Na última semana, Michael Jackson voltou aos cinemas ao redor do mundo com sua primeira cinebiografia, um lançamento que, como era de se esperar, chegou dividindo opiniões. Enquanto parte do público se encantou com a força dos números musicais, outros apontaram para uma abordagem excessivamente chapa-branca ao retratar a vida de um artista tão excêntrico quanto complexo — alguém cuja trajetória foi acompanhada de perto desde os tempos do The Jackson 5, no fim dos anos 60, mas sobretudo ao longo dos anos 80, quando dominou as paradas de forma quase absoluta.
E é justamente nesse período, no auge de sua onipresença cultural, que surge Moonwalker, uma ficção científica musical tão peculiar quanto o próprio artista. Cujo titulo é referência a um dos passos de dança mais famosos e marca registrada do artista. Revisitar esse projeto hoje, aproveitando o momento em que sua figura retorna ao centro do debate, não é apenas um exercício de nostalgia — é também uma oportunidade de encarar uma obra que talvez diga mais sobre Michael do que qualquer narrativa biográfica tradicional conseguiria.
Moonwalker – longe de ser um filme tradicional
Longe de um filme tradicional, Moonwalker nasce em um momento em que Michael Jackson já não operava mais dentro dos limites convencionais da indústria musical ou cinematográfica. Após o impacto cultural dos videoclipes de Thriller — especialmente “Billie Jean”, “Beat It” e a faixa-título, esta última transformada em um curta-metragem dirigido por John Landis — Michael passa a enxergar o videoclipe não mais como ferramenta promocional, mas como linguagem artística autônoma.
O longa metragem surge cerca de um ano após o lançamento de Bad, cujo principal single, “Bad”, ganhou um curta de 18 minutos dirigido por Martin Scorsese, exibido na televisão em versão reduzida. Até a chegada do filme, outros clipes do álbum foram lançados, como “I Just Can’t Stop Loving You”, “The Way You Make Me Feel” e “Dirty Diana”. No entanto, é em Moonwalker que faixas como “Smooth Criminal”, “Man in the Mirror” e “Another Part of Me” ganham nova dimensão: seja como segmentos completos, seja como trechos reorganizados, o filme também funciona como plataforma de difusão visual dessas músicas, consolidando a ideia de Michael como um artista que já pensava imagem e som como uma unidade indissociável.
Vale lembrar que Michael Jackson não estava exatamente desbravando um território inédito. Alguns dos maiores artistas da época já haviam experimentado formatos híbridos entre música e cinema, como Prince em Purple Rain, Paul McCartney em Mande Lembranças para Broad Street e Madonna em Quem é Essa Garota? A diferença é que, enquanto esses projetos ainda se ancoravam em narrativas mais convencionais, Michael parecia interessado em algo mais sensorial e visualmente impactante. Moonwalker surge dessa lógica: uma extensão dessa ambição, reunindo segmentos musicais, experimentações visuais e uma narrativa fragmentada que funciona menos como uma história coesa e mais como vitrine de seu imaginário artístico.
Moonwalker autocelebra a magnitude do astro
A abertura de Moonwalker já deixa claro que não estamos diante de um filme interessado em seguir convenções narrativas. Em vez de introduzir uma trama, Michael Jackson inicia com “Man in the Mirror” em sua versão ao vivo, estruturada como um videoclipe de quase seis minutos. Nesse trecho, somos bombardeados por imagens de líderes mundiais — políticos, figuras religiosas e até John Lennon — evocando uma ideia de transformação alinhada à mensagem da música.
No entanto, esse discurso rapidamente se dilui diante do que realmente domina a tela: multidões em êxtase, shows lotados, fãs em histeria sendo carregados. Se a intenção era posicionar sua arte como veículo de mudança, o resultado soa difuso, como se a mensagem de consciência social fosse apenas pano de fundo para reforçar o próprio fenômeno Michael Jackson.
Em seguida, o espectador é conduzido a cerca de dez minutos de uma recapitulação da carreira de Michael Jackson, inteiramente focada na música e em suas conquistas. Dos tempos do The Jackson 5 até a era de Bad, o segmento adota uma linguagem surpreendentemente moderna para a época, com estética próxima às vinhetas da MTV, costurando trechos de sucessos e imagens de seus videoclipes mais marcantes.
Quando não há material oficial, entram performances em premiações, como o Grammy Awards, e encontros com personalidades, reforçando o caráter celebratório. É, essencialmente, um exercício de autopropaganda — ainda que embalado por música irretocável. Como pista narrativa, sobra muito pouco: apenas a sugestão de que a história, quando finalmente surgir, será protagonizada pelo próprio Michael, em uma fusão entre artista e personagem.
