Feitiço da Lua | Rebobina 22

Na semana passada, Cher completou 80 anos. Uma das mulheres mais influentes da cultura pop contemporânea, ela iniciou sua carreira ainda nos anos 60 ao lado do então marido Sonny Bono, formando uma das duplas musicais mais populares daquela década. Durante os anos 70, Cher atravessou a televisão americana dividindo-se entre a música e o enorme sucesso de seu programa de variedades ao lado de Sonny, consolidando uma imagem fortemente ligada ao entretenimento televisivo, ao humor e ao glamour extravagante. Com o fim do relacionamento — e consequentemente do programa —, decidiu reinventar completamente sua trajetória artística, investindo seriamente na carreira cinematográfica em papéis que não dependessem de sua persona musical, sem cantar ou dançar diante das câmeras. Os anos 80 acabariam marcados justamente por essa transformação, culminando em Feitiço da Lua, filme que lhe renderia o Oscar de Melhor Atriz e consolidaria de vez seu nome também dentro da história da Sétima Arte.

Feitiço da Lua chegou aos cinemas em 1987 mostrando um Brooklyn bastante diferente daquele que o cinema americano parecia mais interessado em retratar naquele período. Em vez da violência urbana, do trauma pós-Vietnã ou da ascensão agressiva dos yuppies que dominariam tantas produções dos anos seguintes, o veterano diretor Norman Jewison preferiu construir uma Nova York calorosa, charmosa e profundamente italiana. Entre restaurantes familiares, apartamentos apertados, padarias de bairro e discussões barulhentas à mesa de jantar, acompanhamos Loretta Castorini, contadora vivida por Cher, uma mulher emocionalmente cansada que acaba se apaixonando justamente pelo irmão do homem com quem deveria se casar.

Ao som de “That’s Amore”, na voz de Dean Martin, os créditos iniciais já apresentam exatamente o universo que o filme pretende explorar. A câmera passeia por um bairro nova-iorquino que não para um segundo sequer, mas que ainda preserva certo romantismo no cotidiano. Entre padarias abrindo, pessoas caminhando pelas ruas e pequenas rotinas domésticas, tudo parece acontecer num ritmo quase melodioso, sem pressa excessiva, muito distante do caos urgente e acelerado da vida contemporânea.

Uma grande familia italiana

Existe uma sensação constante de aconchego urbano, como se aquela Nova York ainda permitisse que seus moradores observassem a vida acontecer. E logo nos primeiros minutos, a simples rosa vermelha que Loretta reclama estar condenada a morrer em poucos dias — embora adore recebê-la — já revela silenciosamente muito sobre sua personalidade: uma mulher pragmática, cansada das ilusões românticas, que já pensa noninevitavel fim, mas que no fundo ainda deseja desesperadamente acreditar nelas.

Loretta tornou-se viúva aos 30 anos e passou a trabalhar como contadora nos negócios funerários da família. Aliás, uma família que vive reunida numa típica casa ítalo-americana abarrotada de gente no Brooklyn. Foi ali, inclusive, que ela morou ao lado do falecido marido, dividindo o espaço com pais, tios, avós e cachorros. Agora, acaba noiva de Johnny, personagem de Danny Aiello, amigo de seu ex-marido: um sujeito solteiro há duas décadas, inseguro e emocionalmente dependente. Há cinco anos, ele não conversa com o irmão caçula após uma grave discussão familiar.

Feitiço da Lua

O feitiço da lua

Existe naquela família uma crença quase silenciosa, mas constante, de que a Lua cheia interfere diretamente na vida amorosa das pessoas. Não como magia explícita, mas como uma força emocional capaz de despertar paixões, impulsos e desejos adormecidos. Feitiço da Lua trata essa superstição com enorme naturalidade dentro daquele universo familiar carregado de tradição italiana, onde sorte, mau-olhado, presságios e pequenos rituais convivem lado a lado com o cotidiano.

