
Muito provavelmente você conheça a música “Purple Rain” de Prince — talvez até tenha ouvido o álbum completo, lançado em meados de 1984 com outros sucessos como “When Doves Cry” e “Let’s Go Crazy” — mas talvez nunca tenha visto o filme. Provavelmente pelo fato de que, apesar de o filme ter sido um grande sucesso comercial e de bilheteria norte-americana em 1984 e premiado com um Oscar de Melhor Trilha-Sonora Original, sua exibição e repercussão no Brasil foram relativamente mais discretas quando comparadas ao impacto global da trilha sonora e da carreira musical de Prince.
Com suas músicas retornando às paradas mundiais de streaming após a aparição de “Purple Rain” e “When Doves Cry” com grande destaque na última temporada da série Stranger Things, talvez seja uma boa hora de revisitarmos essa obra subestimada no Brasil.
The Kid (Prince) é um aspirante a rock star problemático. Apesar de ser um compositor e músico talentoso, enfrenta dificuldades de relacionamento, tanto com sua banda, The Revolution, quanto com sua namorada, Apollonia. Esse comportamento impede que sua carreira deslanche e faz com que as pessoas ao seu redor se afastem. Em casa, ele convive com a violência de seu pai, um músico fracassado e alcoólatra.
Diferente de outros filmes musicais com estética de videoclipe daquele período, como Flashdance ou Footloose, Purple Rain vai além da dança como libertação e da música como mero acompanhamento. Aqui, Prince canta e toca canções que narram. E mais do que isso: tudo é intenso. A música é rock, é pop, é funk. O corpo surge suado em closes, ora acariciado, ora agredido. São canções de amor — mas de um amor profundamente sexual, tenso e conflituoso.
A estreia de Prince como protagonista
Entretanto, ainda comparado aos filme citados acima, peca na produção. Purple Rain marca a estreia de Prince como protagonista no cinema e o restante do elenco é composto, em sua maioria, por músicos. Além disso, a direção de Albert Magnoli se aproxima muito mais de filmes B ou direcionados para a TV do que o cinema, e de certa forma pode incomodar espectadores mais exigentes.
Sua história do protagonista guarda muitas relações com a vida do próprio músico. Seu pai, John L. Nelson, também era músico e pianista, e os dois mantinham uma relação marcada por conflitos. Assim como The Kid, Prince é de Minneapolis e iniciou sua carreira tocando em clubes locais. Além disso, o artista era notoriamente conhecido por seu forte controle criativo e por um certo egocentrismo — traço que o filme incorpora e dramatiza na construção do personagem.
Um dos pontos centrais da trama é a concorrência pelo espaço musical. The Revolution é apenas um dos três grupos que se apresentam regularmente no clube First Avenue, conhecido por revelar artistas que alcançaram reconhecimento nacional. Essa disputa — mais criativa do que hostil — fortalece a cena local e faz com que cada grupo procure se superar a cada nova apresentação. O filme, assim, retrata um panorama da música pop na primeira metade dos anos 1980, marcada pela competição, pela busca de identidade sonora e pela urgência em se destacar.
Nos dias de hoje, o filme é acusado de ser misógino e sexista. O pai do protagonista agride a esposa branca, algo que ele próprio também faz com a namorada. Além disso, há uma cena famosa em que um músico rival joga uma jovem também branca dentro de um latão de lixo. No entanto, o roteiro apresenta essas atitudes como erradas, mostrando que elas geram consequências negativas.
A música como gesto de reconciliação
É nesse ponto que chegamos a Purple Rain, a música. Interpretada no terceiro ato, ela surge como um gesto de reconciliação. The Kid a dedica ao pai, transformando em arte aquilo que até então se manifestava apenas como raiva e silêncio. A letra fala sobre perda, arrependimento e aceitação. Inclusive, é um exemplo clássico de artistas que só conseguem se expressar através de sua música e usam o palco como libertação.
Apesar de o músico nunca ter deixado claro o significado de Purple Rain (“chuva púrpura”), gosto de imaginar que seja aquela que mal se enxerga na escuridão e que só se percebe ao sentir que passa por ela. Inclusive, a fotografia do filme usa e abusa de cores fortes como o púrpura, o azul escuro, o vermelho e o preto — muito característicos daquele período. Alô, Miami Vice!
É impossível não falar do álbum. Com canções que narram e expandem a história do filme, a trilha sonora de Purple Rain ganhou vida própria, conquistando público e crítica muito além das salas de cinema. Cerca de cinco sucessos — “When Doves Cry”, “Let’s Go Crazy”, “Purple Rain”, “I Would Die 4 U” e “Take Me with U” — transformaram Prince em um astro mundial. A faixa-título, em especial, tornou-se um marco: além de sintetizar emocionalmente o filme, apresenta um dos solos de guitarra mais celebrados da história do rock, em que técnica e sentimento se confundem em pura catarse.
Prince volta a ser o centro das atenções
Prince nos deixou há 10 anos, aos 57 anos, mas toda sua força criativa continua a impactar até os dias de hoje. Sua música segue inspirando artistas de diversas gerações e impulsionando projetos culturais — inclusive com a estreia da adaptação teatral de Purple Rain em Minneapolis em 2025, quem sabe um possível caminho até a Broadway.
Hoje, sua obra volta ao centro das atenções: após décadas em que ele resistiu a disponibilizar sua música em serviços de streaming, em 2026 o catálogo de Prince registrou um enorme aumento de reproduções no Spotify impulsionado por movimentos culturais recentes — destacando que seu legado artístico continua vivo, influente e redescoberto por novas audiências através de “Purple Rain” – a música. O filme você encontra para alugar no streaming.