Bad: a versão mirim do videoclipe surpreende
A primeira boa sacada surge justamente quando o espectador espera rever trechos do videoclipe de “Bad” e é surpreendido por uma releitura com atores mirins. A sequência, extremamente bem coreografada, incorpora humor com naturalidade e prende a atenção do início ao fim, funcionando como um respiro criativo dentro da estrutura fragmentada de Moonwalker. Mais do que uma variação estética, o momento revela algo essencial sobre Michael Jackson: sua conexão com o universo infantil. Não por acaso, essa dimensão sempre esteve presente em sua imagem pública, alimentando a ideia — muitas vezes verbalizada por ele próprio — de uma espécie de Peter Pan moderno.
A partir daí, o filme mergulha de vez no cartunesco. Após a transição do Michael mirim para o adulto, Michael Jackson tenta deixar os estúdios da Warner Bros. sem chamar atenção — esforço rapidamente frustrado quando é reconhecido e passa a ser perseguido. O que se segue é uma transformação visual extravagante: o astro assume a forma de um coelho gigante em stop motion, pilotando uma moto, em uma sequência que corresponde ao videoclipe completo de “Speed Demon”. Se, por um lado, o segmento impressiona pelo experimentalismo, por outro escancara um problema crescente: a colagem de linguagens passa a soar mais dispersiva do que inventiva, e a ausência de uma trama estruturada começa a pesar.
Michael Jackson implora por privacidade
Mantendo essa estética lúdica, surge o segmento de “Leave Me Alone”, talvez o momento em que Michael Jackson mais explicita suas intenções dentro de Moonwalker. O recado é direto: um pedido quase desesperado por privacidade. A montagem despeja uma sucessão de boatos — abduções, câmaras criogênicas — reproduzindo o sensacionalismo dos tabloides. Quando conectamos esse momento à fuga de fãs vista anteriormente, forma-se um retrato claro de um artista acuado pela própria fama. Ainda assim, a contradição é inevitável: ao mesmo tempo em que pede distância, Michael constrói um espetáculo centrado em si mesmo. A partir daqui, a narrativa deixa de ser prioridade — o que importa são as intenções.
Somente então o filme ensaia uma estrutura mais tradicional. A trilha de Bruce Broughton assume o controle, enquanto somos apresentados a três crianças que tentam se aproximar de Michael Jackson, agora em fuga de um criminoso vivido por Joe Pesci. A motivação é simples: ele descobriu um plano para distribuir drogas a crianças — “uma criança drogada é uma cliente leal no futuro”. Moonwalker tenta, ainda que tardiamente, organizar sua narrativa.
A ação avança, mas o desenvolvimento não acompanha. As crianças seguem em busca de Michael, enquanto o astro foge — agora transformado em um carro futurista. Tudo parece isolado: não há mundo ao redor, apenas cenário, perseguição e conflito. Essa ausência cria uma sensação quase onírica, levantando uma hipótese inevitável: e se tudo não passar de um pesadelo do próprio Michael Jackson?
Smooth Criminal: um dos videoclipes com melhor fotografia nos anos 80
É nesse momento que o filme atinge seu ápice com “Smooth Criminal”. A estética noir domina a cena — da moeda que flutua até o salão, acionando a jukebox, ao ambiente carregado de sombras — até explodir em uma coreografia icônica que mistura dança e violência com precisão absoluta. Aqui, Michael Jackson atinge seu auge como performer visual.
A fotografia é um espetáculo à parte. A luz contrastada recorta o espaço, destacando movimentos com clareza quase cirúrgica. Os enquadramentos valorizam a geometria da coreografia, enquanto a paleta contida reforça a tensão. Nada sobra, nada distrai. O resultado é uma sequência que parece existir fora do tempo — um ponto de convergência entre música, cinema e espetáculo.
Michael Jackson como robô gigante
No clímax, o filme abandona qualquer sutileza e abraça a ficção científica de ação. Michael Jackson se transforma em um robô gigante e enfrenta o vilão em meio a explosões e artilharia pesada. É um desfecho exagerado, coerente com a proposta fragmentada, mas que reforça a sensação de que Moonwalker nunca quis contar uma história convencional.
Por fim, o filme se encerra com “Come Together”, cover dos The Beatles. O momento sintetiza tudo: performance, espetáculo e controle absoluto. Produzida pelo próprio Michael Jackson — sem Quincy Jones — a faixa já indicava um artista mais independente. Os créditos reforçam isso: profissionais discretos executando uma visão centralizada.
O passo seguinte seria “Liberian Girl”, videoclipe que reúne celebridades sob uma ideia quase metalinguística envolvendo Steven Spielberg. Mesmo sem grande repercussão à época, o gesto reforça a ambição: tudo que Michael produzia merecia tratamento cinematográfico.
No fim, Moonwalker talvez diga mais sobre Michael Jackson do que qualquer biografia conseguiria. Ao mesmo tempo em que constrói sua própria mitologia, o filme expõe um paradoxo nunca resolvido: o desejo de ser o maior espetáculo do mundo e, ao mesmo tempo, escapar do olhar sobre sua vida pessoal. Revisitar essa obra hoje não revela um filme melhor do que parecia, mas nos aproxima de forma rara da mente de uma das figuras mais criativas da cultura pop.
