Críticas

A Vingança dos Nerds: quando a maioria vence | Rebonina 010

A Vingança dos Nerds não perde tempo fingindo sutileza. Logo na primeira cena, somos apresentados a dois espécimes bem definidos de um “tipo social”: o nerd inseguro e o nerd autoconfiante. Gilbert, interpretado por Anthony Edwards, ainda se encontra protegido sob as cobertas de seu quarto quando Lewis, vivido por Robert Carradine, surge à porta com entusiasmo cronometrado, pronto para levá-lo rumo ao primeiro ano na faculdade. Em poucos minutos, o filme empilha seu inventário simbólico: números exatos, referências espaciais, humanoides, óculos de grau, um baú anacrônico e pais que ainda orbitam o filho adulto. Está tudo ali, exposto sem filtro, como peças de um experimento. Antes mesmo que qualquer conflito se estabeleça, já está claro que começa ali não apenas uma comédia, mas o que se tornaria o mais emblemático confronto entre nerds e atletas da história do cinema.

O nerd, porém, não nasceu naquele quarto, nem naquele campus. O termo surgiu décadas antes, nos Estados Unidos do pós-guerra, inicialmente como uma gíria para designar alguém excessivamente intelectual, socialmente deslocado e orgulhosamente desconectado das prioridades físicas e populares de seu tempo. Gilbert e Lewis não inventam o nerd. Eles herdam um arquétipo adulto (Professor, Cientista) e o vivem prematuramente, como se tivessem nascido já deslocados de sua própria idade.

O bullying tornou-se quase um rito de iniciação, uma linguagem de hierarquia que empurrava esses jovens para as margens visíveis do convívio social. A insegurança não era apenas emocional, era estrutural, resultado de um mundo que celebrava força, beleza e carisma enquanto ridicularizava introspecção e inteligência obsessiva. Não por acaso, muitos desses personagens encontravam refúgio simbólico no espaço sideral, nos foguetes, nos mundos distantes onde a lógica substituía o instinto e onde ser diferente não era uma falha, mas uma vantagem evolutiva. O nerd, antes de ser o vencedor improvável, foi o exilado imaginário de seu próprio planeta.

Quando os mais fortes se impõem

Quando os veteranos perdem sua própria casa e decidem simplesmente tomar as acomodações dos calouros, o filme abandona qualquer disfarce de comédia inocente e revela sua verdadeira geografia de poder. Expulsos e empurrados para dormir amontoados em um ginásio, “como refugiados”, nas palavras de um deles, os nerds passam a ocupar um espaço provisório que é tanto físico quanto simbólico. É ali que o filme amplia seu retrato dos excluídos: entre eles estão orientais, negros, homossexuais, árabes, instrumentistas classicos e outras variações do que a universidade não considera ideal. Do outro lado, os veteranos formam o oposto visual perfeito, um bloco homogêneo de corpos brancos, atléticos, confiantes e socialmente legitimados. A divisão é quase didática, mas não menos reveladora. Sob a superfície da comédia, A Vingança dos Nerds expõe uma hierarquia estética e cultural que, desconfortavelmente, continua familiar quarenta anos depois.

Essa hierarquia não se limita aos dormitórios, ela se reproduz também no topo da instituição. O próprio diretor da universidade é retratado como uma figura hesitante, cerebral e impotente diante da presença física e autoritária do professor de educação física, que acumula a função de treinador e, na prática, de comandante informal do campus. Nos anos 80, diretores e administradores escolares eram frequentemente associados ao arquétipo do nerd adulto, herdeiros diretos do cientista e do acadêmico do pós-guerra: homens de gabinete, mais familiarizados com regulamentos do que com confrontos, representantes de uma autoridade intelectual que existia no papel, mas raramente no campo.

Já o professor de educação física, por sua vez, era filmado como uma extensão da cultura militar que ainda ecoava na sociedade americana do pós-Vietnã. Apitos substituíam apitos de comando, quadras substituíam campos de treinamento, e disciplina física era tratada como valor moral absoluto. No universo simbólico do filme, ele não era apenas um educador, mas o guardião de uma ordem baseada na força, na obediência e na exclusão. O resultado é um contraste revelador: mesmo no alto escalão, o poder institucional pertence ao intelecto, mas o poder prático continua nas mãos do corpo.

A Vingança dos Nerds
A Vingança dos Nerds

Os nerds também amam

Ao alugarem uma casa decadente para fundar sua própria fraternidade, os nerds dão o primeiro passo rumo a uma forma legítima de existência dentro daquele ecossistema hostil. A festa de apresentação, organizada para impressionar o presidente nacional da Lambda Lambda Lambda, uma fraternidade historicamente formada por afro-americanos e igualmente familiarizada com os mecanismos de exclusão, carrega um peso simbólico que vai além da simples celebração. Mas, como manda a lógica implacável daquele microcosmo social, a reação é imediata. Atletas e líderes de torcida saboteiam o evento. Não se trata apenas de estragar uma festa, mas de reafirmar uma hierarquia. É nesse momento que o filme deixa de ser apenas uma crônica de rejeição e passa a preparar o que o próprio título já havia prometido desde o início: a vingança.

