Fora de Controle | Resenha | Vale a pena assistir?

Exibido durante o Festival de Cinema Francês do Brasil, Fora de Controle aposta em um drama psicológico com contornos de thriller emocional para discutir desejo, ciúme, poder e manipulação dentro das relações afetivas e corporativas. Dirigido por Anne Le Ny, o longa reúne um elenco conhecido do cinema francês contemporâneo, incluindo Omar Sy (Intocáveis), Élodie Bouchez (Ma famille chérie), José Garcia (Atentado em Paris) e Vanessa Paradis (Como Arrasar um Coração). O resultado, porém, é um filme que alterna momentos de tensão interessante com escolhas narrativas excessivamente melodramáticas, criando uma experiência que lembra mais um “novelão europeu”.

A trama acompanha Julien e Marie, casados há quinze anos e presos em uma relação desgastada pela rotina e pelo distanciamento emocional. O retorno de Anaèlle, antiga paixão de Julien, funciona como o gatilho que desencadeia uma série de inseguranças, ressentimentos e comportamentos impulsivos. Ao mesmo tempo, Marie passa a se envolver com Thomas, seu chefe e CEO da empresa onde trabalha, um homem manipulador que rapidamente transforma a relação em um jogo de poder psicológico.

Anne Le Ny constrói esse universo como uma sucessão de conflitos pessoais que se cruzam constantemente, quase sempre por meio de coincidências convenientes demais para serem totalmente convincentes. Ainda assim, existe uma intenção clara de discutir temas contemporâneos, especialmente as diferenças de tratamento entre homens e mulheres dentro do ambiente corporativo e afetivo.

Nesse aspecto, o filme acerta ao evitar personagens completamente heroicos ou totalmente perversos. Todos possuem falhas, inseguranças e atitudes moralmente questionáveis, o que dá ao longa uma camada humana interessante. Julien, por exemplo, não é exatamente um marido cruel, mas também demonstra incapacidade de compreender o impacto emocional de suas atitudes. Marie, por sua vez, surge como alguém emocionalmente vulnerável, mas cujas decisões acabam contribuindo para o caos ao redor (e, por vezes, as filhas ficam em segundo plano no meio de tudo isso). Essa ambiguidade moral poderia render um estudo psicológico mais sofisticado, principalmente porque o longa toca em temas bastante atuais, como obsessão, comportamento stalker e abuso emocional.

Fora de Controle e seu aspecto novelesco

Existem sequências que funcionam bem justamente por explorarem o desconforto emocional dos personagens sem exageros, mas elas acabam soterradas por diálogos artificiais, reviravoltas previsíveis e cenas carregadas de dramatização desnecessária. Como a própria diretora assina o roteiro ao lado de Axelle Bachman, esperava-se um refinamento maior na construção dessas tensões. Em muitos momentos, os personagens verbalizam sentimentos de maneira expositiva, eliminando nuances que poderiam tornar o drama mais poderoso.

Essa sensação de superficialidade também aparece nas escolhas visuais do filme. A fotografia de Fora de Controle raramente encontra uma identidade própria. Considerando o tipo de história que está sendo contada — marcada por paranoia, ciúme e deterioração emocional —, havia espaço para uma abordagem estética mais opressiva e melancólica. No entanto, a direção opta por uma encenação bastante convencional. As locações, embora bonitas, pouco contribuem para ampliar o estado psicológico dos personagens. A casa do casal, por exemplo, poderia refletir visualmente o desgaste daquela relação, enquanto os ambientes corporativos poderiam carregar uma atmosfera mais fria e sufocante. Mas não é o que ocorre.

O mesmo vale para a iluminação, que raramente dialoga com o clima emocional das cenas. Há uma falta de personalidade estética que impede o longa de criar uma atmosfera realmente inquietante. Isso é especialmente frustrante porque o material tem potencial para algo mais intenso. Fora de Controle constantemente flerta com o suspense psicológico, mas nunca mergulha completamente nele. Anne Le Ny prefere manter a narrativa em um terreno mais acessível, próximo do melodrama televisivo, talvez buscando justamente essa identificação mais imediata do público com os conflitos apresentados.

Curiosamente, essa característica pode funcionar a favor do longa dependendo das expectativas do espectador. Para quem aprecia narrativas da novela das oito, por exemplo, Fora de Controle entrega exatamente esse tipo de entretenimento. Existe um ritmo constante de acontecimentos e uma escalada dramática que mantém o interesse mesmo quando o roteiro exagera nas coincidências e simplificações. O cinema francês, tradicionalmente associado a produções mais introspectivas e autorais, aqui abraça uma estrutura mais popular e emocionalmente explosiva — algo que o público brasileiro, acostumado há décadas com novelas e melodramas televisivos, provavelmente reconhecerá com facilidade.

Mais do mesmo europeu

Ainda assim, fica a sensação de que Fora de Controle poderia ter ido além. Os temas abordados são fortes e extremamente atuais, especialmente quando pensamos nas discussões sobre abuso de poder, fragilidade emocional e toxicidade dentro das relações profissionais e afetivas. O filme aponta para esses problemas, mas raramente se aprofunda de fato em suas consequências psicológicas ou sociais. Muitas vezes, a narrativa prefere o choque dramático imediato em vez da construção gradual de tensão e complexidade.

No fim, funciona melhor como entretenimento dramático do que como thriller psicológico sofisticado. Há qualidades no elenco, na tentativa de discutir relações humanas imperfeitas e na construção de personagens moralmente ambíguos. Porém, a direção e o roteiro frequentemente sacrificam profundidade em troca de exageros narrativos e soluções fáceis. Para quem deseja fugir um pouco do padrão hollywoodiano e assistir a um drama francês mais acessível e carregado de emoções intensas, o longa certamente possui seus atrativos. Mas para aqueles que esperavam uma abordagem mais refinada e visualmente marcante, talvez reste a sensação de um potencial parcialmente desperdiçado.

Fora de Controle

Onde assistir Fora de Controle?

O filme estreia hoje (28) nos cinemas de todo Brasil.

Qual a história de Fora de Controle?

Marie e Julien vivem um casamento de 15 anos marcado pela estabilidade e pela rotina construída ao longo do tempo. A relação dos dois, porém, começa a se abalar quando Anaëlle, antiga paixão de infância de Julien, reaparece inesperadamente em suas vidas, despertando inseguranças e sentimentos mal resolvidos.

Consumida pelo ciúme e pelo medo de perder o marido, Marie passa a enxergar a aproximação entre Julien e Anaëlle como uma ameaça cada vez maior. Em meio à fragilidade emocional e à tensão crescente dentro de casa, ela acaba se envolvendo com Thomas, seu chefe, um homem manipulador que rapidamente transforma o caso em algo perigoso.

À medida que as escolhas de Marie fogem do controle, o relacionamento entra em uma espiral de desconfiança, desejo e destruição emocional. O que começou como uma crise conjugal se torna uma ameaça real à estabilidade da família, colocando todos diante de consequências profundas e irreversíveis.

Nota: ★★½

Título Original: Dis-moi juste que tu m’aimes
Ano Lançamento: 2024 (França | Bélgica)
Dir.: Anne Le Ny
Elenco: Omar Sy, Élodie Bouchez, José Garcia, Vanessa Paradis, Jennifer Decker, Marie Ayissi, Sophie Ricci, Catherine Vinatier, Eric Verdin

Curiosidades de Fora de Controle

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