Pirâmide conseguiu aproximar um dos maiores mitos da literatura policial de um público que talvez ainda não tivesse encontrado as histórias de Arthur Conan Doyle. Quarenta anos depois, continua sendo lembrado como uma aventura elegante que soube transformar o nascimento de uma amizade em uma história digna de lenda.

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