Aos poucos, percebemos que ninguém ali está completamente imune ao chamado da Lua. Ela parece empurrar os personagens para romances inesperados, confissões impulsivas e decisões emocionais que normalmente tentariam evitar. Mais do que um elemento fantasioso, o “feitiço da Lua” funciona quase como metáfora para o momento em que pessoas cansadas, solitárias ou acomodadas voltam a permitir que o amor entre novamente em suas vidas.

Na noite anterior a uma viagem para a Itália, onde visitaria a mãe à beira da morte, Johnny praticamente decide pedir Loretta em casamento como forma de fugir das próprias inseguranças e das consequências emocionais daquele momento. Ela aceita mesmo sem amá-lo verdadeiramente. Gosta de sua companhia, confia nele e, acima de tudo, ainda alimenta o desejo de realizar um casamento tradicional na igreja, com festa e família reunida — algo que não teve no primeiro matrimônio por causa da avareza do pai, fato que ela acredita ter lhe trazido azar. Em Feitiço ds Lua, amor, superstição e tradição familiar parecem caminhar juntos o tempo todo.

Entretanto, o dia seguinte seria de Lua cheia — constantemente enquadrada por Norman Jewison em closes belíssimos espalhados ao longo do filme, quase como uma presença observando silenciosamente todos aqueles personagens. E Loretta havia prometido a Johnny que ligaria para seu irmão caçula para convidá-lo para o casamento. O que ela não imaginava era que ambos compartilhavam dores muito parecidas causadas por amores perdidos e frustrações emocionais acumuladas ao longo da vida. Além disso, Ronnie, interpretado por Nicolas Cage, era o completo oposto do irmão: intenso, impulsivo, dramático e absolutamente seguro daquilo que desejava. E naquele dia ela se apaixonou novamente.

O retrato de uma família ítalo-americano

A grande força de Feitico da Lua está justamente na forma como retrata a família ítalo-americana. O filme entende que aquele universo funciona através do excesso: excesso de afeto, de interferência, de gritos, de comida, de culpa e de amor. Ninguém parece viver sozinho ou tomar decisões individualmente. Tudo passa pela mesa de jantar, pelos comentários atravessados dos parentes, pelas broncas do pai, pela preocupação silenciosa da mãe e pelas pequenas superstições herdadas de gerações anteriores. Ao mesmo tempo em que aquelas relações parecem sufocantes, existe um enorme acolhimento nelas. É uma família que discute em voz alta, critica, invade a privacidade uns dos outros, mas que permanece unida emocionalmente o tempo inteiro.

O catolicismo também possui papel fundamental dentro de Feitiço da Lua. Mais do que religião, ele funciona quase como estrutura emocional daquela família italiana. Loretta acredita sinceramente que casar na igreja faz diferença no destino de um relacionamento, como se a bênção religiosa pudesse proteger o casamento da má sorte e do sofrimento que marcaram sua vida anterior. Ao mesmo tempo, o filme trata a culpa católica de maneira extremamente humana e até bem-humorada. Sempre que os personagens se aproximam de algum desejo proibido ou cometem aquilo que consideram um pecado, surge imediatamente a necessidade de procurar um padre e se confessar para aliviar a consciência. Existe algo quase automático naquele comportamento: amar, errar, sentir culpa e buscar absolvição. E é justamente dessa mistura entre paixão, superstição e moral religiosa que Feitiço da Lua constrói boa parte de seu charme.

Roteiro com diálogos afiados

Para que tudo isso funcione de maneira convincente, Feitiço da Lua precisava de muito mais do que apenas uma boa história romântica. Era essencial que o roteiro encontrasse diálogos afiados o suficiente para transportar o espectador diretamente para aquele universo ítalo-americano barulhento, supersticioso, apaixonado e profundamente humano. E é exatamente isso que o texto escrito por John Patrick Shanley entrega. Cada conversa parece carregada de décadas de convivência familiar, ressentimentos, humor involuntário e afeto reprimido. Os personagens interrompem uns aos outros, exageram sentimentos, dramatizam situações banais e transformam simples refeições em pequenas óperas emocionais. Existe uma musicalidade nos diálogos que combina perfeitamente com o clima do filme, fazendo com que aquela família pareça viva o tempo inteiro.

