Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e mais novo projeto da diretora já vencedora do Oscar de Melhor Filme (Nomadland, 2020), Chloé Zhao, Hamnet é um drama de época baseado no livro acrônimo de Maggie O’Farrell, de 2020. Ambientado no século XVI, ele retrata uma história fictícia baseada nas vidas do escritor William Shakespeare e sua esposa, Anne Hathaway, reimaginada como Agnes Shakespeare, passando pela tragédia da morte de seu filho, Hamnet, para a então criação da peça de teatro mais famosa de todos os tempos: Hamlet.
Lindo, lindo e lindo
É difícil falar de Hamnet sem citar sua beleza estética e narrativa. Enquanto a narrativa é extremamente envolvente, a estética chama muito a atenção já que é parte essencial da construção de sua “mística” e retratação histórica, que tornam o filme tão intrigante.
Hamnet é um filme lindo, tanto em técnica, quanto em essência. Sua história parte de uma sutileza cotidiana para uma grande tragédia sem se perder no caminho. Ele trata de assuntos como morte, luto e paternidade de uma maneira muito orgânica.
Em uma indústria onde a tendência pende para um número cada vez mais elevado de produções que se forçam a ser empolgantes e constantemente estimulantes, Hamnet é um respiro de ar fresco. Chloé Zhao entrega uma narrativa meticulosamente construída, do início ao fim, mas mais importante, sem pressa para acontecer.
As cenas são contidas, grandiosas, sutis e desesperadoras quando têm de ser, trazendo um equilíbrio, onde tudo tem seu tempo devido. Esse aspecto, além do técnico, envolve um bom roteiro e uma direção muito competente em saber o que quer. Apesar disso, ele peca em alguns momentos, apesar de raros, ao estender sequências além do necessário, o que pode cansar e desconectar espectadores menos engajados.
Todo esse primor narrativo somado à edição, fotografia e som espetaculares, fazem de Hamnet uma experiência sem igual, que tira muito de seu espetáculo na imersão. Em muitos momentos eu me senti parte daquela história, é tudo muito crível, muito humano. Se você se permitir e pular de cabeça na narrativa, consegue sentir o que os personagens estão sentindo, se entristecer e se alegrar com eles, o que também passa muito pela entrega dos seus atores.
Jessie Buckley, uau
Se é difícil não falar sobre a beleza estética e narrativa do filme, é estritamente impossível não falar de Jessie Buckley, que interpreta a protagonista, Agnes. Mediante a outras ótimas performances no decorrer do filme, Jessie me deixou realmente sem palavras.
Com a difícil missão de dar vida a uma personagem tão complexa como Agnes Shakespeare (representante narrativa da esposa real de William Shakespeare, Anne Hathaway), que constrói uma vida feliz e a vê desmoronar na sua frente de uma hora para outra, Buckley demonstra que não é preciso verbalizar os sentimentos e emoções de um personagem se pode apenas vivê-los. Ela faz da câmera sua mera espectadora e entrega uma das atuações mais bonitas que já vi, tomando conta da atenção quando está em tela e sabendo exatamente o que o seu papel pede.
Paul Mescal faz um ótimo jovem William Shakespeare, conseguindo fugir do caricato que toma conta do imaginário popular e humanizando a figura de um dos maiores gênios da história da arte. Sua atuação não é grandiosa, mas muito sutil e perfeita para o seu personagem.
Impossível não destacar também os pequenos Jacobi Jupe e Olivia Lynes, que atuam como os filhos gêmeos de William, Hamnet e Judith, respectivamente. O nível de atuação que eles entregam aos 12 anos de idade é incrível, principalmente Jacobi, que dá vida ao personagem que dá nome ao filme, e não decepciona nem um pouco.
Além de emocionarem por si próprios, os atores têm uma sintonia absurda quando estão contracenando. O núcleo familiar dos Shakespeare é muito envolvente e te convida a entender mais sobre a família, suas felicidades, suas tristezas e seus desesperos, é certamente um dos pontos altos da obra.
Vale a pena? Pergunta retórica.
Hamnet emociona no orgânico e no simples. Com seu ritmo lento e contemplativo, passa longe de ser empolgante e estimulante, mas é um drama completo, extremamente bonito e fácil de se imergir. É um filme especial, que apesar de fictício em partes, tem uma essência histórica muito clara. É perfeito para quem busca se emocionar e um prato cheio para os amantes de drama e teatro.
Com a temporada de premiações já em andamento, vejo o projeto em uma ótima posição para se dar muito bem no Oscar. Com oito indicações, o filme tem a maior chance na categoria de Melhor Atriz, com Jessie Buckley, enquanto nas outras pode surpreender. Além deste, ele está indicado a Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Elenco, Melhor Direção (Chloé Zhao), Melhor Figurino e Melhor Design de Produção.
Onde assistir Hamnet
O filme está disponível em todas as redes de cinema do Brasil.
Sinopse de Hamnet
William Shakespeare e a sua esposa, Agnes, celebram o nascimento do seu filho, Hamnet. No entanto, quando uma tragédia atinge a família, Shakespeare se inspira a escrever a sua obra-prima intemporal, Hamlet.
Nota: ★★★★½
Título Original: Hamnet
Ano de Lançamento: 2025 (EUA), 2026 (Brasil)
Diretor: Chloé Zhao
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn, Emily Watson, Jacobi Jupe e Olivia Lynes.





