Críticas

Supergirl (84) | Rebobina 16

Na semana passada foi lançado o primeiro trailer de Supergirl, nova roupagem para a personagem que é prima de Superman. Ela já havia dado as caras rapidamente no último filme do primo, em uma participação breve, mas suficiente para indicar o tom: uma adolescente inconsequente, conectada com seu tempo, quase como uma teen pop contemporânea.

Esse vislumbre foi o suficiente para me motivar a revisitar a primeira versão da personagem nos cinemas. Lançado em 1984, Supergirl chegou com a proposta de expandir o universo do Homem de Aço, mas já em um momento delicado da franquia. Após o enorme sucesso de Superman: O Filme (1978) e Superman II: A Aventura Continua (1980), o terceiro capítulo, lançado no ano anterior, dava sinais claros de desgaste. Não foi uma missão fácil terminar as quase duas horas do longa da heroína.

Logo na primeira cena somos apresentados a Argo City, uma cidade de Krypton que sobreviveu à explosão do planeta e agora flutua pelo espaço. É ali que vivem Zaltar, uma espécie de cientista lúdico responsável por manter a sobrevivência da cidade através do Omegahedron, além de Zor-El, irmão de Jor-El, sua esposa e Kara Zor-El, prima de Superman. Por um descuido de Zaltar — incentivado pela curiosidade igualmente impulsiva de Kara — o objeto acaba sendo lançado em direção à Terra. Sentindo-se culpada, ela parte em sua busca, enquanto ele é punido com o exílio na Zona Fantasma, uma dimensão-prisão já conhecida do universo do Superman, utilizada para banir criminosos kryptonianos.

Supergirl (84) se perde quando chega à Terra

Tudo parece promissor na introdução, mas quando a trama chega à Terra, o filme começa a se perder. A construção de Kara como uma figura ingênua e quase angelical poderia funcionar, não fosse a decisão de desenvolver, em paralelo, um rito de passagem desconectado de sua própria missão. Sua chegada ao planeta é marcada por momentos de encantamento — o voo descoberto como um balé sobre o lago, o despertar ao lado de coelhos brancos em meio à natureza —, mas rapidamente esse deslumbramento dá lugar a escolhas que parecem ignorar a urgência da narrativa.

Em vez de buscar o Omegahedron, fundamental para a sobrevivência de Argo, Kara decide se matricular em uma escola para garotas, em busca de pertencimento, e se deixa envolver por galanteios de um homem mais velho, enfeitiçado pela vilã. O que deveria representar seu amadurecimento acaba soando disperso, como se seu rito de passagem existisse em um filme diferente daquele que apresenta a ameaça central. E esse é apenas um dos problemas que começam a se acumular a partir daí.

Quando Supergirl chega à Terra, surge imediatamente a pergunta inevitável: onde está o Superman? A resposta vem de forma apressada, pelo rádio de um carro, informando que o herói estaria em uma missão de paz a anos-luz de distância. Dentro da narrativa, é uma solução prática. Fora dela, a explicação é bem mais direta: Christopher Reeve optou por não participar do projeto. Insatisfeito com os rumos da franquia após Superman III, o ator preferiu se afastar, o que obrigou o roteiro a justificar sua ausência de maneira rápida, pouco elaborada e até chocante para os mais desavisados.

Como compensação, o filme recorre a um fan service insistente, mencionando o personagem ao longo da narrativa e incorporando elementos familiares como Lucy Lane, irmã caçula de Lois Lane, e Jimmy Olsen, amigo de Clark, interpretado pelo mesmo ator dos filmes anteriores. A tentativa de conexão se completa com uma passagem pela Zona Fantasma, que surge mais deslocada do que funcional — quase como um lembrete forçado de um universo ao qual o filme nunca consegue realmente pertencer.

Supergirl (84)
Supergirl (84)

Roteiro que subestima a inteligência do espectador

Outro aspecto que incomoda é o excesso de coincidências que conduzem a narrativa, como se o roteiro subestimasse a inteligência do público. O Omegahedron* cai justamente nas mãos de uma figura obcecada por poder, Selena, e, logo em seguida, Kara encontra abrigo em uma escola para garotas convenientemente localizada ao lado de onde ela chega à Terra. Como se não bastasse, passa a dividir o quarto com a irmã mais nova de Lois Lane. E para completar o quadro, um dos professores da instituição é justamente o assistente e discípulo de Selena. A soma dessas coincidências não fortalece a narrativa — pelo contrário, expõe suas fragilidades, tornando os acontecimentos previsíveis e artificiais, como se tudo conspirasse de forma conveniente demais para que a história avance sem esforço.