E tudo isso é conduzido com enorme segurança pelo veterano Norman Jewison, o que torna Feitiço daua ainda mais interessante dentro de sua filmografia. Afinal, Jewison vinha de uma carreira marcada por dramas sociais, musicais grandiosos e filmes muito mais pesados, como No Calor da Noite e Rollerball. Em teoria, aquela pequena comédia romântica ítalo-americana parecia distante de seu terreno mais conhecido. Mas talvez justamente por sempre ter sido um diretor interessado em relações humanas, comunidades e personagens emocionalmente intensos, Jewison encontre aqui um encaixe perfeito. Sua direção transforma discussões familiares, refeições e diálogos cotidianos em algo quase operístico, sem nunca perder a humanidade dos personagens. Existe um calor muito raro na maneira como ele filma rostos, cozinhas, ruas e pequenas explosões sentimentais, como se toda aquela Nova York estivesse permanentemente apaixonada.

A química perfeita entre Cher e Nicolas Cage

E Cher entrega absolutamente tudo em cena. Presente na tela durante praticamente todo o filme, ela parece ter sido a escolha perfeita para Loretta Castorini. A intensidade emocional que o público já conhecia de sua própria personalidade pública encaixa-se perfeitamente na personagem: uma mulher cansada, prática, irônica e aparentemente resignada, mas que ainda carrega desejos e paixões sufocadas sob aquela postura racional. Cher consegue equilibrar humor, melancolia e romantismo com enorme naturalidade, sem jamais transformar Loretta numa caricatura. Existe algo muito humano em sua interpretação. Pequenos olhares, pausas e mudanças sutis de expressão revelam constantemente o conflito interno de alguém que acreditava já ter desistido do amor verdadeiro. Não por acaso, Feitiço da Lua acabou se tornando o grande ápice de sua carreira cinematográfica — o momento em que Hollywood finalmente entendeu que havia ali muito mais do que uma estrela pop tentando atuar.

Outro enorme acerto do filme é Nicolas Cage. Aqui já encontramos o ator naquele modo intenso, exagerado e emocionalmente explosivo que revisitaria anos depois em Despedida em Las Vegas e A Outra Face. Ronnie poderia facilmente soar caricato nas mãos erradas, mas Cage transforma o personagem em alguém profundamente ferido pela desilusão amorosa e pela culpa que carrega em relação ao irmão. Ao mesmo tempo, existe nele uma vontade quase desesperada de viver tudo intensamente: amar, sofrer, desejar e transformar qualquer emoção em algo grandioso, exatamente como alguém apaixonado por ópera imagina que a vida deveria ser. Seu Ronnie parece permanentemente à beira de um colapso emocional ou de uma declaração apaixonada, e é justamente essa energia descontrolada que quebra completamente a armadura racional construída por Loretta ao longo dos anos.

Portanto, Feitiço da Lua entrega muito mais do que inicialmente se espera de uma simples comédia romântica. Sob a luz constante da Lua, o filme constrói uma pequena Itália viva dentro do Brooklyn dos anos 80, povoada por personagens intensos, supersticiosos, barulhentos e apaixonados pela própria dramaticidade da vida. Entre diálogos afiadíssimos, romances impulsivos, culpa católica, discussões familiares e declarações apaixonadas embaladas por ópera, Norman Jewison transforma emoções cotidianas em algo quase mágico sem jamais perder o pé na humanidade daqueles personagens. É um filme quente, acolhedor e profundamente adulto, daqueles que parecem cada vez mais raros no cinema contemporâneo. Mais do que um clássico dos anos 80 ou o auge da carreira cinematográfica de Cher, Feitiço da Lua merece ser redescoberto justamente por lembrar que o amor pode surgir quando já não esperamos mais por ele — talvez sob influência da Lua, talvez apenas porque continuamos humanos demais para escapar dele.

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