O baile dos nerds é, talvez, o momento mais sincero de todo o filme. As únicas mulheres presentes são integrantes de outra fraternidade igualmente deslocada, reforçando a ideia de que aquele é um universo paralelo, criado à margem do campus oficial. No início, a festa parece travada, quase constrangida, como se todos ainda estivessem aprendendo a ocupar aquele espaço. Eles não dominam os códigos sociais da celebração, não sabem exatamente como agir, mas compartilham os mesmos desejos de qualquer jovem: música, bebida, liberdade e descoberta. Aos poucos, o ambiente se transforma. A música cresce, as barreiras caem e a alegria deixa de ser uma performance e passa a ser genuína. Mesmo que o roteiro carregue nos estereótipos, há algo contagiante naquela felicidade improvisada. Eles não querem se tornar atletas ou líderes de torcida para merecer diversão. Querem apenas o direito de existir como são e, entre iguais, descobrir que isso já é suficiente.

A Vingança dos Nerds: olho por olho, dente por dente

A partir desse ponto, o filme abandona a posição de observador e abraça a lógica do revide. Os Tri-Lambda passam a agir com a mesma hostilidade que antes condenavam nos Alpha Beta e nas Pi, como se a única forma de equilíbrio possível fosse a repetição invertida da violência. O roteiro também se desloca para um terreno mais familiar ao cinema adolescente da época, aproximando-se de derivados de Porky’s, com nudez gratuita e um humor que aposta mais no choque e no constrangimento do que na construção de situações verdadeiramente cômicas.

Como comédia, sobram poucos momentos de espontaneidade real. A cena do cabo-de-guerra, por exemplo, é simples, direta e funciona justamente por isso, sem excessos. O restante, porém, provoca um efeito curioso: somos levados a uma espécie de autoanálise desconfortável, percebendo que muitas vezes não rimos de uma piada em si, mas do estereótipo exposto, da caricatura levada ao limite. O riso, nesse caso, revela menos o talento do roteiro e mais o quanto fomos condicionados a achar graça da própria exclusão que o filme, em tese, queria combater.

Michael Jackson, Queen e Talking Heads na vitrola

A trilha sonora cumpre um papel essencial nessa jornada, funcionando menos como pano de fundo e mais como narradora do que está por vir. Logo na abertura, “Revenge of the Nerds” anuncia, sem rodeios, que aquela história não será sobre aceitação, mas sobre revanche. Mais tarde, quando a primeira grande festa sai do controle ao som de “Burning Down the House” dos Talking Heads, a música deixa de ser metáfora e passa a ser ação literal, traduzindo em som o colapso da ordem estabelecida. Em contraste, é “Thriller”, de Michael Jackson, que injeta vida e confiança na festa dos Tri-Lambda, como se dissesse que, por uma noite, aqueles corpos deslocados finalmente pertencem à pista de dança. E quando a vitória chega, selando o improvável triunfo na competição que lhes garante respeito institucional, é “We Are the Champions”, do Queen, que oferece a coroação definitiva.

Ainda assim, o verdadeiro clímax não está no troféu, mas no discurso final, que não busca igualdade e aceitação, como o de Ronald Miller em Namorada de Aluguel, e sim revelação. A mensagem não é que os nerds podem se tornar como os outros, mas que os outros, na verdade, sempre foram minoria. O filme então deixa uma pergunta suspensa no ar: se os estranhos são a maioria, por que o poder continua concentrado nas mãos de poucos que raramente inspiram confiança? Talvez o campus da Adams College não seja uma exceção caricatural, mas apenas um espelho ligeiramente exagerado do mundo como ele sempre foi e, em muitos aspectos, continua sendo.

Robert Carradine: improvável líder de uma geração inteira

Escrevo este texto em forma de homenagem no dia da morte de Robert Carradine, aos 71 anos, nosso eterno Lewis Skolnick, o improvável líder de uma geração inteira de deslocados que finalmente se viram representados na tela. Seu talento ajudou a transformar um arquétipo em personagem e um estereótipo em símbolo. Ao seu lado, Anthony Edwards, felizmente ainda entre nós, completou a dupla central com sensibilidade rara, e juntos construíram o coração emocional do filme. Ambos seguiram carreiras discretas, mas deixaram marcas profundas no imaginário de quem cresceu à margem.

O elenco de apoio também merece lembrança: um ainda pouco conhecido John Goodman entrega uma excelente composição como o intimidador treinador Harris, personificando a autoridade física que domina aquele universo, enquanto James Cromwell surge em participação breve e precisa como o pai de Lewis, carregando em poucos minutos a herança intelectual que moldou aquele personagem. São presenças que, somadas, ajudaram a transformar A Vingança dos Nerds em algo maior do que uma comédia de sua época: um retrato geracional que, hoje, ganha contornos ainda mais humanos com a partida de seu principal rosto.

Quatro décadas depois, A Vingança dos Nerds permanece imperfeito, por vezes contraditório e preso aos excessos de sua época, mas ainda vivo como registro de um momento em que os invisíveis decidiram ocupar o centro do palco. Lewis Skolnick de óculos grossos e coragem improvável, lembrando que o mundo sempre pertenceu também aos que nunca pareceram prontos para ele. No fim, sua vingança não foi contra os atletas, mas contra a ideia de que não havia lugar para ele. E houve. Sempre houve.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Você não pode copiar o conteúdo desta página

GeraLinks - Agregador de links Trends Tops - Trending topics À toa na net