Críticas

Corra Que a Polícia Vem Aí (88) – um novo sub-gênero do humor chega ao grande publico | Rebobina 004

Na primeira cena do filme, um policial caminha com a cintura em direção à câmera até cobri-la completamente. Se levarmos em consideração que o título original é The Naked Gun (Arma Exposta), já temos uma noção do que vem por aí: o trocadilho é imediato, visual e de gosto assumidamente infantil. Ao mesmo tempo, a imagem parece curiosamente dialogar com o título nacional — Corra Que a Polícia Vem Aí! — já que, literalmente, a polícia avança na direção do espectador, como se o próprio filme estivesse cumprindo a promessa do nome escolhido no Brasil logo em seus primeiros segundos.

Há anos eu queria revisitar este clássico da comédia dos anos 80, um spin-off — termo nada popular na época — do fracassado seriado Esquadrão de Polícia (1982), cancelado após apenas seis episódios. Com a vitória de sua refilmagem no Critics Choice Awards deste ano como Melhor Filme de Comédia, senti que não dava mais para adiar.

Aliás, apesar do sucesso da versão estrelada por Liam Neeson — curiosamente um nome com as mesmas iniciais de Leslie Nielsen —, o deadpan ali se apoia em situações literalmente irreais, como personagens que rompem as regras básicas do mundo físico, algo que não acontece na obra original, onde o humor é absurdo, mas sempre ancorado na realidade. Particularmente, isso me desapontou.

Corra Que a Polícia Vem Aí (88)
Corra Que a Polícia Vem Aí (88)

Deadpan – o humor baseado na seriedade em Corra Que a Polícia Vem Aí

Deadpan é um estilo de humor baseado na seriedade. Mais do que isso, na atuação neutra, com expressão impassível e ausência de reação emocional diante de situações absurdas. Os produtores, diretores e roteiristas ZAZ (Zucker, Abrahams e Zucker) não inventaram esse subgênero da comédia — Buster Keaton foi seu maior precursor —, mas foram responsáveis por traduzi-lo para o cinema moderno, ampliando seu alcance ao parodiar gêneros inteiros, aqui representado pelo cinema policial. Mais tarde, fariam o mesmo com Top Gang (93), ao satirizar o gênero de guerra, entre outros exemplos.

Apesar do fracasso do seriado Esquadrão de Polícia (1982) — também estrelado por Leslie Nielsen —, ele acabou influenciando toda uma década de produções que passaram a satirizar, parodiar e caçoar da figura do policial, especialmente nos cenários urbanos de Los Angeles e Nova York. Isso fica evidente em filmes como Um Tira da Pesada (1984), na franquia Loucademia de Polícia e até mesmo em Duro de Matar (1988), onde a ineficiência ou o descompasso das forças policiais diante do caos é parte essencial da narrativa.

Antes disso, MASH já havia feito movimento semelhante com o exército nos anos 70. Mas por que é engraçado tirar onda da polícia? Porque, na vida real, isso não se faz — é desacato à autoridade. No cinema, porém, essa inversão se transforma quase numa fantasia: rir da autoridade como se estivéssemos infringindo uma regra, sem de fato infringir nenhuma.

Sinopse de Corra Que a Polícia Vem Aí

Frank Drebin (Leslie Nielsen) é um sargento veterano da polícia de Los Angeles que, apesar de sua franqueza — sugerida já no próprio nome — e de uma confiança inabalável em suas próprias habilidades, nunca conseguiu ascender ao posto de capitão. Desastrado, literal e absolutamente alheio ao caos que provoca, Drebin ainda assim é constantemente convocado para missões de alta relevância. Corra Que a Polícia Vem Aí já deixa isso claro logo na abertura, ao enviá-lo ao Oriente Médio para infiltrar em uma reunião entre líderes de nações não aliadas.

De volta a Los Angeles, ele passa a integrar a operação montada para garantir a segurança da visita da Rainha Elizabeth II à cidade. É nesse intervalo que Drebin descobre que um dos cidadãos mais influentes de Los Angeles, o empresário Vincent Ludwig (Ricardo Montalbán), está envolvido em um esquema criminoso que inclui tráfico de drogas e um elaborado plano para assassinar a monarca. Paralelamente à investigação, Drebin se envolve romanticamente com Jane Spencer (Priscilla Presley), secretária de Ludwig.

Inglaterra como alvo de piadas ou seria o inverso?

Citar os pontos altos das piadas contidas no roteiro renderia parágrafos e mais parágrafos, tamanha é a metralhadora de gags que o filme dispara. Ainda assim, falar da escolha da visita oficial da Rainha da Inglaterra como eixo da narrativa é obrigatório. Há, sem dúvida, o prazer tipicamente norte-americano de tirar sarro dos antigos colonos ao colocar a monarca em situações constrangedoras — como os enquadramentos de conotação sexual entre ela e Frank Drebin na festa de recepção. Mas Corra Que a Polícia Vem Aí vai além da provocação histórica.

Ao mesmo tempo em que reforça a ideia recorrente de que apenas os Estados Unidos seriam capazes de “salvar o mundo” — como o próprio tenente afirma no final, ao declarar que “o mundo está grato” —, essa missão é atribuída a um policial totalmente desastrado. Soma-se a isso o fato de que a Rainha só sofre uma ameaça real ao visitar os Estados Unidos, sugerindo que os líderes acreditavam que a fragilidade da segurança norte-americana facilitaria o atentado.

A escolha de Leslie Nielsen para viver Frank Drebin era duplamente óbvia. Após décadas interpretando papéis sérios, quase sempre ligados à autoridade, o ator foi escalado pelos próprios produtores para estrelar Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu! (1980), clássico do humor deadpan que satirizava a franquia Aeroporto, sucesso do cinema de desastre dos anos 70. Na sequência, Nielsen voltaria a colaborar com o trio ZAZ no seriado Esquadrão de Polícia (1982), que, apesar do fracasso na televisão, deu origem a Corra Que a Polícia Vem Aí! (1988), posteriormente expandido em duas sequências ao longo dos anos 90. Nielsen faleceu em 2010, aos 84 anos, consagrado como um dos grandes comediantes da história do cinema.

A franquia não foi o último suspiro criativo do trio David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, mas talvez tenha sido o momento em que a magia começou a se dissipar. Ainda no início dos anos 90, eles realizariam dois filmes da franquia Top Gang!, parodiando o cinema de guerra. A partir daí, cada um seguiu caminhos próprios. David Zucker se enveredou pela franquia Todo Mundo em Pânico* nos anos 2000; Jim Abrahams dirigiu Máfia! (1998); e Jerry Zucker já havia alcançado enorme sucesso solo com Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990).

Qualquer possibilidade de um reencontro criativo do trio se encerrou definitivamente em 2024, com a morte de Jim Abrahams. Juntos — e também separados —, eles deixaram não apenas um legado de grandes comédias, mas sobretudo uma marca registrada no humor cinematográfico, baseada no rigor do deadpan, na paródia de gêneros e na seriedade absoluta diante do absurdo.

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