O que poderia ter sido um dos maiores acertos do filme acaba se perdendo na falta de tratamento adequado: o protagonismo feminino. A escolha por uma vilã que deseja dominar o mundo de forma ingenuamente caricata não fortalece essa presença, mas, ao contrário, fragiliza o próprio contexto em que Supergirl está inserida. Em vez de ampliar a importância da personagem, o roteiro reduz o conflito a uma disputa pouco convincente. A comparação com os filmes anteriores é inevitável: os antagonistas vividos por Gene Hackman, como Lex Luthor, e por Terence Stamp, como o General Zod, apresentam motivações mais claras e desenvolvimento mais consistente. Aqui, além de uma vilã mal construída, os personagens masculinos são frequentemente retratados como bobalhões ou facilmente manipuláveis, o que não contribui para elevar o protagonismo feminino, mas apenas empobrece o conjunto da narrativa.

Efeitos visuais usados de forma pouco inteligente

No primeiro voo de Supergirl, surge outro problema evidente: a limitação dos efeitos visuais. Em 1984, o cinema já havia demonstrado que era possível criar cenas impressionantes sem que parecessem artificiais demais — especialmente se lembrarmos do que foi feito em Superman: O Filme anos antes. Aqui, as sequências funcionam razoavelmente bem quando há paisagens estáticas ao fundo, como árvores, rios e colinas. No entanto, quando elementos em movimento entram em cena — como cachoeiras ou cavalos selvagens —, a ilusão se rompe e dá lugar a um desconforto visual. Revisto hoje, esse problema se torna ainda mais evidente.

Não se trata necessariamente de uma limitação tecnológica, mas de como ela foi utilizada. Em comparação direta com Superman, não há avanço — há, na verdade, um certo retrocesso no uso da linguagem visual, como se o filme não soubesse exatamente como tirar proveito dos recursos que tinha à disposição. Vale citar que a troca de roupa aqui é até bem trabalhada com cortes de cena, entretanto se em Superman, Clark Kent não é reconhecido por causa de um simples óculos e jeito bobalhão, aqui o que difere Supergirl e Linda Lee (sim, pseudônimo que ela escolheu), é a cor do cabelo que, pasmem, passa do louro para o preto.

Entretanto, o maior problema de Supergirl já dava sinais claros em Superman III e se agravaria ainda mais em Superman IV: Em Busca da Paz: a condução criativa, especialmente na escolha de tom. Ao abandonar a abordagem mais épica e respeitosa dos primeiros filmes e abraçar uma comédia excessiva, quase paródica, a franquia passa a diluir seus próprios personagens. O humor, que poderia funcionar como alívio pontual, torna-se dominante, enfraquecendo conflitos, esvaziando ameaças e transformando situações potencialmente dramáticas em momentos involuntariamente risíveis. Em vez de equilibrar leveza e grandiosidade, como fez Superman: O Filme, os filmes posteriores parecem indecisos, oscilando entre a fantasia infantil e a sátira, sem se comprometer plenamente com nenhuma das duas. O resultado é uma perda de identidade: não se trata mais de heróis enfrentando grandes desafios, mas de personagens presos em um tom que não sustenta o peso de suas próprias histórias.

Trilha-Sonora é a única coisa que se salva

Se há um elemento que se destaca de forma consistente em Supergirl (84), é a trilha sonora composta por Jerry Goldsmith. Seguindo a linhagem estabelecida por John Williams nos filmes do Superman, a música mantém o senso de grandiosidade e heroísmo que a narrativa muitas vezes não consegue sustentar. Com temas orquestrais elegantes e envolventes, Goldsmith cria uma identidade sonora que parece pertencer a um filme melhor do que aquele que vemos em tela.

E o resultado não poderia ser diferente: um fracasso nos cinemas. Supergirl teve uma passagem discreta pelas salas, seguiu para exibições televisivas e acabou acumulando poeira nas fitas VHS das videolocadoras. A personagem ficaria no limbo por décadas, até retornar aos cinemas agora, em 2026, em uma versão turbinada e alinhada aos novos tempos. Felizmente, o fiasco não comprometeu a carreira de Helen Slater, que no ano seguinte estrelou o delicioso The Legend of Billie Jean e seguiu trabalhando ao longo dos anos em títulos como The Secret of My Success e No Small Affair, entre outros. Já o diretor Jeannot Szwarc teve uma trajetória mais discreta, permanecendo em produções menores, filmes para a televisão e trabalhos episódicos.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Você não pode copiar o conteúdo desta página